A pescadora Edicléia Passos Ponche, 72, viveu por 60 anos do que o Rio Doce oferecia. Foi com o dinheiro da pesca que ela e o marido conseguiram o sustento dos três filhos. Mas há três anos, após o rompimento da barragem de Fundão, em Mariana, Minas Gerais, a vida dela e dos colegas de profissão mudou por completo em Maria Ortiz, Colatina, no Noroeste do Estado. A dor e a tristeza passaram a fazer parte da sua rotina e, há seis meses, ela foi diagnosticada com depressão.
“Acabou nosso Rio Doce, é como ter perdido um ente querido. Agora, gosto de ficar mais dentro do quarto, pelos cantos. Outro dia saí do nada pela rua, estou com um desgosto. A gente sofre muito, tem hora que penso que vou morrer. Dias depois do desastre senti muita dor no peito, médicos disseram que era falta de circulação por falta de atividade. Atualmente, tomo remédio para depressão e circulação”, relata.
O Rio Doce faz parte da vida social e econômica das tradicionais vilas de pescadores. Nesses locais, a falta da atividade nele trouxe impacto na saúde mental das pessoas. Algumas refugiaram-se na bebida e acabaram se tornando alcoólatras, outras entraram em depressão e trocaram a rede de pesca pelos remédios controlados.
O filho de Edicléia, Domingos Ponche, de 46 anos, está com a mesma doença. Para ele, a lama mudou a vida dos pescadores por completo: não há mais atividade econômica e lazer. Ele não consegue nem fugir das lembranças do rio, que corta o quintal de sua casa.
“O desastre acabou com a nossa vida de pescador. Hoje a gente só tem tristeza, é remédio caro para comprar, não durmo à noite. Eu não espero mais nada, ninguém mais dá emprego para um homem com essa idade e não sei fazer nada a não ser pescar. Para mim acabou tudo, só tenho Deus. A empresa não faz nada por nós, tiraram nossa atividade e não deram outra para a gente”, desabafa.
Domingos relata que o desastre acabou com a tradição da família Ponche, a primeira de pescadores da região. O filho de 15 anos que todos os dias saía do colégio e ia para o rio pescar com ele passou a se dedicar ao videogame. Já o neto de 2 anos está sendo ensinado que o rio não é mais lugar de brincar nem de pescar.
“As empresas Samarco, Vale e BHP acabaram com a nossa tradição. Meu menino nem no rio quer ir mais. Agora ele está pensando em entrar para a polícia”, desabafa o pescador, que também é pai de uma jovem de 20 anos.
DOENÇAS
O coordenador do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), Heider Boza, diz que aumentaram os relatos de aparecimentos de doenças nos municípios atingidos. Ele relata que são doenças físicas e mentais que acometeram milhares de pessoas pelo caminho da lama em Minas Gerais e no Espírito Santo.
“Os relatos são diferentes em cada região. Em Colatina e Governador Valadares (MG), problemas de pele e de intestino são as principais reclamações. Em Barra Longa (MG), há problemas respiratórios. Já nas comunidades pesqueiras o que toma conta é o alcoolismo e a depressão”, comenta.
Todos os dias o pescador Dércio Henrique Gonçalves, de 74 anos, acordava às 3h para pescar, atividade que foi tirada após a chegada da lama em Mascarenhas, Baixo Guandu. O barco novo que havia comprado em 2015 ainda ocupa a varanda da residência e nunca foi colocado no rio. Em lágrimas, ele conta como era o rio e não cansa de falar sobre os tipos de peixes que pegava na época. Meses depois da tragédia ele foi diagnosticado com câncer de próstata. Desta doença ele conseguiu se livrar, mas a angústia só aumentou desde as últimas entrevistas que o pescador deu para A GAZETA após o desastre ambiental.
“A solução é o rio, nunca mais entrei nele para pescar. Agora eu fico parado, é triste demais. Eu já peguei de 40 a 50 quilos de dourado, cascudo, robalo. Eu andava com minhas filhas no rio e nem mais aqui elas vêm, não querem saber dele. A Samarco destruiu a natureza do povo, hoje não se vê mais ninguém na beira do rio. Eles dizem que vão fazer análises, mas nenhuma resposta chega até aqui”, diz.