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Opositor indiano e editora-chefe do Financial Times estão em lista de espionagem

Reportagens investigam uso do Pegasus é um malware -programa criado para infectar computadores ou outros dispositivos- por governos; políticos de Israel questionam exportação

Publicado em 19/07/2021 às 15h36
Celular tem funcionado como uma extensão do corpo e riscos aumentam com importância do aparelho nas nossas vidas
Investigação envolve o uso abusivo do software Pegasus por governos de ao menos dez países para invadir celulares e coletar ilegalmente informações sigilosas. Crédito: Freepik

O principal rival político do primeiro-ministro indiano, a editora-chefe do jornal britânico Financial Times e jornalistas premiados que investigavam corrupção em seus países estão entre os nomes que podem ter tido seus celulares invadidos por governos com o uso de um software israelense, segundo reportagens do The Guardian.

O veículo britânico é um dos 17 que começaram a publicar neste domingo (18) uma investigação envolvendo o uso abusivo do software Pegasus por governos de ao menos dez países para invadir celulares e coletar ilegalmente informações sigilosas sobre jornalistas, ativistas de direitos humanos, religiosos, advogados e acadêmicos, entre outros.

Desenvolvido pela empresa com sede em Israel NSO Group, o Pegasus é um malware -programa criado para infectar computadores ou outros dispositivos- capaz de acessar smartphones sem que o usuário do aparelho necessariamente precise clicar em links maliciosos ou tenha comportamento descuidado na internet. Assim, é possível extrair conteúdo sigiloso, como mensagens, fotos e trocas de emails, além de acionar, remota e secretamente, câmeras e microfones.

Segundo nova reportagem do The Guardian, dois números pertencentes ao maior rival político do primeiro-ministro indiano, Narendra Modi, aparecem entre os mais de 50 mil celulares da lista, compilada pelas organizações sem fins lucrativos Forbidden Stories e Anistia Internacional.

Rahul Ghandi, que liderou o Partido do Congresso na época das eleições nacionais de 2019, foi incluído como alvo de possível vigilância no ano anterior à votação e também alguns meses depois do pleito. Telefones de ao menos cinco amigos próximos a Ghandi e de outras autoridades do partido também foram identificados no vazamento.

Não é possível dizer se um telefone que está na lista foi de fato hackeado, mas o consórcio de imprensa que investiga o caso confirmou sinais de infecção pelo Pegasus em dez números indianos e em 27 outros celulares ao redor do mundo.

Ghandi, que muda de aparelho frequentemente para evitar ser espionado, não conseguiu fornecer o celular usado naquela época para ser examinado. Caso ele tenha sido de fato hackeado, Modi teria tido acesso a dados privados de seu maior concorrente nas eleições.

Uma análise de mais de mil números indianos da lista mostra fortes indícios de que agências de inteligência do governo do país estão por trás da vigilância.

Líderes separatistas da região da Caxemira, diplomatas paquistaneses e até números que podem ter sido usados pelo premiê paquistanês, Imran Khan, estão nos registros.

Outra reportagem do The Guardian afirma que mais de 180 editores, repórteres investigativos e outros jornalistas ao redor do mundo estão na lista. Um exemplo é Roula Khalaf, primeira mulher a ocupar o cargo de editora-chefe do Financial Times. Uma análise dos dados sugere que o telefone de Khalaf foi selecionado em 2018 como alvo pelos Emirados Árabes Unidos.

Entre outros repórteres lincluídos como possíveis alvos, estão o freelancer mexicano Cecilio Pinero Birto, que foi assassinado por um grupo armado um mês após seu telefone ter sido incluído na lista, e o indiano Guha Thakurta, que investigou o uso das redes sociais pelo governo de Narendra Modi para espalhar desinformação.

Também foi confirmado o hackeamento do celular de Khadija Ismayilova, jornalista do Azerbaijão premiada por suas reportagens sobre o enriquecimento ilícito de políticos. Ela vem sendo alvo de assédio e intimidação devido ao seu trabalho, tendo tido uma câmera oculta instalada em sua casa e vídeos íntimos seus divulgados.

O grupo NSO negou o que chama de "falsas alegações" das reportagens e afirmou que vende a tecnologia apenas para agências de inteligência e segurança que vão utilizá-la para combater criminosos e terroristas.

Políticos de Israel querem suspender exportação do Pegasus Nesta segunda-feira, o partido israelense Meretz, integrante da coalizão que governa o país, afirmou que vai questionar o ministro da Defesa a respeito das exportações do Pegasus.

O ministério da Defesa de Israel, chefiado por Benny Gantz, é o responsável por licenciar as exportações do software. Nesta segunda-feira, Nitzan Horowitz, ministro da Saúde e líder do Meretz, disse que vai se encontrar na quinta (22) com Gantz para discutir o tema.

Em um encontro televisionado do Meretz, o parlamentar Mossi Raz pediu que o partido solicite a suspensão das exportações pelo governo de Israel, que ele comparou a "exportar armas para países não democráticos, o que é proibido".

Outro parlamentar, porém, o ex-dirigente militar Yair Golan, foi mais comedido, dizendo que as reportagens "parecem tendenciosas, com uma motivação comercial" e acrescentando que "não é apenas a NSO que faz essas coisas".

Também nesta segunda-feira, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, disse que, se a denúncia for verdadeira, é "completamente inaceitável".

"Isto precisa ser comprovado, mas, se este for o caso, isto é completamente inaceitável", declarou Von der Leyen à imprensa em Praga.

Von der Leyen, que visita Praga para apresentar o plano de recuperação pós-covid aprovado pela União Europeia, mencionou em particular a suposta espionagem contra jornalistas. "A liberdade de imprensa é um dos valores fundamentais da União Europeia", afirmou.

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