Minimizar o trabalho infantil com argumentos como “é melhor que roubar ou se envolver com drogas” é ter uma visão míope desse drama social. É fechar os olhos para a gravidade do problema e ainda cair na hipocrisia. O trabalho não é capaz de ensinar nada quando é a única opção de sobrevivência, como é o caso. Se a regra valesse, esse esforço precoce seria estimulado em crianças de todas as classes sociais, o que não acontece. É algo que só se dissemina em famílias que se encontram em situação de vulnerabilidade social.
Lugar de criança é na escola, e por isso é tão assustador que mais de 47 mil delas, entre 5 e 17 anos, já dediquem o início da vida a ganhar dinheiro com o trabalho no Espírito Santo. Não há futuro possível com um deslocamento tão drástico do caminho que deveria ser seguido, o da educação. É nesse sentido que a justificativa “é melhor que roubar” se desmonta. São essas crianças, alijadas de direitos e de oportunidades, que estarão mais sujeitas à criminalidade.
É essa sensibilidade que nossos novos governantes e legisladores devem ter. Organizar a economia e gerar empregos é urgente e tem poder de transformação social; não há dúvidas de que esse drama da infância tem se agravado com a incapacidade de se reerguer o país. Mas o combate também é emergencial: no caso de contratações ilegais cabem os rigores da lei. Já nas situações de rua, o acompanhamento psicossocial deve ser presente, com o comprometimento do Estado. O direito à infância, garantido pelo Estatuto da Criança e do Adolescente, é universal. Ou pelo menos deveria ser.