Greve dos caminhoneiros abriu espaço para oportunismo político?
Leonardo Barros Souza*
Se for possível identificar um elemento mínimo comum entre as várias concepções de política, talvez seja a ideia de ação humana interessada mediada pela razão. Embora soe óbvio, a depender dos indivíduos envolvidos, de seu campo social de atuação e do contexto em que praticada a ação, distinta será a sua percepção pela sociedade ou parte dela e, também, o julgamento da ação política em si mesma e do critério para isso adotado.
Concretamente falando, é de se estranhar, no mínimo, quando não condenar, a conduta de pré-candidatos a cargos eletivos que se aproveitam da aparente aprovação popular à denominada “greve dos caminhoneiros” como alavanca político-eleitoral? Não se o entendimento do que é política fundamenta-se numa matriz mais pragmática, de ação estratégica direcionada a fins previamente definidos, muitas vezes com recurso consciente, solene ou não, ao casuísmo.
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Aqui se verificam ecos de Nicolau Maquiavel, de sua concepção do homem como ser egoísta, movido pelos próprios interesses, conhecedor e bom aplicador, quanto mais virtú tiver, dos instrumentos e mecanismos necessários para alcançar os fins a que se propôs, numa interpretação tradicional do seu famoso O Príncipe.
Assim, nessas breves chaves, não há nada o que espantar, nem reprovar, ainda mais do ponto de vista moral. A reprovação talvez repouse em lição do próprio florentino sobre a dissimulação. A ação casuística estratégica, cujo conhecimento implicar o risco de ser negativamente julgada, deve ao menos ser camuflada, sob pena de comprometimento do fim pretendido.
* O autor é advogado, doutorando em História Social das Relações Políticas e professor da FDV