
Henrique Geaquinto Herkenhoff*
Andamos discutindo publicamente o decreto que flexibilizou o porte de armas, e parece até que eu, meu sucessor na pasta da Segurança Pública, e o atual secretário nos reunimos antes para afinar o discurso. Pelo visto, todo mundo que senta naquela cadeira, onde não dá para pensar com o fígado, chega sozinho às mesmas conclusões: não se deve incentivar alguém a reagir em caso de assalto e é preocupante que armas de fogo adquiridas por cidadãos de bem sejam mal utilizadas e/ou caiam nas mãos de criminosos. Aliás, a secretária de Direitos Humanos fez declaração no mesmo sentido.
Depois recebo a fotografia de três leões observando um porco-espinho, sem ânimo para atacá-lo. É o tipo irrespondível de argumento, excelente para ganhar discussões sem necessariamente ter razão. De fato, a discussão acaba, porque não tenho como endereçar certas perguntas ao bichinho.
Será que ele precisou treinar para usar seus espinhos? Ele pagou por essa arma, ou ela é igualitariamente distribuída entre todos os da sua espécie? Existe alguma possibilidade de os leões tomarem esses espinhos e o usarem contra a própria vítima? Como os porcos-espinhos fazem para se reproduzir? Já que a espécie ainda existe, suponho que de alguma maneira essas armas naturais nunca interfiram nas relações domésticas...
A imagem é particularmente boa porque captura o imaginário daqueles que gostariam de se sentir blindados contra assaltantes – ou seja, todo mundo, inclusive eu. O problema é que não enfrenta as questões que surgem para os humanos, mas não para os porcos-espinhos. Animais não têm leis e instituições incumbidas de sua segurança; não têm escolha senão protegerem a si mesmos com o que a natureza lhes dá, e o fazem instintivamente. Por outro lado, não precisam provar a ninguém que agiram em legítima defesa e os porcos-espinhos não ferem outros da mesma espécie, apesar da fábula bonitinha que você pode encontrar na internet.
A única coisa que os espinhos e as armas de fogo têm em comum é que são uma proteção imaginária, com o perdão do trocadilho: o porco-espinho sabe muito bem que não está tão resguardado assim, se o ataque vier por baixo, e vive escondido em cavernas, buracos ou troncos ocos.
A discussão é da democracia e esta aqui irá longe, mas é importante estar atento: por que será que três dos que, no ES, já tiveram essa responsabilidade nos ombros pensam tão parecido?
*O autor é professor do mestrado em Segurança Pública da UVV