Anaximandro Amorim*
Catedrais são mãos de pedra que se levantam do solo para tocar o céu. Um pacto subjacente de eternidade, vez que somos finitos, ainda que feitos à imagem e semelhança de Deus. Vê-las arder subverte a ordem do Divino e nos mostra o inferno sobre a Terra, enquanto, impotentes, vemos parte da nossa Humanidade se destruir, numa penitência pesada demais, mesmo para quem não comunga qualquer religiosidade.
A Catedral de Notre-Dame, cuja construção se inicia no século XII, não é apenas mais um monumento de pedra. Ela faz parte de um simbólico que tem na literatura sua expressão maior. Quem não conhece Quasímodo, o Corcunda, tão bem construído por Victor Hugo, quanto apropriado pela indústria cinematográfica? A criatura, um contraponto entre o belo e o grotesco, fazia do local a sua morada e dos gárgulas sua brincadeira. A imagem da Catedral nos é tão forte, que mesmo quem nunca ali pôs seus pés, sentiu como se parte da História nos fosse retirada à força.
Mais do que isso, ver Notre-Dame pegar fogo nos remete àquele universal, nosso elo enquanto espécie. Séculos consumidos em segundos, enquanto nos debruçamos nas mais diversas teorias: Foi terrorismo? Falha humana? Houve quem nem rezasse, mas se prostrasse à espera de um milagre que contivesse as chamas. Alguns apareceram à guisa de solução, como uma soma ofertada pela ONU, outra, por um milionário. Nenhuma delas, porém, refaz o que se tornou cicatriz de pó no rosto da História.
Fica, outrossim, a lição de que incêndio não escolhe hemisfério. O deles, “acima do nosso”, aparentemente, tão incólume, mostrou flanco aberto, o que significa: não há mundo perfeito. Há, no entanto, respostas rápidas: a Catedral ainda ardia enquanto a prefeita de Paris, Anne Hidalgo, e o presidente da República, Emmanuel Macron, consolavam o povo. Isso não apaga o fogo, mas esfria os ânimos. Aposto, entretanto, em uma reconstrução rápida, dentro do possível. Coisa de gente que sabe a diferença entre o “velho” e o “histórico”, a força da memória como construção de identidade e o papel do patrimônio na educação.
E nós, brasileiros? O que temos com isso? A certeza de que uma tragédia como essa dialoga com as nossas, como a do Museu Nacional ou como o da Língua Portuguesa; e de que, ainda que, sim, o dito “mundo desenvolvido” possa pegar fogo, refazer-se das cinzas não é só retomar o nosso pacto com o Divino, mas, também, reconstruir uma nossa Humanidade, tão essencial ante a loucura deste nosso século.
* O autor é advogado, escritor, membro da Associação dos Professores de Francês do Estado do Espírito Santo (APFES) e membro do Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo (IHGES)