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Nilson Neves dos Santos começou a trabalhar no lixão após ficar desempregado e, no filme, faz um longo desabafo sobre o desemprego. Reprodução documentário
Reportagem especial

Sobrevivência: lixão de São Pedro foi sustento para muitas famílias

Discurso emocionado de Nilson Neves dos Santos marcou o documentário "Lugar de toda a pobreza"

Sullivan Silva

Publicado em 08 de Dezembro de 2018 às 16:16

Publicado em

08 dez 2018 às 16:16
Nilson Neves dos Santos casou-se em Santa Leopoldina e, assim como muitos, largou a roça e veio para Vitória com a esposa e os filhos ainda pequenos em busca de novas oportunidades de trabalho, em 1977. Morou de favor e depois de aluguel, mas o sonho da casa própria foi conquistado anos mais tarde com o esforço de toda a família.
Nilson Neves dos Santos começou a trabalhar no lixão após ficar desempregado e, no filme, faz um longo desabafo sobre o desemprego. Crédito: Reprodução documentário
Os primeiros anos na Capital foram difíceis. Nilson ficou desempregado. Em 1983, no meio do lixão despejado em São Pedro precisou gritar para ser ouvido. Acreditava que suas falas aceleradas e firmes pudessem chamar a atenção das autoridades da época.
“Olha, tem seis meses que estou desempregado, eu com oito filhos para dar de comer. Eu só não pago mesmo é aluguel de casa, mas pago água e luz, é tudo do meu bolso. Estou confiando aqui nesse lixo que está dando um dinheirinho para eu dar de comer aos meus filhos. Como é que vou viver assim?”, desabafou em entrevista para o documentário “Lugar de toda pobreza”.
Sua fala foi uma das mais longas do filme. Com a carteira de trabalho nas mãos disse palavras que estavam engasgadas em suas preocupações diárias. “Roubar eu não posso. Está aqui nas minhas mãos minha carteira profissional, mas eu procuro e as portas do emprego estão fechadas. Eu tenho que chorar nos pés dos homens, eu tenho que clamar”, disse.
A professora aposentada e escritora Graça Andreatta descreve que naquela época o poder público fazia frentes de trabalho, entretanto, as vagas anunciadas não comportavam a quantidade de migrantes interessados. “Não eram pobres, eram pessoas que o Brasil esqueceu naquele momento. Chamaram para emprego de pedreiro, para fazer os alojamentos, mas depois não tinha mais nada”, explicou.
35 ANOS DEPOIS
Nilson teve câncer e faleceu na década de 90, e, 35 anos depois do discurso em meio ao lixão, sua esposa, Odete Neves dos Santos, 73 anos, e os oito filhos o guardam nas melhores lembranças“Passamos muita dificuldade, trabalhávamos no lixão e cada um tinha que fazer a sua parte para ajudar”, relembra Odete, que ensinou o marido a catar e a vender o material reciclável, após ele perder o emprego.
Um dos filhos, Rogério Neves dos Santos, 43 anos, lembra-se bem da época, estudou na escola Grito do Povo, chamada atualmente de Francisco Lacerda de Aguiar, criada por moradores voluntários e coordenado por Graça Andreatta. Quando não estava na escola, pescava e ajudava os pais no lixão. Em sua memória, o anúncio do caminhão do mercadinho que chegava com mantimentos que não mais interessavam os supermercados e hortifrutis de Vitória. Havia até mesmo produtos vencidos.
“Muita coisa conquistamos no lixão para ter nosso alimento. Quando o mercadinho chegava alguém gritava e corríamos. Pegava caixa de leite, de verdura e trazia para dentro de casa. Catávamos aquele material e vendíamos para fazer dinheiro e comprar as coisas para dentro de casa”, relata Rogério, que já foi casado e tem um filho de 17 anos. Hoje, assim como o pai vive a experiência do desemprego. Faz bicos com uma bicicleta anunciando as ofertas do comércio da região.
Antes de morrer, Nilson concretizou o sonho da família de comprar um terreno para erguer a casa própria. Dona Odete, como ex-catadora, trabalhou por 15 anos na Usina de Lixo, mas não se aposentou e vive da pensão deixada pelo marido.
 

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