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Opinião da Gazeta

A falácia da divisão

Estados Unidos, ao longo de sua história, são exemplo de que a divisão nas urnas não ameaça a saúde democrática de um país

Publicado em 18 de Novembro de 2018 às 07:25

Públicado em 

18 nov 2018 às 07:25

Colunista

Uma nota da seção “Há 50 anos” publicada semanas atrás abordava a vitória de Richard Nixon nas eleições norte-americanas de 1968. Chamava atenção um fenômeno recorrente na disputa nas urnas do país que se gaba de ter colocado a democracia no seu mais alto nível: um resultado apertado, com o republicano vencendo com 31,7 milhões de votos o democrata Hubert Humphrey, com 31,2 milhões. Mesmo sabendo que o que conduz um candidato à Casa Branca é o colégio eleitoral (com, eventualmente, o vencedor tendo menos votos populares do que o rival), pode-se dizer que a democracia, para se legitimar, não depende de uma maioria hegemônica. Os Estados Unidos estão aí para provar que a divisão nas urnas nunca paralisou a nação.

No Brasil, a diferença entre Jair Bolsonaro e Fernando Haddad no segundo turno ultrapassou os dez milhões de votos e, mesmo assim, há vozes que superestimam essa vantagem, como se ela desqualificasse a vitória. É maior que a de 2014, com Dilma superando Aécio em quase 3,5 milhões de votos. Em ambos os casos, a democracia não cobra a diferença, por convenção a vitória é da maioria, seja ela esmagadora ou não. Bolsonaro, ao tomar posse em janeiro, será o presidente de todos os brasileiros, como já foi dito e redito neste espaço.

Contudo, um pacto foi firmado e precisa ser mantido, mesmo que certa concertação seja necessária. A vitória de Bolsonaro se ampara num projeto de país distinto do proposto por seu concorrente, principalmente no que concerne ao tamanho do Estado. Inchado como está, deixa explícita a sua ineficiência e também permite a propagação da corrupção. Bolsonaro fez um aceno ao liberalismo em sua campanha, deve se comprometer com uma reforma de Estado que corte privilégios e desestimule a prática de ilícitos com recursos públicos. São propósitos que precisam unir o país.

Não somos os Estados Unidos, historicamente polarizados pela predominância do bipartidarismo. O revezamento entre democratas e republicanos não pode ser comparado à alternância entre o PT e o PSDB ocorrida na jovem democracia brasileira, interrompida agora por Bolsonaro. Mesmo com as diferenças, o exemplo de como superar a divisão é válido: os Estados Unidos são a mais longa e sólida democracia do planeta porque sempre priorizaram a busca do consenso. Tanto Bolsonaro quanto a oposição devem ter essa compreensão, para que o bem comum prevaleça.

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