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Vitor Vogas

A cultura do empreendedorismo político

Ao dar posse ao novo comandante-geral da PMES, coronel Ramalho, PH puxou aplausos, elogiou o coronel Nylton e, diante da tropa, deu carta branca para ele liderar a Sesp. "Não é só dar ordens."

Publicado em 26 de Abril de 2018 às 10:12

Públicado em 

26 abr 2018 às 10:12
Vitor Vogas

Colunista

Vitor Vogas

A recente janela partidária provou mais uma vez que políticos trocam de partido como trocam de roupa. Só no Espírito Santo, dez dos 30 deputados estaduais (ou um terço da Assembleia Legislativa) e quatro dos dez deputados federais passaram de uma sigla para outra, em busca de melhores condições práticas para conquistarem um novo mandato nas eleições deste ano. O casuísmo com que mudam de partido se assemelha à facilidade com que abandonam mandatos pela metade em busca de outros “mais altos”. Para o cientista político Fernando Pignaton, esse comportamento dos parlamentares, e políticos em geral, pode ser explicado pelo conceito de “empreendedorismo político”, emprestado por ele do professor Luiz Werneck Vianna.
Crédito: Amarildo
Segundo Pignaton, a cultura do empreendedorismo, que dá certo e é virtuosa no mundo dos negócios, tem sido transposta automaticamente para o mundo político, onde tem se mostrado viciosa. Ele explica:
“Essa cultura saiu do mundo econômico, onde é uma cultura virtuosa, para o mundo político, onde é viciosa. No mundo econômico, a livre iniciativa, a atitude individual, enfim, esse apetite dos empreendedores mostrou-se uma coisa virtuosa no mundo, proporcionando a geração de riquezas. Agora, na democracia, os mecanismos são outros. Onde a gente tem República e onde a gente tem democracia, a gente precisa ter alavancas para poder dirigir a vontade nacional. E essas alavancas são os partidos políticos. Os partidos são (ou deveriam ser) mecanismos para agregar interesses e valores em correntes de opinião e depois agregar algumas correntes de opinião num programa ideológico. Essa agregação tem seus mecanismos próprios.”
Segundo Pignaton, a cultura do empreendedorismo político resulta da influência do poder econômico nas eleições. A partir do momento em que o dinheiro é o que determina o resultado das urnas e portanto a representação política, candidatos mandam às favas questões partidárias, programáticas e ideológicas, em prejuízo da democracia, para se focarem só no que realmente lhes importa: onde vou conseguir me eleger?
“Empreendedorismo político aparentemente soa bonito, mas significa a transplantação automática, para o mundo político, de um conceito muito sadio e muito virtuoso no mundo econômico. É um subproduto de tudo o que foi desnudado pelo mensalão e pelo petrolão.”
No limite, esse pragmatismo eleitoral rima com individualismo. O que vale é a atuação e o crescimento político individuais, em detrimento da ação política coletiva organizada em partidos, bancadas e blocos que realmente guardem coesão e coerência interna. Consequentemente, cada partido, hoje, não passa de mero cartório onde o cidadão vai fazer o seu registro eleitoral para poder ser candidato. “Não existe vida partidária.”
O empreendedorismo político, continua Pignaton, faz com que cada parlamentar se comporte como uma ilha, ou melhor, como uma microempresa política, colocando seu mandato a serviço de sua “clientela” (seu nicho específico do público no “mercado eleitoral”) e disponibilizando um exército de assessores que operam como funcionários dessa empresa, dedicados exclusivamente a atender os reclames dessa clientela para mantê-la fiel. Assim, os clientes continuam investindo na empresa, ou comprando seu produto, por meio do voto.
“Isso faz com que cada parlamentar funcione como se fosse uma empresa de prestação de serviços, com uma lógica própria e corporativa. O que é bom para aquela empresa, o parlamentar acolhe. O deputado tem uma ‘clientela’, que é uma parte despolitizada do eleitorado, e presta serviços a essa clientela. Aí ele cria um monte de assessores para atender a essa clientela. Mas isso não se soma aos interesses públicos. O empreendedorismo político, com individualismo exacerbado de cada parlamentar, nunca provoca agregação de interesses e de correntes de opinião. Isso enfraquece a democracia, desprovida assim do seu poder de agregar interesses coletivos, conclui Pignaton.
Chapa só do PRB?
O pré-candidato à Presidência da República pelo PRB, Flávio Rocha, afirmou em entrevista a A GAZETA que o partido no Espírito Santo vai apoiar a candidatura à reeleição do governador Paulo Hartung (PMDB), se este realmente se lançar. Mas destacou que, se Hartung não for candidato, o PRB pode até lançar chapa majoritária completa, com candidatos a governador, vice-governador e senador.
“Acuda-me!”
Descontado o fato de que uma chapa puro-sangue de um partido assim é completamente inviável (que sigla aliada aceitaria isso?), perguntamos a Rocha que nomes do PRB no Estado fariam parte da chapa. Neste momento, ele claramente hesitou. Olhou por cima do ombro para Devanir Ferreira, também do PRB, que estava bem atrás dele, como a pedir auxílio. Depois, disfarçadamente, deu uma olhada de rabo de olho na tela de seu smartphone.
Cola básica
A tela trazia uma colinha básica, com a lista dos nomes mais influentes do PRB no Espírito Santo: Rodney Miranda, candidato a deputado federal; Roberto Carneiro, presidente. E por aí vai...
Recém-chegados
Não dá para condenar Rocha por não saber os nomes de cabeça. Muita gente acabou de ingressar no PRB. Inclusive ele.
PRB pesado
Independentemente disso, circula nos bastidores políticos a hipótese de que, se Erick Musso for vice de Paulo Hartung, Amaro Neto “desça” para deputado federal e Devanir Ferreira para estadual. Isso porque, com Musso na vice e Amaro candidato a senador, o espaço do PRB na chapa ficaria muito denso.
Cicerone
Rodney Miranda fez questão de levar Flávio Rocha para uma rápida visita ao Convento da Penha.
Cena política
Na inauguração do calçamento de ruas em Vila Poranga, distrito rural de Barra de São Francisco, no sábado, o senador Ricardo Ferraço afirmou que não nasceu em berço de ouro. “Meu avô era cafeicultor em Cachoeiro e só calçou o primeiro sapato aos 15 anos de idade”, disse o tucano. Isso confirma dois pontos: 1. Ferraço está mesmo rodando bastante pelo Estado; 2. Está mesmo empenhado em se atribuir uma imagem mais “do povão”.

Vitor Vogas

Jornalista de A Gazeta desde 2008 e colunista de Política desde 2015. Publica diariamente informações e análises sobre os bastidores do poder no Espírito Santo

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