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Paulo Bonates

O segredo das coisas é musicar as letras

No Brasil, precisamos de músicas para colocar novas letras, letras com erro, que é o novo

Publicado em 19 de Novembro de 2018 às 18:17

Públicado em 

19 nov 2018 às 18:17
Paulo Bonates

Colunista

Paulo Bonates

Crédito: Marius Masalar/ Unsplash
O meu primeiro contato com o aprender trazia uma frase de dona Terezinha: escreveu, não leu, o pau comeu. Ao longo das minhas ignorâncias, mescladas de repetições, cheias de sábias palavras do tipo “quem aprende e não sabe explicar é porque não aprendeu”, venho levando.
Hoje, tenho certeza que samba se aprende na Escola de Samba, em um morro qualquer. As coisas precisam de alteridade, do outro, do amor do outro. Às vezes, o sem sentido deixa transparecer a metáfora do novo, a criatividade.
Tudo isso confeitado com claves, colcheias, fusos, semifusos...
Quem ensina o bebê que nasce cantando e os pássaros a voar? Quando Chiquinha Gonzada, aos 80, e namorando um de 17, gravou o primeiro samba no Brasil, sabia bem o que fazia: “Ó abre alas que eu quero passar, eu sou da Lyra não posso negar, mas Rosa de Ouro é que vai ganhar”.
Eu gosto de música, dizia o Paulo Cesar Pinheiro, porque ela me permite fazê-la. Digo: eu que ler um livro, me permite escrevê-lo; um filme só existe se eu entrar em cena.
Dizem que Feola, técnico da Seleção de 1958, fazia uma única preleção: “Vão lá, meus meninos, façam e usem o que Deus lhes deu. Foram e fizeram. Feola dormia profundamente durante todas as partidas. Não via seus meninos enfiar a bola por baixo das saias dos adversários. Nem os banhos-de-cuia do Didi e Pelé... Trabalhava com o imaginário vindo do conhecimento que tinha de seus talentosos comandados. Torcedor que se preze vai para casa curtir as lembranças das jogadas. Então...
Minha senhora, ninguém aprende decorando, nem uma letra de enredo. A receita para aprender e apropriar-se do conhecimento, alguém me segredou em priscas eras, consistia em pegar o espírito da coisa, e colocar música ou letra, conforme mandava um coração.
O ensino deve despertar paixão e parceria. Diz o Chico e o Francis Hime: “Quando olhaste bem nos olhos meus e o teu olhar era de adeus, juro que não acreditei. Eu te estranhei, me debrucei sobre o teu corpo e duvidei, e me arrastei”. As ideias e os sentimentos estão encravados no meio dos versos.
Já andaste tu pelos caminhos de Fernando Pessoa, ou imaginaste como pode no espaço sideral algo ficar parado ou em movimento uniforme? Ou porque te dá uma dor de barriga intensa que entra no sistema de teu corpo para aliviar teu pensar triste? Mente e corpo são uma coisa só.
Mais que nada, só é politicamente correto saber o que já se sabe. O novo é o erro.
No Brasil, precisamos de músicas para colocar novas letras, letras com erro, que é o novo.

Paulo Bonates

É médico, psiquiatra, psicanalista, escritor, jornalista e professor da Universidade Federal do Espírito Santo. E derradeiro torcedor do América do Rio.

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