A violência em tela ocorrida neste carnaval ilustra uma das principais problemáticas nacionais: o racismo brasileiro. Não se trata de mal-entendido, de brincadeira ou de um fato isolado na sociedade. Estamos diante de uma das faces do típico ato de racismo presente no cotidiano brasileiro. Notadamente estamos diante de um desafio nacional, pois o Brasil possui a segunda maior população negra do mundo e, mesmo após 130 anos de assinatura da Lei Áurea, uma parcela da sociedade ainda preserva uma ideologia escravocrata.
O episódio em tela desmonta qualquer tentativa discursiva em torno da ideia de que no Brasil vivemos uma democracia racial, pelo contrário, demonstra que o racismo constitui um dos elementos nucleares para compreensão do “tipo” de relações sociais no país que produzem prejuízos aos negros e privilégios aos brancos.
Negros e negras no Brasil, historicamente, sofrem estigmas e estereótipos que violam seus direitos humanos e civis. Tais práticas de discriminação racial contra os negros estão articuladas a outra prática social: a produção de privilégios sociais para o branco. Muito já foi estudado desde Guerreiro Ramos, nos anos 1950, sobre a "patologia social do branco brasileiro". Aí reside outro ponto importante para compreendermos esse caso de racismo.
Infelizmente, esse não é um caso isolado. Constatamos que os apelidos mais pejorativos são atribuídos aos negros, que os valores nacionais são eurocêntricos, que a mídia retrata a imagem africana e afrobrasileira de forma estereotipada. Nesse cenário, estudos e pesquisas recentes demonstram que entre as principais barreiras à ascensão social do negro brasileiro destaca-se a estigmatização nas relações interpessoais (racismo interpessoal) e nas relações institucionais (racismo institucional).
Como resultado desta violência racial interpessoal ou institucional, a população negra no Brasil, ainda no século XXI, vive em condições de extrema vulnerabilidade social. Tal diagnóstico aponta para a importância de políticas públicas com foco em: ações afirmativas (na modalidade de cotas no ensino superior e em concursos públicos); educação antirracista que visa favorecer relações étnico-raciais positivas; e mecanismos de repressão à violência racial na forma prevista em lei. Para isso, a sociedade e as instituições brasileiras já dispõem de um amplo conjunto de diretrizes, legislações e normativas a serem cumpridas!
Gustavo Forde
É doutor em educação e pesquisador da área de relações étnico-raciais.