Isabella Muniz Barbosa*
Por muitas vezes já estive aqui em defesa da Praça do Cauê, seja em 2013, quando se iniciou a polêmica em torno da praça, seja em 2017, com novos projetos e obras da municipalidade. Sempre fiz questão de ressaltar a importância do espaço público e da preservação do desenho de Saturnino de Brito. Mais do que isso, lembrar aos leitores e ao poder público que não é aumentando as vias que se vai resolver o problema da mobilidade urbana.
Já é fato comprovado por especialistas que alargar uma rua ou facilitar seu fluxo estimula o aumento de veículos a médio e longo prazo, tendência explicada pelo conceito de demanda induzida. Além disso, a praça tem uma distância muito curta de modo a favorecer uma melhoria de efeito. Se há um estímulo em melhorias do transporte de automotivos, haverá também um aumento do número de pessoas que tenderão a usar mais o carro em vez do transporte público.
Outra preocupação deve ser com os pedestres e ciclistas na região do bairro residencial. Há a presença de uma escola estadual que movimenta um grande fluxo de estudantes. Enfim, volta a polêmica sem que haja um projeto físico detalhado com plano viário no entorno da Praça do Cauê. Falta um olhar mais amplo sobre a mobilidade urbana em todas as suas dimensões, que envolva inclusive a aplicação da legislação urbanística (Estatuto da Cidade-Lei federal nº10.257/2001) e da Política Nacional de Mobilidade Urbana (PNMU- Lei federal 12.587/2012) para evitar a dispersão do tecido urbano espraiando-se em periferias cada vez mais longínquas.
As referidas leis convergem no estabelecimento de diretrizes de acesso universal à cidade, à justiça social e ao desenvolvimento urbano; equidade e eficiência no acesso dos cidadãos ao transporte público, assim como o transporte amplo e integrado e o estímulo ao uso de transporte não motorizado. Mas infelizmente a referida legislação restringe-se ainda ao nível institucional.
O que precisamos efetivamente é pensar metropolitano e investir maciçamente em redes de infraestrutura e de transporte público integrado e mais adequado à nossa topografia plana e de costa, tais como ciclovias e o transporte aquaviário, viabilizando também nosso potencial paisagístico para uma melhor qualidade de vida. Outras alternativas adotadas em cidades mundiais podem ser complementares, tais como rodízio e cooperação no transporte automotivo, tarifas em determinadas áreas centrais da cidade, sistema de trabalho home office.
Toda mudança, mesmo as mais simples, gera resistência inicial. Com o tempo, observa-se que as pessoas vão se adaptando e criando novos hábitos. Há muito que o novo urbanismo está propagando uma recondução ideológica de se pensar as cidades, de modo a proporcionar maior conforto, saúde, encontros, enfim, tornar o espaço urbano um lugar mais aprazível para se viver. Vamos focar o planejamento urbano nessa direção?
*É arquiteta urbanista