Iniciando a pré-campanha à Presidência pelo PRB, o megaempresário Flávio Rocha afirma que a desigualdade social não é um problema. E, se fosse, seria “de muito fácil solução”. O candidato acredita que “uma sociedade próspera é aquela que cria condições para que haja o crescimento da acumulação de riquezas”. Por essa lógica, a concentração de renda nas mãos de poucos seria, na verdade, algo positivo para o país. Para ele, aprofundar a liberdade de mercado é a resposta para todos os males nacionais. Não podemos incluir aí a desigualdade social, pois esta, lembremos, “não é um problema”. Rocha está só começando, mas, se começa assim, começa mal.
Baseado na livre concorrência e na livre iniciativa, o sistema capitalista em que vivemos realmente produz riqueza (metrificada pelo PIB do país). Mas também produz distorções, aqui e em qualquer parte do mundo. Gerar prosperidade não significa necessariamente gerar prosperidade para todos. A maior dessas distorções é sem dúvida a desigualdade social entre aqueles que comandam esse sistema e os que são deixados à margem dele. Agir para equilibrar a balança dos indicadores sociais e corrigir as desigualdades produzidas pelo mercado é, precisamente, um dos papéis mais fundamentais do Estado nos dias de hoje.
Em outras palavras, cabe a todo governo minimamente comprometido com os valores de justiça e inclusão social adotar não só medidas voltadas a facilitar a vida do grande empresário, que está lá no topo da cadeia produtiva, mas acima de tudo políticas públicas voltadas a melhorar as condições de vida dos cidadãos que estão na outra ponta.
O Brasil é, desde as origens, o país das desigualdades sociais. É o país onde, por volta de 1860, Sousa Breves – “megaempresário” da época e primeiro a merecer o epíteto de “Rei do Café” – chegou a possuir, sozinho, mais de 6 mil escravos, enquanto estes e tantos outros viviam em condições degradantes. Hoje, é o país onde um bairro como São Conrado, no Rio, vive ao lado da Rocinha. É o país da Avenida Paulista, coração do PIB nacional, mas também o país onde crianças desnutridas desmaiam em sala de aula porque não ingerem alimento algum desde a antevéspera e onde um quarto da população, ou 52,1 milhões de brasileiros, vive abaixo da linha da pobreza traçada pelo Banco Mundial, subsistindo com menos de US$ 5,50 por dia – ou menos de R$ 20,00, na cotação de hoje (IBGE, dez./2017). É o país onde uma empresa como a Riachuelo possui mais de 300 lojas e emprega 40 mil funcionários, enquanto trabalhadores não captados por estatísticas precisas ainda são mantidos em situação análoga à escravidão.
O mercado, sozinho, resolve esses problemas? Essa é uma perspectiva limitada e equivocada, que carece de uma compreensão totalizante sobre um país que vai muito além da sala de reuniões de um conselho empresarial. O discurso de Rocha se resume a ver o lado do setor produtivo. E ele está certo em muito do que diz. De fato, ser empresário no país é tarefa para poucos, bravos e ousados empreendedores. É preciso diminuir o tamanho e a interferência do Estado na economia, bem como desburocratizar a atividade empresarial. É realmente necessário facilitar a vida de quem gera empregos e move a economia nacional.
Agora, não é só ajudando os empresários, destravando a atividade deles e incentivando os negócios que se resolvem os problemas sociais de um país complexo e heterogêneo como o Brasil. Muito menos o mais crônico deles: justamente, o da desigualdade social. E nem sequer enxergá-la como um problema mostra, no mínimo, miopia política. Não vê-la como um problema é o 1º grande problema.
Não basta produzir riqueza. É preciso distribuí-la. Não é só multiplicar, mas também dividir. O mercado fará isso “naturalmente”? É ilusório pensar dessa maneira. É aí que entra o Estado. E, acima de tudo, é aí que começa o dever de governantes verdadeiramente comprometidos com princípios como a inclusão social. Não aceitar nem ver com “naturalidade” o convívio entre a riqueza de poucos e a pobreza de muitos é questão de princípio fundamental e de valor político estratégico para aqueles que desejam construir uma nação próspera sim, mas próspera para todos os brasileiros. Combater as desigualdades sociais é uma questão de projeto de país, que passa pela pergunta: qual é, afinal, o Brasil que queremos? Finalmente, é, na prática, uma questão de opção política.
E o Brasil, desde o governo FHC, fez essa opção política acertada, na direção da busca do desenvolvimento econômico com inclusão, no lugar daquele crescimento excludente, em que o bolo crescia, mas não era fatiado. Desde FHC, os governos brasileiros, incluindo o atual, têm adotado políticas incisivas de distribuição de renda e promoção social, reconhecidas internacionalmente e no geral exitosas, em que pesem algumas distorções, naquilo que se propõem, que é combater a pobreza, a miséria e buscar maior equilíbrio em nossa pirâmide social.
Por sua história de vida e de sucesso empresarial, Flávio Rocha é sem dúvida um “descendente” do Barão de Mauá – contemporâneo de Sousa Breves e por sinal, ao contrário daquele, defensor do livre mercado e do fim da escravatura. Na estirpe de Mauá, Rocha é um grande homem de negócios, dotado de profundo espírito empreendedor. Mas suas declarações iniciais como pré-candidato levantam sérias dúvidas se está preparado para ser um homem público, dotado de verdadeiro espírito público e sentido de coletividade. Ser político, afinal, é isso: é pensar no todo e em todos. Ver os números do IDH. Não só os do Ibovespa.