O desespero para salvar a vida de uma jovem, usuária de drogas, levou uma família de Vila Velha a vender um apartamento e pagar a dívida dela, de R$ 70 mil, com traficantes. O caso reflete o drama vivido por milhares de pessoas, de diferentes classes sociais, atualmente na Grande Vitória.
A situação foi registrada esse ano pela Defensoria da Infância e Juventude do município. Segundo o defensor público Carlos Eduardo Rios do Amaral, a jovem - que fazia uso de vários de tipos de drogas e foi ameaçada pelos criminosos - tem dois filhos pequenos.
Com o alto valor devido, os traficantes chegaram a ameaçar matar até mesmo as crianças. “Os avós tomaram grandes prejuízos financeiros e tiveram que pagar volumes altos em dinheiro para traficantes, por dívidas contraídas pela filha, sob pena da mesma ser executada”, relatou. Após a dívida ser paga, a jovem foi viver longe dos pais e as crianças são criadas pelos avós.
O defensor público afirma que casos de famílias que perdem tudo para pagar dívidas de drogas refletem uma parte dos problemas ligados ao uso de drogas. Ele ressalta que este ano, todos os casos que ele recebeu, até o momento, possuem o entorpecente como “antagonista” principal.
“Vivemos uma epidemia. Hoje, o que move o Juizado, a Defensoria e o Ministério Público da Infância e Juventude é o não comprometimento dos pais com os filhos, por causa do uso de drogas”, concluiu.
FALSO SEQUESTRO
E o desespero para quitar uma dívida de droga, que já estava em torno de R$ 50 mil, levou uma jovem a extorquir o próprio pai, simulando um sequestro. O caso foi registrado na Serra.
Segundo Rios, a jovem se reuniu a traficantes de um bairro do município, forjou uma história de sequestro e exigiu R$ 50 mil pelo resgate. “Ela forjou de forma material. Combinou com criminosos de verdade, com armas verdadeiras, e bateu uma foto, como se estivesse sequestrada. Depois acabaram descobrindo que tudo era uma farsa. Ele já tinha levantado parte do dinheiro e entrou em desespero, com medo da filha morrer”, ressaltou Rios.
Após a farsa ser descoberta, o pai entrou na Justiça para conseguir a guarda da neta e a filha ainda responde a um processo criminal.
CRIME A MANDO DO TRÁFICO
Em Vitória, um ex-universitário, de 28 anos, viu todas as conquistas ruir por causa do uso de crack. Preso há um ano, ele foi flagrado furtando mercadorias de um supermercado. A ordem para cometer o crime partiu de um traficante, que já o havia cobrado por causa de uma dívida de drogas.
O ex-universitário tinha uma vida confortável e chegou muito perto de concluir a faculdade. “Tinha uma vida boa, fazia cursos, esportes... Mas há dez anos eu luto contra o vício das drogas. Sei que minha família está sofrendo”, desabafou o jovem, no dia da prisão, em maio.
ADOLESCENTE PERDE CHANCE DE JOGAR NA EUROPA
E se a dívida com o tráfico pode dilapidar o patrimônio de uma família, muitas oportunidades de ascensão social também são perdidas. O uso de drogas e desaparecimento do pai, levou um adolescente de 15 anos, morador de Vila Velha, a perder uma chance de ouro de jogar no Barcelona, da Espanha.
Isso porque o menor precisava da autorização dele para fazer a viagem internacional, que seria bancada pela empresa de um jogador de futebol. “Ele foi chamado para jogar no Barcelona, da Espanha, conseguiu uma viagem com tudo pago e hospedagem, mas acabou não conseguindo ir”, explicou Rios.
A legislação brasileira só autoriza viagem de menores para o exterior, mediante a assinatura do pai e da mãe. Segundo Rios, é comum jovens perderem oportunidades com essas, por conta de um artigo instituído dentro do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA).
“Um menor de idade que sonha em ir para a Europa, recebe uma oportunidade de trabalhar em uma grande rede empresarial, como trainee, menor aprendiz, mas a legislação diz que esse menor só pode deixar o País com autorização do pai e da mãe. E muitas vezes esses menores sequer têm contato com esse pai, ou essa mãe, que estão afundados na droga e sumidos. E quando aparecem, muitas vezes não autorizam para prejudicar mesmo”, disse o defensor.
"A FAMÍLIA ACHA QUE ESTÁ AJUDANDO, MAS ESTÁ PREJUDICANDO"
Apesar das drogas ilícitas serem pivô de uma das maiores discussões políticas brasileiras atualmente, seja na área da saúde ou segurança pública, a principal porta de entrada para a maconha, cocaína, crack e outros entorpecentes acaba sendo o álcool.
De acordo com o médico João Chequer, que possui doutorado no tratamento da dependência química, o ciclo é complexo para se chegar até o vício às drogas pesadas.
“O álcool é a principal entrada para o mundo das drogas. As piores drogas são as lícitas. Álcool, cigarro e medicamentos. Lógico que não vai acontecer com todo mundo que bebe, mas se a pessoa tem a tendência, conforme ambiente, carga genética e perfil psicológico, vai procurar outras opções”, afirmou o especialista.
De acordo com Chequer, a partir do momento em que o usuário passar a embarcar de cabeça no entorpecente, a família tem que saber impor limites. O médico ressalta que não é nada fácil, mas a pessoa doente precisa entender que não terá facilidade para manter o consumo excessivo de drogas e buscar o tratamento. “A família sofre a ruptura total no nível familiar.
Acabam a confiança e o bem-estar. Depois migra para a parte financeira. Essa é a solidariedade patológica. Se a família está notando que o dependente está entrando na vereda de gastos excessivos, tem que impor limite. Se não toma providências, entra na co-dependência. A família acha que está ajudando, mas está prejudicando. Passa a patrocinar a dependência e entra em uma espiral de gastos”, concluiu.
TRATAMENTO DE GRAÇA EM VITÓRIA
Usuários de drogas que queiram se tratar, voluntariamente, podem conseguir ajuda, de graça, no Centro de Vitória. Na Praça Oito, próximo á sede do Banestes, está o Centro de Referência em Direitos Humanos do Governo do Estado, que disponibiliza aos dependentes químicos o Programa Integrado de Valorização à Vida (Proviv).
O secretário estadual de Direitos Humanos, Leonardo Oggioni, explicou como funcionam os atendimentos. “Ele vai receber orientação e existe equipe multidisciplinar que vai fazer os encaminhamentos. Existem vários tipos de tratamento, como o encaminhamento para o Caps, para o próprio HPM, tratamento ambulatorial, ou encaminhamento para uma comunidade terapêutica, que é uma última opção”, afirmou.
De acordo com Oggioni, agora a Secretaria de Direitos Humanos firmou uma parceria com a Defensoria Pública do Estado, para tentar melhorar a comunicação com as famílias e conscientizar sobre o fato que solicitar internação compulsória na Justiça não é o único caminho a ser tomado.
“Em 70% dos casos encaminhados pela Defensoria, a gente conseguiu reverter a internação compulsória para um tratamento. Temos conseguido reverter. Ele passando por esse atendimento, acaba que conseguimos”, afirmou.
O secretário ainda ressaltou que há parceria também com o sistema penal e a Justiça, no caso de usuários que cometem delitos e aceitam um tratamento contra o vício.
“Fazemos parcerias com o sistema penal e eles são encaminhados após a audiência de custódia, quando se identifica a necessidade de tratamento. Hoje não temos nem fila, o atendimento é imediato. Qualquer pessoa pode chegar e pedir ajuda. Ou o próprio usuário, ou o familiar”, informou Oggioni.
O Centro de Referência em Direitos Humanos do Governo fica na Avenida Jerônimo Monteiro, no Centro de Vitória, e funciona de segunda à sexta-feira, das 8h das 17h.
"TUDO O QUE EU TINHA CONQUISTADO FOI EMBORA", DIZ MICROEMPRESÁRIO QUE SE RECUPEROU
Dois anos, oito meses e nove dias. Esse é o tempo que Adriano Luiz da Fonseca, 44 anos, afirma orgulhosamente estar longe das drogas. Depois de chegar ao fundo do poço, perdendo tudo o que tinha, ele finalmente percebeu que estava doente e pediu ajuda. Hoje é voluntário na mesma clínica de reabilitação que o ajudou e tornou-se microempresário. Ele contou como foi passar por todo esse ciclo e como fez para conseguir voltar a ficar sóbrio novamente.
Como foi o seu primeiro contato com as drogas?
Aos 18 anos eu fumava maconha. Mas foi quando eu conheci o crack, aos 27 anos, que veio minha decadência. Eu trabalhava como vendendo em uma grande empresa e conseguia ganhar dez salários mínimos, na época. Na mesma hora que usei o crack pela primeira vez, caí no vício.
Em três meses eu já tinha largado o emprego. Me entreguei. Tudo o que eu tinha conquistado foi embora: emprego, carro, toda a mobília da casa... Só não perdi a própria casa porque ela foi construída no quintal da minha ex-sogra e a residência ficou para minha ex-mulher e minhas filhas. Eu perdi minha família também, o contato com as minhas filhas, os amigos se afastaram... A única pessoa que não se afastou foi minha mãe.
Como foram os anos fora de casa, no vício?
Tudo que eu conquistei, eu joguei fora. Cheguei ao fundo do poço. Fui morar na rua e passei quase dois anos revirando lixo, procurando comida. Passei por Vila Velha, Vitória, Cariacica, Serra... Era mais fácil ficar entregue ao vício do que querer um tratamento. A cada dois ou três dias eu dava um jeito de ligar para a minha mãe, só pra dizer que estava vivo. Ela ouvia notícias de pessoas que me viam pelos ônibus, inventando história para conseguir dinheiro. Eu usava de 20 a 30 pedras de crack por dia.
Ficava muito tempo sem ver minhas filhas porque eu não queria que eles me vissem naquela situação. Viver no crack é viver em um mudo fechado. Você só quer saber de fumar mais uma pedra. Esse é o objetivo da vida de um usuário.
Chegou a cometer crimes para conseguir dinheiro?
Sim. Eu só não matei. Mas pratiquei furtos, assaltos e estelionatos para conseguir dinheiro. No dia 27 janeiro de 2011 eu fui preso por assalto e dentro da cadeia, sem a droga, comecei a refletir. Paguei a pena e no dia 31 de março 2012 saí da cadeia direto para uma clínica de reabilitação, a mesma que hoje eu trabalho como voluntário. Cheguei para o dono e falei: “Quero mudança. Preciso de mudança.”
Não é simplesmente parar de usar drogas, mas mudar o caráter, que fica completamente deformado com as drogas.
Houve recaídas?
Sim e numa dessas quase fui morto. Em 2012 cheguei com o propósito mudar de vida. Estava trabalhando como representante de uma loja de material de construção. Certa vez o carro da empresa que eu dirigia, cheio de mercadorias, atolou em uma rua de Primeiro de Maio, em Vila Velha. Naquele momento eu resolvi usar droga o dia todo. Consegui uma oficina do bairro pra deixar o carro e vendi toda a mercadoria que tinha no veículo.
Algumas pessoas começaram a achar que eu era ladrão e estava vendendo mercadoria roubada. A notícia chegou ao tráfico da região e eles começaram a andar pelo bairro atrás de mim. Eram cerca de 20 bandidos de moto e armados. Eu andava pelo bairro como um cadáver ambulante. Os comerciantes abaixavam as portas. Quando vi os criminosos, corri para a oficina onde o carro estava atolado e consegui ligar para o proprietário da clínica de reabilitação, que é um pastor. Ele me resgatou no bairro. Já tive muitas dívidas de drogas, fui ameaçado várias vezes, mas arrumava um jeito de pagar.
Como é sua vida hoje?
Eu vivo um dia de cada vez, matando um leão por dia. "Nunca" é muito tempo. Eu vivo o hoje. Amanhã é outra luta. Serei para sempre um dependente químico em recuperação. Não existe ex-dependente. Eu casei novamente, há cerca de três anos e meio. Minha atual mulher chegou a ver algumas recaídas e esteve ao meu lado. Voltei a ter contato com as minhas filhas. Faço trabalho voluntário na mesma clínica que cuidou de mim. Junto com o pastor, proprietário da clínica, abri uma sociedade em uma fábrica de rodos de alumínio. Hoje eu sou microempreendedor e dou emprego aos internos da clínica. Mas entre as conquistas, a que mais me orgulho é estar há dois anos, oito meses e nove dias limpo.