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Artigo de Opinião

Economia

Bolsonaro abandona tripulação e deixa Guedes em avião sem combustível

Um presidente que acredita que sua parte da reforma era apenas enviar o projeto está deixando o seu ministro sozinho

Publicado em 27 de Março de 2019 às 20:58

Publicado em 

27 mar 2019 às 20:58
Jair Bolsonaro com Paulo Guedes, seu ministro da Economia
Thomas Traumann*
No seu discurso na posse de Roberto Campos Neto na presidência do Banco Central, o ministro da Economia, Paulo Guedes, fez uma inusitada analogia. Ele comparou o país com um avião que sobrevoa o oceano sem combustível levando os filhos dos brasileiros. Segundo Guedes, os pais teriam duas opções: pular de paraquedas e abandonar os filhos à morte (na metáfora, o equivalente a rejeitar a reforma da Previdência), ou aceitar “sacrifícios” e salvar as gerações futuras.
Ao final da palestra, o ministro fez um comentário irônico: “se o texto aprovado ficar abaixo de R$ 1 trilhão, eu vou sair daqui rápido, porque esse pessoal não é confiável. Não ajudam nem os filhos, então o que será que vão fazer comigo?”
A leitura imediata da metáfora do ministro foi a de que os pais da anedota eram os deputados e senadores que irão analisar evotar a proposta da reforma da Previdência. Pode ser, mas a realidade é que o pai que hoje está colocando o paraquedas para abandonar o avião é o presidente Jair Bolsonaro.
O presidente tem sabotado a reforma desde antes da sua posse. Eleito, ele descartou a proposta da reforma preparada pelo governo Temer. Ato contínuo, Bolsonaro impediu que o projeto de alteração das pensões militares seguisse para o Congresso simultaneamente à proposta da reforma geral. O resultado foi frustrante.
Corretamente, o Congresso decidiu não mover um músculo até a chegada da proposta militar. Depois, apensou-se à proposta um pacote de reestruturação da carreira e correção de benefícios que praticamente cancelou o valor que seria economizado. Paulo Guedes não apenas teve seu poder aviltado na questão militar como ainda perdeu o principal argumento em defesa da reforma da Previdência, a de que ela eliminaria privilégios.
Com boa vontade, seria possível supor que as desventuras em série da reforma são equívocos de um presidente inexperiente. Não são. Como o próprio Bolsonaro reconheceu em transmissão ao vivo via Facebook, o projeto é uma imposição.
Um presidente que acredita que sua parte da reforma era apenas enviar o projeto para o Congresso está, na prática, pulando com um paraquedas e deixando o seu ministro sozinho em um avião sem combustível.
Guedes tem duas opções. Ele pode ir embora ou tentar uma aliança pragmática com os ministros militares, o Congresso, o mercado,a mídia e ganhar mais combustível para seu avião ficcional. É um movimento arriscado porque usa a influência dos generais ao lado de gente odiada pelo presidente, como o establishment e a chamada velha política. Mas talvez seja a única alternativa para impedir o presidente de fugir da sua responsabilidade com as futuras gerações.
*O autor é jornalista, autor do livro “O pior emprego do mundo”, consultor político-econômico independente, pesquisador da FGV e ex-ministro de Comunicação Social (2014-2015)
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