Nilson Neves dos Santos casou-se em Santa Leopoldina e, assim como muitos, largou a roça e veio para Vitória com a esposa e os filhos ainda pequenos em busca de novas oportunidades de trabalho, em 1977. Morou de favor e depois de aluguel, mas o sonho da casa própria foi conquistado anos mais tarde com o esforço de toda a família.
Os primeiros anos na Capital foram difíceis. Nilson ficou desempregado. Em 1983, no meio do lixão despejado em São Pedro precisou gritar para ser ouvido. Acreditava que suas falas aceleradas e firmes pudessem chamar a atenção das autoridades da época.
“Olha, tem seis meses que estou desempregado, eu com oito filhos para dar de comer. Eu só não pago mesmo é aluguel de casa, mas pago água e luz, é tudo do meu bolso. Estou confiando aqui nesse lixo que está dando um dinheirinho para eu dar de comer aos meus filhos. Como é que vou viver assim?”, desabafou em entrevista para o documentário “Lugar de toda pobreza”.
Sua fala foi uma das mais longas do filme. Com a carteira de trabalho nas mãos disse palavras que estavam engasgadas em suas preocupações diárias. “Roubar eu não posso. Está aqui nas minhas mãos minha carteira profissional, mas eu procuro e as portas do emprego estão fechadas. Eu tenho que chorar nos pés dos homens, eu tenho que clamar”, disse.
A professora aposentada e escritora Graça Andreatta descreve que naquela época o poder público fazia frentes de trabalho, entretanto, as vagas anunciadas não comportavam a quantidade de migrantes interessados. “Não eram pobres, eram pessoas que o Brasil esqueceu naquele momento. Chamaram para emprego de pedreiro, para fazer os alojamentos, mas depois não tinha mais nada”, explicou.
35 ANOS DEPOIS
Nilson teve câncer e faleceu na década de 90, e, 35 anos depois do discurso em meio ao lixão, sua esposa, Odete Neves dos Santos, 73 anos, e os oito filhos o guardam nas melhores lembranças“Passamos muita dificuldade, trabalhávamos no lixão e cada um tinha que fazer a sua parte para ajudar”, relembra Odete, que ensinou o marido a catar e a vender o material reciclável, após ele perder o emprego.
Um dos filhos, Rogério Neves dos Santos, 43 anos, lembra-se bem da época, estudou na escola Grito do Povo, chamada atualmente de Francisco Lacerda de Aguiar, criada por moradores voluntários e coordenado por Graça Andreatta. Quando não estava na escola, pescava e ajudava os pais no lixão. Em sua memória, o anúncio do caminhão do mercadinho que chegava com mantimentos que não mais interessavam os supermercados e hortifrutis de Vitória. Havia até mesmo produtos vencidos.
“Muita coisa conquistamos no lixão para ter nosso alimento. Quando o mercadinho chegava alguém gritava e corríamos. Pegava caixa de leite, de verdura e trazia para dentro de casa. Catávamos aquele material e vendíamos para fazer dinheiro e comprar as coisas para dentro de casa”, relata Rogério, que já foi casado e tem um filho de 17 anos. Hoje, assim como o pai vive a experiência do desemprego. Faz bicos com uma bicicleta anunciando as ofertas do comércio da região.
Antes de morrer, Nilson concretizou o sonho da família de comprar um terreno para erguer a casa própria. Dona Odete, como ex-catadora, trabalhou por 15 anos na Usina de Lixo, mas não se aposentou e vive da pensão deixada pelo marido.