As casas refletirão cada vez mais a personalidade de quem vive nelas. Em seu livro Spiritual House, Li Edelkoort aponta essa como uma das principais mudanças em curso na sociedade. Edelkoort é uma das mais famosas consultoras de tendências e atua globalmente em diversos setores como a indústria da moda, arquitetura, estética, varejo e alimentos.
Denominando-a de lar espiritual, ela afirma que essa tendência não se relaciona com religião, mas sim com a necessidade de se reconectar consigo. É uma tendência crescente em nossa sociedade marcada por inclinações ao materialismo. É comum nos depararmos com casas e apartamentos lindos, com belíssimos projetos, ambientes impecáveis, mas que muitas vezes não refletem a identidade de seus moradores. Parecem ambientes saídos de revistas de decoração, mas sem ostentar personalidade.
O arquiteto Cláudio Calezani sempre busca nos seus projetos conhecer o perfil do cliente, conversar com todos os moradores da casa, fazer uma pesquisa para compreender a personalidade das pessoas que vivem no espaço, antes de desenhar o projeto. Em sua busca por compreender e captar as personalidades dos moradores, ele pergunta sobre seus hobbies, sobre objetos trazidos de viagens, obras de arte, artesanato, fotografias e outros itens carregados de memórias. Esse conjunto de elementos orienta o projeto.
Cláudio entende que é fundamental imprimir a identidade do cliente em cada projeto. Quando se consegue imprimir a personalidade do cliente no ambiente, muda tudo. Cria-se conforto e bem-estar, afirma ele. O cliente sente que aquela é verdadeiramente a sua casa.
Em um de seus projetos foi criada uma grande estante para acomodar a coleção de artesanato e imagens sacras, além de livros de arte e objetos de viagens. Em mais de uma ocasião, ele foi contratado por clientes que tinham reformado recentemente a sua casa, o ambiente era lindo, mas o cliente não se sentia feliz naquele espaço. Então, com algumas interferências, ele conseguiu fazer com que o ambiente refletisse a personalidade dos proprietários e os clientes adoraram o resultado. O cliente tinha um ambiente lindo, mas não se sentia feliz porque não se via naquele espaço, recorda.
Casas que contam histórias
O fotógrafo Lufe Gomes, que há anos fotografa para as principais revistas de arquitetura e decoração do país, também se deparou com essa realidade. Ao fotografar casas lindas para as revistas, percebia que muitas delas não tinham personalidade nem alma. E as casas de que ele mais gostava não eram casas que atendiam ao padrão das revistas.
Dessa inquietação, surgiu o site Life by Lufe, onde ele expõe fotos dessas casas, denominadas casas de verdade. Ele passou a fotografar e publicar no seu site as casas de pessoas que moravam da forma como ele acreditava. Mais do que fotografar os ambientes, ele estava interessado nas pessoas e nas histórias de seus moradores e como tudo isso se refletia nos seus lares. As verdades e as histórias das pessoas me interessam, afirma ele.
Lufe, que se diz um apaixonado por casas que contam histórias, queria com esse site despertar nas pessoas esse espírito. Ajudar as pessoas a se libertar dos padrões externos, impostos pela indústria, pela mídia e apresentar exemplos de casas de verdade.
Depois do site, novos projetos surgiram - um canal no yotube, um livro, palestras. Enfim, muitas outras formas de compartilhar esses ambientes e as histórias dessas pessoas. Seu livro, Onde vive você, traz uma seleção desses ambientes cheios de personalidade fotografados por ele.
Quem visita o Life by Lufe e assiste aos seus vídeos, sempre feitos de maneira informal, se encanta com lindas casas, com a forma como seus moradores conseguem traduzir para os ambientes sua personalidade, seus gostos e suas memórias. É interessante ver que ele não apresenta apenas coberturas, grandes casas e apartamentos. Moradias de todos os tamanhos, próprios e alugados estão presentes nos posts e vídeos, gerando muita inspiração.
Nessa matéria, trazemos fotos de algumas dessas casas. Outras fotos e os vídeos desses ambientes estão no site e no canal Life by Lufe, para quem quiser conhecer um pouco melhor cada um desses projetos que vamos mostrar aqui. E, vamos reconhecer, não foi nem um pouco fácil selecionar apenas três ambientes para essa matéria...
Indra Sestini teve durante toda a sua infância um contato grande com tribos indígenas. Ela foi batizada em uma aldeia indígena e cresceu convivendo com eles até os 11 anos de idade. Depois disso morou em vários países. E, assim, ela mistura, de forma divertida e consciente, esses dois mundos. Ela ama a natureza e é possível sentir a presença dela em muitos cantos da casa.
Renan Quevedo é publicitário e largou tudo para rodar o Brasil descobrindo e dando luz a artistas e artesãos dos lugares mais remotos do nosso país. O apartamento, apesar de bem pequenininho, é imenso ao mesmo tempo. É tão, mas tão grande que parece caber o Brasil inteiro ali dentro. Segundo Lufe, esse é um dos vídeos mais emocionantes que ele já mostrou em seu canal. Emocionante não somente pelo fato de reunir uma variedade de itens de arte popular de diferentes partes do Brasil em um apartamento com menos de 40m2, mas também porque cada peça ali conta a história de talentos pouco reconhecidos. Escutá-lo contando a história de cada pessoa encontrada no caminho é, no mínimo, apaixonante, afirma Lufe.
Maristela Gorayeb e sua forma leve de viver. Ela largou a vida agitada de São Paulo para viver em Trancoso, onde abriu uma loja de decoração com produtos de artesãos de todo o Brasil. A casa em que ela vive é alugada. Isso é um ensinamento maravilhoso, pois ela fala sobre como se deve trazer sua essência, seu jeito de morar, sua alma, mesmo quando a casa não é sua na escritura, afinal ela pode ser totalmente sua enquanto você a ocupa.
A beleza da imperfeição
Em recente palestra realizada em Vitória, a convite da ABD Associação Brasileira de Designers de Interiores, Vitor Penha, diretor criativo do Estúdio Penha, falou sobre A beleza da Imperfeição. Esse conceito é adotado por ele em sua própria casa, que já foi apresentada no site Life By Lufe, e também no seu escritório de arquitetura e nos seus projetos.
Vitor Penha acredita que o futuro da arquitetura está no reuso e no reaproveitamento de materiais, no garimpo em lojas de demolição, ferros-velhos e antiquários. Paredes expondo suas histórias, tubulações expostas, estruturas aparentes. Em seus projetos, ele busca a beleza da imperfeição. E é incrível a beleza que ele consegue trazer para seus projetos a partir dessa perspectiva.
Esse conceito tem origem no termo wabi-sabi, palavra de origem japonesa que designa a beleza das coisas imperfeitas, impermanentes e incompletas. É a beleza das coisas modestas, das coisas não convencionais. Essa filosofia e também a sua estética propõe focar nossas atenções em valores mais reais e significativos e cultivar tudo aquilo que é autêntico. Por trás desse conceito, está a aceitação da transitoriedade, que tem origem no Zen Budismo, e que nos leva ao reconhecimento de que nada dura, nada é completo e nada é perfeito.
Ao decorar nossos espaços, em vez de olhar para fora e buscar referências em revistas, sites e nas mídias sociais, a ideia é olhar para dentro, compreender nossa essência, o que nós valorizamos, aquilo de que gostamos, o que faz sentido para nós e expressar esses afetos da melhor maneira: na nossa casa, no nosso jeito de viver e nas coisas que nos cercam.
Para inspirar essa busca, uma frase da filósofa e poetisa Viviane Mosé: Tudo em minha casa tem existência. Todas as coisas significo. Com os olhos. Ou com as mãos. Minha casa tem silêncios que às vezes ouço. Em meu corpo.