
Henrique Geaquinto Herkenhoff*
Com a mudança no governo estadual, estamos também próximos de completar dois anos da paralisação da Polícia Militar no Espírito Santo. Para muitos, parece algo em um passado distante, mas, para os militares, tudo continua aceso e nada está normal. Há cicatrizes profundas e chagas abertas que nem mesmo a tropa ainda percebeu. Não são apenas ressentimentos pessoais, e se ilude quem imagina que ficarão atrelados a este ou aquele comandante ou político.
Houve um processo agudo e doloroso de retirada de apoios mútuos e quebra das relações de confiança recíproca às quais estávamos acostumados: entre policiais e seus governantes e comandantes, mas também entre policiais e a população, entre superiores e subalternos, entre colegas da mesma patente, entre policiais militares e civis, promotores e magistrados etc. Quando o movimento acabou, a vida foi voltando ao normal, e esses parceiros – habituais e essenciais – se esqueceram aos poucos dos momentos de atrito, mas para os policiais militares ficou a síndrome do desamparo aprendido. Para eles, 2018 nem começou.
Estudados inicialmente pelo psiquiatra americano René Spitz entre crianças deixadas em orfanatos, os mesmos sintomas também se manifestam em adultos longamente hospitalizados ou nos funcionários que permanecem em seus empregos após uma demissão em massa. Será necessária uma bola de cristal para saber se serão aplicadas as punições legalmente previstas ou se haverá anistias administrativas e criminais, mas em nenhum cenário vi ser discutido como recompor os laços de confiança e apoio recíprocos sem os quais um policial não estará motivado para o seu trabalho.
O artigo “Falcão negro em perigo”, publicado pela Harvard Business Review, revela como, paradoxalmente, as pessoas mais motivadas são as que mais profundamente se ressentem de qualquer fator desalentador, caindo em profunda letargia quando não podem apresentar o seu desempenho máximo. Ou seja, os mais atingidos são os nossos melhores soldados, a elite de nossas tropas.
Não me atreverei a dizer nestas curtas linhas como resolver a situação. Fica apenas este registro: punição ou anistia não serão suficientes, como tampouco melhorias salariais, que foram o estopim, mas não a essência do problema. Se quisermos que a PM tenha um ano novo, é bom aprendermos a lidar com uma tropa em depressão anaclítica.
*O autor é professor do mestrado em Segurança Pública da UVV