*Victor Gentilli
O jornalismo é serviço público. Exige paixão, vocação, dedicação. Jornalismo tem que ter pulsação, palpitação, vibração, trepidação. Mas é uma atividade que exige muito conhecimento, muita sensibilidade. Jornalismo tem que ser estudado a sério e pensado e feito por profissionais como uma ciência. Arrisco aqui uma síntese do pensamento de Alberto Dines, jornalista que o Brasil perdeu ontem, aos 86 anos.
Em 1975, quando ingressei na minha graduação na Faculdade Cásper Líbero em São Paulo, tomo conhecimento do lançamento do livro “O Papel do Jornal”, escrito e publicado em 1974. Nele, Dines sistematizava o que ensinou na PUC-RJ ainda nos anos 1960 e estudou no período que passou como professor visitante na Universidade de Columbia, em 1973/74. Foi a leitura mais densa sobre jornalismo na minha graduação.
Segue como bibliografia básica de uma disciplina que ofereço aos alunos do primeiro período na Ufes. Em meados do mesmo ano de 1975, a “Folha de S. Paulo” começa a publicar na página 6, aos domingos, a coluna “Jornal dos Jornais”. Inquestionavelmente, o ponto de partida no Brasil daquilo que conhecemos como crítica de mídia. A coluna dura pouco, vai até outubro de 1977, quando uma ameaça de fechamento da “Folha” pelo regime faz com que o jornal recue drasticamente em seus movimentos de modernização. Mas é irreversível. Segue para “O Pasquim”, vai a Portugal e, em 1996, Dines inaugura o “Observatório da Imprensa”, na rede até hoje, embora com dificuldades.
Os jornais são o espaço privilegiado para a crítica de tudo o que ocorre com os políticos, os gestores, artistas, jogadores e técnicos de futebol. Por que os jornais não podem ser assuntos para os jornais? Mas em tempos de tanta intolerância, vale lembrar a tranquilidade com que Dines convivia com os pensamentos mais diversos. Raros são os veículos como o “Observatório da Imprensa”, onde é possível encontrar textos com olhares a partir dos mais distintos pontos de vista. Isso não é pouco.
*O autor é jornalista e professor da Ufes.