
Kleber Galveas*
A Prainha de Vila Velha era rasa, e com muitas pedras cobertas de ostras no fundo. Mesmo os barcos pequenos tinham dificuldade em chegar até a margem, para deixar os passageiros. Entre as algas que flutuavam em grande quantidade em suas águas, predominavam as alfaces-do-mar comuns nos mares temperados da terra. Pareciam folhas de papel celofane verde. Quem mergulhava emergia coberto por elas. A garotada imitava monstros, como os do cinema, cobrindo o corpo com as algas durante o banho de mar. Quem caminhava na água saía com a canela forrada. Faça o teste na Praia do Ribeiro, na Praia da Costa.
Em mapa de 1764, estão assinaladas mais de duas dezenas de cais em Vitória. Os principais são: Colunas, Azambuja, Grande, Santíssimo, Batalha e Jesuítas. Em Vila Velha, não havia nenhum cais eficiente. Em 1860, Pedro II inaugurou o maior de Vitória, o do Imperador. Quanta inveja despertou na vizinha.
As pessoas que vinham de barco para Vila Velha (principal transporte do século XVI ao XX), na maré baixa, desciam dentro d’água, chegavam à praia com calças e vestidos enrolados para cima e sapatos na mão, para não molhar, e as canelas verdes, cobertas de algas.
Segundo o coronel José Joaquim Machado de Oliveira, governador do Espírito Santo, a primeira capital (VV) se orgulhava da primazia na colonização, porém descuidava-se. Perante a Assembleia Provincial (1841), ele a comparou a um velho e, em seguida, a uma velha: “Não devo aqui omitir que o município de VV simboliza um velho venerando que, com a consciência da alta categoria que representou, não cura de mais nada, e, cheio de vanglória pelas tradições e reminiscências do seu passado, exige imperiosamente que se lhe tributem homenagens e deferências e se considere o seu estado de inação como muito compatível com a posição que figurou... Mas, senhores, deixemos repousar esta velha pacífica sobre seus pergaminhos e embalada pelas suas recordações de glória e preponderância primitiva” (Cezar Marques, 1878).
A relação entre a antiga e a nova capital não era amistosa, desde a transferência patrocinada pelos jesuítas e Duarte Lemos, na ausência do donatário, que estava na Europa (e que na volta continuou morando em VV). A mágoa persistiu por 400 anos.
Os capixabas apelidaram a Vila do Espírito Santo de “Vila Velha”; e seus moradores, de “canelas-verdes”. O primeiro apelido foi assimilado, destacava a primazia na colonização. Mas canela-verde era “enchova”, que “pocava” nosso orgulho. Apontava uma deficiência grave em cidade litorânea: a ausência de um cais decente.
A adoção de apelidos inicialmente maldosos é fato comum. A mais conhecida é a do “impressionismo”. Esse termo foi usado pejorativamente por um crítico (1874) aplicado a uma pintura de Monet, exposta no Salão dos Artistas Independentes. A tela obteve tanto êxito, que o impressionismo se tornou o estilo de pintura mais difundido no mundo.
A origem depreciativa da alcunha canela-verde perdeu-se com a aceleração do crescimento das duas cidades e com a ligação feita por bonde, estrada e pontes. O vilavelhense esperto, na era da comunicação, agradece o “batismo”, assume o apelido e proclama sem ressentimento: eu sou canela-verde!
*O autor é pintor e escritor