Aos 8 anos de idade, a pequena Bianca vê a mãe, Sheila Lima Melo, de 38, chorar na cozinha ao fazer um suco de laranja. Para ela é inevitável não pensar no motivo: “Era o suco preferido do meu irmão”. Os detalhes banais do dia a dia passaram a ser difíceis para toda a família após Thalys Melo Xavier, de 16 anos, ser assassinado num dos períodos mais sangrentos do Espírito Santo: a paralisação da Polícia Militar, em fevereiro do ano passado. Desde então, a mãe espera pelo desfecho das investigações: “Perdi a conta de quantas vezes fui à delegacia”.
Thalys trabalhava como vendedor de açaí e estava de folga no dia 5 de fevereiro. Ele, o irmão e um amigo jogavam videogame quando decidiram sair para comprar um lanche no bairro Santana, em Cariacica. Na volta, quatro bandidos em um carro abriram a porta e começaram a atirar neles. Ele foi morto com sete tiros, que o atingiram no peito e na cabeça.
No fevereiro sangrento, a cada quatro horas uma família chorava a morte do filho. Foram 219 perdas, principalmente de jovens, negros e pobres. As mortes não vieram sozinhas. Junto com elas, veio a desestabilização das famílias que passam dificuldade para seguir suas vidas. O mais comum são relatos de doenças, como a depressão.
O jornal A GAZETA revisitou algumas das 38 famílias que foram procuradas para reportagem após os seis meses da greve. Em muitos casos, a dor se mistura com a agonia de permanecer sem resposta das autoridades responsáveis pelas investigações. Algumas decidiram até transformar esse luto em luta e as idas à delegacia passaram a ser constantes. O problema é que, após um ano, a resposta ainda não chegou.
“Prestei depoimento após dois meses que meu filho morreu e ainda nada. Sempre dizem que o caso está sendo investigado, mas não tem nada de concreto. Eu espero o tempo que for, mas o crime precisa de resposta, muita gente morreu. Foi como se tivesse ido um monte de animal para o abatedouro e acabou?”, diz Sheila, que precisou mudar de casa para evitar lembranças e não voltou a trabalhar.
O sentimento de impunidade é compartilhado pela mãe de Fábio Dias, 14, a cozinheira Sirleide Dias, 41. “Nem uma resposta até hoje, não fui chamada para depor, apenas fui a delegacia para a liberação do corpo. Para mim, por mais que meu filho estivesse errado, foi difícil a forma que ele foi morto, bateram para matar. A população agiu errado, não pensaram que poderia ser um filho deles ali também.”
Sirleide não esquece as cenas violentas que levaram à morte do filho. Ele e três amigos, com uma arma de brinquedo, tentaram assaltar passageiros de um ônibus e foram agredidos pela população. Fábio ficou agonizando na BR 101, na Serra, por uma hora. No hospital, foi submetido a cinco horas de cirurgia, não resistiu aos ferimentos causados por pauladas na cabeça e morreu com traumatismo craniano.
A notícia chegou para a mãe através de um vídeo que circulou nas redes sociais. No bairro onde mora, em Cidade Pomar, Serra, chegou a ser apontada por moradores como a mãe de um assaltante. Mesmo com todo sofrimento, ela tenta encontrar forças para seguir a vida e está grávida de cinco meses de uma menina. Gravidez marcada por constantes questionamentos sobre sua atuação como mãe. “Quando a gente passa pelo o que estou passando, pensa que é incapaz de poder criar outra criança e guiar os caminhos. Para mim, essa gravidez é boa, mas está sendo difícil”, disse emocionada.