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Zeli Graça tem orgulho da luta da mãe Osvaldina de Jesus para manter a família. "Ela agiu com a cara e com a coragem." Ricardo Medeiros
Reportagem especial

São Pedro: bairros nascem sobre mangue e lixo

O lixão foi extinto e a Grande São Pedro virou uma "cidade" dentro da Capital

Sullivan Silva

Publicado em 10 de Dezembro de 2018 às 07:48

Publicado em

10 dez 2018 às 07:48
Passados 35 anos, a região da Grande São Pedro, em Vitória, não é a mesma retratada no documentário “Lugar de toda pobreza”, gravado e exibido pela TV Gazeta, em 1983. O lixão foi extinto, o mangue aterrado e as casas de madeira, palafitas, deram lugar às residências de alvenaria. Hoje, o território é dividido em 10 bairros: Comdusa, Conquista, Ilha das Caieiras, Nova Palestina, Redenção, Resistência, São José, Santo André, São Pedro e Santos Reis, e concentra mais de 33 mil habitantes, segundo a última pesquisa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), de 2010.
Zeli Graça tem orgulho da luta da mãe Osvaldina de Jesus para manter a família. "Ela agiu com a cara e com a coragem." Crédito: Ricardo Medeiros
“Aqui teve um desenvolvimento muito grande em questão de população, saneamento, segurança e urbanização. Virou uma grande cidade”, afirmou a autônoma Zeli Barros Graça, 48 anos, que mora há 35 no bairro Santo André.
Orgulhosa por viver no local, Zeli destaca que São Pedro possui o mesmo ou mais potencial que outras localidades de Vitória e algumas cidades do Espírito Santo de menor ou igual população com atividade econômica bastante movimentada. Além das inúmeras igrejas, a região possui supermercados, bancos e lojas de todos os tipos: de vestuário a material de construção.
“Aqui está mais movimentado do que o Centro de Vitória. Se você anda pela Rodovia Serafim Derenzi, vê um movimento muito grande, e por dentro do bairro tem muita coisa também”, conta a autônoma.
Zeli é filha da ex-catadora de materiais recicláveis Osvaldina de Jesus, entrevistada por Amylton de Almeida para o filme. Ela se mudou com os três filhos de Itaperuna, interior do Rio de Janeiro, para Vitória. Morou em Alto Lage, em Cariacica, e depois foi para São Pedro em busca de um terreno para construir sua casa.
“Na época, foi uma oportunidade que ela teve para conseguir um pedacinho de chão. Ficou sabendo que estavam invadindo, e que quem chegasse e fizesse um barraquinho se tornava dono. Ela veio com a cara e a coragem, ganhou algumas madeiras, fez o barraquinho e trouxe a gente. E, graças a Deus, dali a gente só foi progredindo”, disse a filha que revela que a mãe foi perseguida por causa da ocupação.
Osvaldina, morta há cinco meses, é dona de uma história de vida surpreendente. Trabalhou em diversas profissões diferentes. Mãe solteira, tinha que sustentar os filhos.
“Quando ela veio para Vitória, trabalhava em casa de família, depois foi cobradora de ônibus e trabalhou no lixão. Vendia salgados e depois passou a ter um comércio. Fazia até frete de Kombi em Jucutuquara”, diz Zeli, que destaca as dificuldades da nova morada de madeira, onde faltavam luz e água.
HISTÓRIA
A região de São Pedro começou a ser densamente urbanizada após as alterações no quadro econômico brasileiro que estimularam o movimento migratório do campo para a cidade, em meados de 1970. Em Vitória, os grandes projetos industriais atraíram a população do interior do Espírito Santo, da Zona da Mata Mineira, do Sul da Bahia e do Norte do Rio de Janeiro em busca de oportunidades de trabalho.
Vista aérea do inicio do aterro hidráulico do Bairro São Pedro. Vista das palafitas e manguezal sendo aterrado. Obras de Urbanização. Foto: 1986 Crédito: Arquivo Público de Vitória
A esperança dos migrantes estava depositada na ilha, entretanto, anos mais tarde, com a desativação do canteiro de obras da Companhia Siderúrgica de Tubarão, faltou emprego e o movimento migratório aumentou ainda mais na região com a chegada das 320 toneladas de lixo despejadas diariamente pela Prefeitura de Vitória. Em maio de 1983, aconteceu a última grande ocupação coletiva da região pelas famílias pobres, mais de 400, e grileiros profissionais.
O manguezal tornou-se uma alternativa habitacional para os migrantes pobres e as ruas eram as pinguelas. Antes dessa época, apenas a Ilha das Caieiras era habitada, por causa de uma fábrica de cal instalada na década de 20 e por ser um ponto de apoio do transporte de café feito pelo Rio Santa Maria.
URBANIZAÇÃO
O lixão foi extinto em 1990, um ano antes da visita do papa João Paulo II. O histórico dos projetos urbanísticos teve início em 1983 com o programa de urbanização Promorar e o lixo começou a ser usado como aterro. Mas foi somente três anos depois que o maior conjunto de obras de habitação e saneamento foi iniciado, as pinguelas deram lugar às ruas calçadas, lotes demarcados e casas de alvenaria.
Segundo a professora de urbanismo da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) Eneida Maria Souza Mendonça, por ser uma área muito extensa, as obras demoraram para serem concluídas. Ela destaca que a urbanização sobre aterro de lixo não é indicada, porém, a ação foi necessária devido à falta de moradia para os mais pobres.
“Nenhum projeto de urbanização sobre um aterro de lixo é indicado. Porém é histórico que as soluções para habitação social são feitas de forma emergencial, e é claro que o mangue foi ocupado por pessoas em busca de moradia. É o caminho que as pessoas buscam na falta de uma política habitacional”, disse Eneida.
DOAÇÃO DO PAPA
A ex-líder comunitária de São Pedro e professora Graça Andreatta, de 70 anos, relembra a vinda do papa. Graça explica que João Paulo II deixou 100 mil dólares para serem investidos na comunidade. Dinheiro que foi usado para construir um centro de treinamento.
“Eles (os moradores) queriam que colocássemos água encanada no bairro, mas o dinheiro não era nosso, era da Igreja e o responsável por gerir isso era o poder público. Propomos para o conselho da Igreja fazer um centro de treinamento que ia servir a todo mundo. Mas os 100 mil dólares não deram por causa da alta inflação e dom Silvestre Scandian (bispo da época) foi atrás de mais dinheiro. Parece que ele conseguiu mais 67 mil dólares”, conta. Com o total, o centro foi construído.
FUTURO
A professora ressalta que nos próximos anos a mobilidade é o fator que merece mais atenção na região. Isso porque a população dos 10 bairros trabalha em outros lugares. Eneida faz uma crítica à administração pública e diz que os melhores planejamentos estão onde se encontram os moradores mais ricos.
“Observamos que é comum os planejamentos atenderem as áreas onde estão os mais ricos e a nossa área não é valorizada como merece, principalmente no que diz respeito ao transporte público”, pontua a professora.
 

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