Faz dois meses que Patiara Aguiar comprou, pela primeira vez na vida, uma bota. Em viagem à Paris –onde foi participar da Première Vision, feira profissional de moda e têxtil – ela teve que providenciar o calçado para aguentar o rigoroso frio europeu. “Foi a primeira vez que viajei para um destino de frio, tanto que nem tinha roupas. No meu guarda-roupa só tem vestidos e muitos biquínis, além de chinelos e rasteiras”, conta.
Patiara é do mar. Apaixonada por praia e sol, ela transformou a paixão em negócio. Formada em Farmácia, sem nunca ter estudado moda, e com pouco dinheiro, começou produzindo biquínis e vendendo na casa das clientes. Hoje conta com duas lojas próprias e pontos de venda no Rio de Janeiro, São Paulo e Fernando de Noronha. “Ralei muito pra chegar até aqui”.
Mas chegou chegando. Na próxima quinta-feira (25), a Borana será a terceira marca capixaba a fazer um desfile solo na São Paulo Fashion Week. “A ficha ainda não caiu. Cheguei muito mais longe do que imaginava”, conta.
Negociada há cerca de um mês, a entrevista exclusiva estava marcada para acontecer há uma semana, numa sexta-feira. Até que foi desmarcada. As peças que vão para passarela estavam atrasadas, e ela não poderia deixar São Mateus, local da fábrica. Remarcada para a última segunda-feira, ela chegou sorrindo ao lado da mãe, usando um vestido longo branco. Aos 31 anos, produzindo cerca de 10 mil peças mensais, Patiara conta que gosta de fazer biquínis para mulheres de verdade. Tanto que, no casting do desfile, pede para o stylist escolher modelos com um corpo menos magro. Durante mais de uma hora, contou histórias divertidas, inclusive do tempo que foi sacoleira. A seguir, as melhores.
Você já fez três desfiles coletivos na São Paulo Fashion Week (SPFW). Agora estreia num desfile solo, com 30 looks, nesta quinta. O que muda?
Eu entendi que precisava ousar. Meu medo era ser arrojada e as clientes não entenderem, mas estava enganada. A gente está ditando moda, porque tudo que está na passarela elas querem usar. Como um maiô que fiz todo de recorte, um trabalho danado, e foi um sucesso. Nesse desfile vou ousar.
O que o público vai ver na passarela?
Muito patchwork, mix de estampas e trabalho manual. São 30 looks numa coleção inspirada no reggae, uma releitura dos anos 70. Mas não espere nada óbvio, inclusive as cores. Pantalonas, camisa com patchwork, jeans... uma miscelânea. Mais, sobretudo, quero mostrar a cultura da paz, do amor e da liberdade. E é a melhor época para falar desse sentimento. O mundo tá cruel e pesado demais. Quero trazer leveza e me expressar.
Você está ansiosa?
Não. Acho que a ficha ainda não caiu. Quando soube do desfile, eu estava em Paris, indo de carro para a Première Vision, feira de moda. Tem gente tão boa e a minha marca ter conseguido... ainda não consegui acreditar.
Onde você nasceu?
Nasci em São Mateus, minha infância foi rodeada de família, primos, fazendo chup-chup para vender. Uma infância muito família que a gente conserva até hoje. Mamãe era costureira, começou fazendo calcinha e sutiã em casa. Ela tinha duas máquinas e eu, com 7 anos, ficava a vendo costurar. Com 12 anos comprava tecido e levava para uma costureira perto de casa fazer minhas roupas. E já gostava de customizar, comprava aviamentos, pregava na barra da calça. Só que nunca pensei em ter uma marca, queria ser atriz. E meu pai sempre foi um empreendedor, já vendeu camarão, teve estúdio, banda, empresa de limpar telhado. Ele fez de tudo na vida. Minha família é de origem pobre, era tudo contado, então ele se virava.
Você cursou Farmácia. Por quê?
Porque eu gostava de química, só tirava nota 10, e tirava onda. No último período resolvi tentar mestrado para dar aula. Mas nesse meio tempo, depois que formei, meu tio me chamou para trabalhar no financeiro da empresa dele. Foi a primeira vez que tive que lidar com pessoas mais velhas, tinha uma responsabilidade. Comecei a trabalhar em agosto e em setembro liguei para a minha mãe perguntando: ‘O que você acha de criar uma marca de biquíni?’. Eu sempre fui apaixonada por praia, mamãe já tinha experiência com lingerie, e tinha minha madrinha que também é costureira. Minha mãe falou: “Minha filha você fez faculdade durante cinco anos. Tem certeza que é o melhor caminho?’.
E quando aconteceu? Quando virou estilista?
Foi em dezembro de 2010. Com R$ 360 comprei 30 centímetros de tecido na Glória, em Vila Velha, e assim nasceu a Bora Bora (era o nome da marca). Sem nenhuma experiência em modelagem, peguei os vários biquínis avulsos que tinha - em um gostava da lateral, no outro gostava da frente - e fui montando o modelo perfeito para mim. Minha mãe e madrinha montavam a peça em São Mateus e mandavam para Vitória, para eu poder provar. Experimentava no meu próprio corpo - e até hoje é assim. Provo todos os biquínis e roupas. Eu trabalho muito acreditando no desejo. Se não acontecer essa vontade eu não coloco na loja.
E aí você pede demissão...
Eu ia ficar até dezembro na empresa do meu tio, que era a ideia inicial. Trabalhava de 7h às 17h e depois do expediente ia atender as clientes em casa. E isso durou até maio, quando pedi demissão. Às vezes, o que eu ganhava em um mês, eu fazia em um ou dois dias vendendo biquínis. Pedi demissão e meu tio ficou enlouquecido.
O que ele falou?
Que eu tinha formado em Farmácia, e não para vender biquíni. Que na empresa dele eu iria crescer. Conversou com mamãe e disse que eu estava fazendo uma grande burrada na vida. Um ano depois, ele queria até ser sócio da marca. E um dos irmãos de mamãe me mandou mensagem dizendo que fui um grande aprendizado para eles. Uma coisa que eles não colocaram fé mudou as nossas vidas.
Você começou como sacoleira?
Sim. O dia que mais me marcou foi quando vendi R$ 2 mil, tinha menos de um ano de marca e nem sonhava em ter loja própria. Era véspera do feriado de 7 de setembro, cochilei no ônibus, passei do ponto e fui parar no bairro Forte São João. Estava cansada, mas muito feliz. Não acreditava que era possível vender tanto biquíni num único dia. Depois, ainda peguei uma carona, e fui aproveitar Itaúnas.
Quem foi a sua primeira cliente famosa?
Foi a Candice Swanepoel. A cunhada dela é minha amiga e foi lá em casa comprar biquínis, ainda no início, com ela e outras amigas. Enquanto escolhiam, toda hora falavam o nome Candice. Esse nome ficou gravado na minha memória. Três anos depois, estava em Itaúnas, e ela também. Liguei para essa amiga e disse: Você não sabe quem está aqui, a modelo Candice”. Foi aí que ela me disse: “Essa Candice é a mesma que esteve na sua casa comprando biquínis”. Não acreditei que era a angel da Victoria's Secret que tinha ido lá em casa.
Depois vieram outras clientes famosas...
Tem a Giovanna Ewbank, a Yanna Lavigne e a Marina Ruy Barbosa. O engraçado é que eu nunca fui atrás. Elas que sempre mandaram mensagens perguntando sobre as peças. Quando a Marina me procurou eu fiquei sem acreditar. Ela levou numa viagem e postou no Instagram. Foi incrível.
Nesse caminho teve alguns perrengues?
Só a gente sabe. No início, tínhamos vários carnês para pagar, e mamãe tinha que escolher qual seria o primeiro a ser quitado. Os R$ 360, por exemplo, que comprei em tecidos, foram divididos em várias vezes. No dia que meu pai comprou a primeira máquina, que custou R$ 6 mil, minha mãe quase enlouqueceu, a gente não tinha dinheiro pra pagar. Mas essa máquina foi fundamental, ela fazia o acabamento das peças. Meu pai sempre foi um visionário. Foi ele, inclusive, que inscreveu a marca, sem eu saber, no projeto do Sebrae que resultou neste desfile.
Aliás, sua estreia foi num SPFW, dividindo a passarela com outras marcas...
Antes dos desfiles coletivos, nas edições passadas do SPFW, eu nunca tinha feito nada. Nem desfile no centro comercial de São Mateus. Eu não sabia de nada deste universo de desfile e, quando cheguei, percebi que eles usam muitas palavras em inglês, era outro mundo para mim. Eu nunca ia imaginar que um dia estaria na SPFW, nunca pensei nisso. Era algo inatingível.
Quando e porque a marca passa a se chamar Borana?
Em março de 2015. Já existia uma marca chamada Bora Bora em Minas Gerias. Eles entraram em contato e propuseram da gente vender as peças deles aqui, para continuarmos com o nome. Não quis. Pensando, chegamos no nome Borana e hoje acho que soa muito melhor.
O que você imaginava há nove anos, quando começou essa história?
Eu não imaginava que fosse chegar onde cheguei. Acho que o máximo seria ter uma loja, porque já não estava dando mais para ir na casa das pessoa. Eu nunca fui de ficar pensando lá na frente, fui trabalhando e as coisas foram acontecendo. A empresa é de família, minha mãe, pai e irmão trabalham comigo, cada um em um setor. Temos um carinho enorme pelos 50 funcionários que temos. A gente almoça junto na fábrica, não tem frescura. No último desfile levamos três funcionárias para assistir. Imagina, elas nunca tinham viajado de avião!
Duas lojas próprias, 10 mil peças produzidas mensalmente, pontos de venda no Rio de Janeiro, em São Paulo e em Fernando de Noronha. Quando você percebeu que tinha dado certo?
Quando montei a primeira loja, em Vitória, e o primeiro verão foi assustador. Cheguei a vender com senha na porta. Teve um verão que choveu muito em dezembro e a loja lotada. Ali a ficha caiu que tinha dado certo. Já na noite de aniversário dos meus 30 anos, foi uma comemoração diferente. Véspera da inauguração da loja do shopping, passei a noite arrumando. Dormimos no papelão no chão da loja. Lembro de tudo isso.
O que falta acontecer?
A loja em Portugal, que eu quero muito. É o país que mais exportamos. Não tem que mudar nada na modelagem. Quando fui para lá, saía na rua com a roupa toda estampada, chamava atenção, todo mundo me olhava. Com um mês de marca, lá no início, uma menina de Portugal entrou em contato querendo revender nossas peças. Estamos lá até hoje.
Recentemente você também quase abriu uma loja no Rio de Janeiro...
Vi um ponto, em Ipanema, mais era pequeno demais. Ainda quero ter uma loja no Rio, as cariocas são as minhas principais clientes. Elas compram mais que as capixabas. Meu sonho também é ter uma loja em uma casa em Vitória.
Você tem prazer em fazer desfile?
Tenho, depois que passa sinto muita saudade. É desgastante, me doo completamente, mas depois vem a recompensa. Fora as pessoas que vou conhecendo, me dando uma visão de negócio, de moda e network.
Muitos estilistas acabam virando celebridade. Como você evita isso?
Se eu pudesse me esconder, faria isso. Sou canceriana, morro de vergonha de aparecer. Eu adoraria, mas eu sou ‘low profile’. Não sou glamourosa , quero estar descalça e viajar para praia.
No seu guarda-roupa tem o que?
Muitos biquínis e vestidos. Não tem brilho. Meu estilo é despojado e adoro usar rasteirinha. Uso muito a minha marca e, às vezes, compro na Zara. É uma loja que gosto.
Quem você admira na moda brasileira?
Admiro muito a Lenny Niemeyer (estilista de moda praia) e também a Kátia Barros, fundadora da Farm. A Kátia anda de havaianas é zero glamourosa. Dizem que somos parecidas.
Muitas marcas acabaram sendo vendidas para conglomerados. Você venderia a Borana?
Nunca pensei. Só venderia para comprar uma casa na praia, onde ficasse bem para o resto da vida. A rotina que levo hoje é muita correria, mal sobra tempo para o meu namorado.
Onde você o conheceu?
Pelo Orkut, no último período da faculdade. São 9 anos juntos. Ele é muito meu parceiro e entende a minha vida. Às vezes, a gente se vê meia parte do dia, é muito louco. Ele acompanhou toda a minha história.
Vocês tem religião?
Eu acredito em Deus. Não sigo uma igreja, faço minhas orações e agradeço sempre. Não sou de pedir. A vida já me deu muito mais do que esperava. Sou da filosofia de ser do bem e fazer o bem.
O que vai fazer depois que o desfile acabar?
Quero descansar uns três dias. Trabalhei muito pra chegar até aqui.