
Antônio Carlos de Medeiros*
A questão da identidade social do capixaba (ou falta dela) é recorrente entre nós. Parece haver ainda um consenso em torno da ideia de que não temos uma “identidade” forte, como teriam os mineiros, gaúchos, baianos e cariocas, por exemplo.
O debate segue adiante e é ótimo que siga. A estrutura demográfica do ES teve constantes modificações. Nos anos 1960 e 1970, ela teve movimentos emigratórios. Depois, nos 30 anos seguintes, teve movimentos imigratórios. Modificações constantes. Quantos “somos daqui”? Quantos “mudamos para cá”? Enquanto o debate da identidade social segue – na academia, na literatura e na sabedoria popular – alguns de nós continuamos incomodados, por exemplo, quando nos perguntam se somos de Vitória da Conquista...
Em 2018, a Rede Gazeta fez uma campanha chamada “somos todos capixabas”. Um movimento que volta agora em 2019 envolvendo instituições de ensino do Estado, com produções audiovisuais e foco no “somos capixabas”. Boa iniciativa. A sociedade capixaba precisa se engajar numa “vibe” de fortalecimento da identidade social, a partir de mobilização permanente para o (re)posicionamento da nossa autoimagem e da nossa imagem no Brasil e no exterior. Tarefa para governo e sociedade organizada.
Mesmo com o movimento da Rede Gazeta, iniciativas de outras instituições da sociedade e/ou do governo poderiam ampliá-lo e conjugá-lo com projetos e atividades de turismo, esporte, cultura, civismo e associativismo: uma animação cultural e social. Já tivemos o “Viver é Ver Vitória”. Agora, quem sabe, possamos amplificar o “Somos Todos Capixabas”.
O Estado precisa ter símbolos de identidade. Precisa ter ídolos esportivos. Precisa valorizar talentos com o de Jeremias. Precisa mostrar que é uma terra de gente trabalhadora, com um PIB que cresce regularmente mais que a média nacional. Lá fora, nos veem como “tigres asiáticos”. E aqui, como nos vemos?
Precisamos, até, de um bom campeonato de futebol. Um campeonato que não passe a vergonha de ser esculachado, como outro dia, por Loco Abreu. Precisamos dar mais importância à nossa vocação turística, uma indústria sem chaminés que é mais compatível com nosso “caldeirão cultural” e nossa miscigenação étnica: índios, portugueses, italianos, alemães, pomeranos e afrodescendentes - todos rodeados por mineiros, baianos e cariocas.
Identidade social também é fermento para uma cultura de desenvolvimento e prosperidade. Em tempos fraturados, como agora no mundo todo, o retorno às identidades locais e regionais tem sido uma tendência das sociedades em redes e da chamada modernidade líquida. Num mundo globalizado, cada vez mais as pessoas estão em busca das suas raízes e do senso e sentimento de pertencimento social.
*O autor é pós-doutor em Ciência Política pela The London School of Economics and Political Science