Marcos Alencar*
Foi o colunista Ibrahim Sued quem reinventou a bunda brasileira. O nome popular da região glútea nacional, até então, só era ouvido da boca dos moleques de rua ou lido nos contos de Humberto de Campos, na série “Conselheiro XX”. Em jornais de grande circulação, jamais. Eis então que o Ibrahim, para elogiar a beleza glútea da mulher brasileira, apossou-se da elegância da língua de Coco Chanel. E a partir de então o universo feminino brasuca passou a ter duas bundas. Uma nacional, para uso recatado. E uma francesa, que quando pronunciada em público não corava nem mesmo uma Filha de Maria. Um artifício que perdurou até, mais ou menos, a inauguração do La VacheQuiRit, um bar de gringo ali em Paul. Único lugar por aqui onde se podia ouvir Engelbert Humperdinck cantar.
Desenterrei a tal da derrière para não chocar leitores mais sensíveis que, sem dúvida, não suportariam botar os olhos numa página com a bunda de fora. Quer dizer, fora do texto. Lá em cima no título.
Dadas as devidas explicações, volto às calçadas da Praia do Canto onde tenho visto, com muita frequência, um detalhe que vem aguçando a minha curiosidade: as derrières alheias. Por favor, creiam-me que o que me move é apenas a curiosidade. E que, mais dia, menos dia, vai acabar me convencendo de que mereceriam um estudo científico. Não que sejam exageradamente grandes. Sério, não chegam a ser bundões. Mas, se traduzidos num gráfico, como os que retratam o desemprego no país, é possível observar que estamos diante de uma marca preocupante.
Seriam esses glúteos espontâneos ou cultivados? Desejados ou casuais? Certamente que devem pesar um pouco mais que os modelos standard, mas por outro lado certamente garantem um indiscutível conforto na hora de se sentar.
Sigo matutando. No caso de bundas cultivadas, quais seriam as causas desse esplendor calipígio? Seriam constituídas única e exclusivamente de músculos? Ah... as academias... as esteiras. O pedalar sem fim. Os intermináveis e cansativos agachamentos...
Cheguei a achar que bunda grande era coisa de gente rica. Até que dei de cara com dois operários parrudos descarregando um caminhão. Não sei quem tinha a bunda maior. Foi então que veio-me um insight: “Macaco olha pro seu rabo!”. O velho ditado me fez acordar para uma possível realidade. E com essa eu não contava. Seria eu um popozudo falando das popas alheias? Apalpei-me, olhei por cima do ombro, mirei-me no retrovisor de um carro, mas não deu pra ver. Quem me tranquilizou foi minha amiga Pupa Gatti que passava por ali: “Não tem ninguém fora dos padrões. Nem mesmo você”, garantiu-me ela.
Foi então que resolvi, de uma vez por todas, marcar – enfim! – a imperiosa cirurgia das minhas cataratas. Antes que eu fique cego de uma vez.
*O autor é cronista