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Orlando Caliman

Argentina não nos inquieta somente no futebol

Não podemos nos valer apenas do tamanho da nossa economia para nos proteger e garantir que o resto do mundo continuará a nos comprar e financiar

Publicado em 16 de Maio de 2018 às 20:12

Públicado em 

16 mai 2018 às 20:12
Orlando Caliman

Colunista

Orlando Caliman Orlando Caliman
Casa Rosada, na Argentina Crédito: Arquivo/AG

A Argentina nos inquieta não somente no futebol, embora seja nesse esporte que temos maiores desavenças, reconhecidamente não superáveis. Na economia e na política, volta e meia deparamo-nos com eventos passados e reincidentes que se tocam e que, muitas vezes, produzem efeitos recíprocos. Pelo peso de nossa economia, nossa força e potencial, os efeitos sempre foram mais temidos pelos hermanos. No sentido inverso, porém, não podemos subestimar potenciais efeitos perturbadores ao nosso já tão perturbado e caótico ambiente interno.

Atualmente, temos passados por problemas lá e cá. Se na economia encontramos o Brasil menos vulnerável, o nosso país vizinho passa por uma forte tormenta que o expõe ao vendaval de uma crise cambial. Se assemelha em muito ao que aconteceu em 2001, quando de uma só vez o Peso desvalorizou-se em 40%. Também não muito diferente do que tivemos aqui no Brasil em vários momentos.

Sintetizando, o nosso vizinho encontra-se desfalcado de duas das três âncoras básicas de uma boa política de estabilização macroeconômica: a fiscal e a monetária

Sem dúvida, observando a economia dos dois países, o Brasil posta-se em posição melhor, porém, não confortável. Isso por razões que vão desde o “colchão” de divisas acumuladas, passando pela baixa inflação, juro básico também baixo, contas externas razoavelmente equilibradas e relativamente baixo endividamento externo. Coisas que lá na Argentina não vamos encontrar. Ao contrário, o país vizinho convive com déficits externos crescentes, baixo nível de divisas, inflação de 25% ao ano, juro básico de 40% e em alta, e dívida externa proporcionalmente maior do que a nossa. No entanto, estamos no mesmo barco em relação às contas públicas: déficit fiscal e dívida pública nas alturas e fora de controle. Como aqui, lá também o sistema previdenciário necessita urgentemente de reforma.

Sintetizando, o nosso vizinho encontra-se desfalcado de duas das três âncoras básicas de uma boa política de estabilização macroeconômica: a fiscal e a monetária. E as duas comprometendo a cambial, que está, por sua vez, descambando para uma escalada especulativa de desvalorização do Peso. Por sorte - e é onde se diferencia do Brasil -, ainda percebe-se um ambiente político mais “arrumado” e previsível.

O caso da Argentina, mais do que possíveis e potenciais contágios negativos que possam afetar o Brasil, deve servir-nos de fonte de preocupação e alerta. Não podemos nos valer apenas do tamanho da nossa economia para nos proteger e garantir que o resto do mundo continuará a nos comprar e financiar. Temos que dar conta das nossas fragilidades. E, nesse aspecto, o caminho necessariamente passa pela questão política.

Orlando Caliman

Orlando Caliman Orlando Caliman

É economista. Analisa, aos sábados, o ambiente econômico do Estado e do país, apontando os desafios que precisam ser superados para o desenvolvimento e os exemplos de inovação tecnológica

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