O ex-prefeito Eduardo Paes (PSD) afirma que Luiz Inácio Lula da Silva (PT) "o melhor quadro para vencer as eleições presidenciais", mas diz que o presidente "não governará o Rio de Janeiro".
Ele também é crítico da megaoperação policial que deixou mais de uma centena de mortos no Complexo do Alemão e da Penha em 2025, mas defende que "delinquente que usa roupa de guerra e arma pesada contra o Estado vai ter que ser neutralizado".
O agora candidato ao governo do Rio de Janeiro esteve em Oxford, no Reino Unido, no último sábado (16/5), onde participou da 11ª edição do Brazil Forum UK, evento organizado por brasileiros que estudam em universidades britânicas.
Em entrevista à BBC News Brasil durante o evento, ele fez uma análise da atual situação política do Rio de Janeiro e respondeu porque decidiu concorrer ao Executivo fluminense — mesmo tendo garantido durante a última campanha à prefeitura que iria completar os quatro anos de gestão.
"Acho que posso somar mais nesse momento se vencer as eleições para o Estado", argumenta ele.
Questionado se pretende concorrer a uma reeleição em 2030 — caso seja bem-sucedido em 2026 — ou alçar voos maiores, Paes respondeu com ironia: "Se eu fizer um bom trabalho, sair vivo e não terminar preso, já é uma vitória."
Essa será a terceira vez que Paes disputará o governo do Estado. Em 2006, ela era deputado federal pelo PSDB quando fez sua primeira investida para um cargo majoritário. O então senador Sérgio Cabral ganharia aquela eleição e o convidaria para ser secretário e entrar para o MDB.
Paes elegeu-se prefeito do Rio pela primeira vez em 2008 e reelegeu-se em primeiro turno quatro anos depois. Ele comandou a cidade na preparação para os Jogos Olímpicos e durante a competição, projetando-se nacionalmente.
A preparação da cidade para as Olimpíadas — com a realização de grandes obras de infraestrutura, mobilidade urbana, além dos espaços de competição — foi alvo de críticas e denúncias de desvios de dinheiro e superfaturamento.
Paes foi investigado, mas não foi condenado em relação aos megaeventos. Aliados atribuem ao ex-prefeito parte da modernização urbana do Rio durante o ciclo olímpico, especialmente em infraestrutura e mobilidade.
Nesse mesmo período, Cabral foi preso e condenado por corrupção.
Paes também foi citado no episódio conhecido como "farra dos guardanapos", que reuniu políticos fluminenses ligados ao grupo de Sérgio Cabral numa festa luxuosa num palacete na famosa Avenida Champs-Élysées, em Paris, na França, no ano de 2009.
Paes sempre se defendeu das acusações e se afastou de Cabral. "Eles estão lá e eu estou aqui. Ganhei mais uma eleição para a prefeitura do Rio de Janeiro e governei oito anos sem ninguém me acusando de corrupção", comentou ele no programa Roda Viva, da TV Cultura, em 2022.
"O Sérgio Cabral nunca foi meu padrinho político. Eu tinha mais de 20 anos de vida pública quando eu tive o apoio dele na minha eleição para prefeito em 2008", complementou ele.
Sobre a "farra dos guardanapos", Paes disse à Veja que saiu do evento quando "a festa estava ficando um pouco animada demais".
"E não me relaciono pessoalmente com fornecedores e empresários. Quando noto que a coisa começa a ficar muito íntima, me retiro do ambiente. Foi o que fiz naquele dia."
Após deixar a prefeitura no fim do ciclo olímpico, Paes viu seu grupo político perder a eleição municipal de 2016 para o agora deputado federal Marcelo Crivella (Republicanos-RJ), em meio ao desgaste provocado pela crise econômica do Estado e pelas investigações de corrupção que atingiram aliados do MDB.
Em 2018, Paes trocou novamente de partido para disputar o governo fluminense uma segunda vez, desfiliando-se do MDB e desvinculando-se de lideranças do partido presas por corrupção, como o ex-deputado federal Eduardo Cunha e ex-deputado estadual Jorge Picciani, além de Cabral.
Foi derrotado de novo, desta vez pelo ex-juiz Wilson Witzel (então no PSC, hoje DC) em uma conjuntura que, segundo o agora pré-candidato, não foi influenciada apenas pelo grande prestígio do então candidato Jair Bolsonaro (PL), que apoiou Witzel, mas também pela atuação de juízes na Operação Lava Jato que o teriam prejudicado.
Witzel não chegou a concluir o mandato. Tornou-se o primeiro governador do Brasil a ser afastado definitivamente do cargo por impeachment, em 2021, em meio à acusação de corrupção por desvios de recursos da área da saúde, pela qual foi condenado na Justiça por crime de responsabilidade.
Paes, por sua vez, voltou à Prefeitura do Rio no mesmo ano de 2021 e, logo em seguida, trocou de legenda mais uma vez, entrando para o PSD, de Gilberto Kassab. Reelegeu-se quatro anos depois, prometendo cumprir o mandato até o fim.
Durante sua terceira passagem pela prefeitura, um período marcado pela pandemia de covid-19, Paes virou um dos principais antagonistas políticos do bolsonarismo no Rio de Janeiro, e entrou em choque público com o então presidente Jair Bolsonaro (PL) em temas como vacinação e restrições sanitárias.
Paes se prepara para disputar o governo fluminense pela terceira vez como o político que governou a capital fluminense por mais tempo na história (exatos 4.827 dias ao longo dos quatro mandatos) e à frente com folga na liderança das pesquisas de intenção de voto até agora.
Em entrevista à BBC News Brasil, o ex-prefeito comenta como pretende, nesta campanha eleitoral, balancear o apoio do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) em um Estado que tradicionalmente elege governadores alinhados à direita.
"Eu já tenho o presidente Lula no meu palanque. Ele tem o meu apoio, o meu voto, e acho que ele é o melhor quadro para vencer as eleições presidenciais. Mas não é ele que vai governar o Rio de Janeiro", diz Paes, que, ao menos por enquanto, prefere não fazer projeções de qual será seu futuro político caso consiga finalmente ocupar o Palácio das Laranjeiras.
Confira os principais trechos da entrevista a seguir.
BBC News Brasil - Como o senhor avalia a atual situação política do Rio de Janeiro?
Eduardo Paes - Olha só, é complexo, e não é o desejável. O desejável é que nós tivéssemos um governador eleito democraticamente tocando as funções políticas do Estado. Essa, aliás, foi a tentativa que meu partido fez ao entrar com uma ação, pedindo por eleições diretas.
Mas essa é uma situação criada pela fragilidade institucional política do grupo que vem governando o Estado há oito anos. É uma circunstância que eles mesmos criaram quando, em 2022, depois do que já tinham feito em 2018, eles roubaram a eleição, com compra de votos com dinheiro público e todos os escândalos que nós vimos.
Daí o sucessor natural do governador [o ex-deputado estadual Rodrigo Bacellar] foi preso por ligações com o Comando Vermelho, o governador ia ser cassado e renunciou na noite anterior. São todas medidas inaceitáveis. E que levaram o Supremo a dizer: "Olha, basta, vamos ter que organizar um pouco isso". O que meu partido defende, o que eu defendo, são eleições diretas já.
[Nota da redação: A defesa de Rodrigo Bacellar, que está preso preventivamente sob as acusações de obstrução de justiça e vazamento de informações sigilosas sobre operações policiais, nega que o deputado tenha cometido qualquer ilegalidade ou tenha ligação com o crime organizado.]
BBC News Brasil - O senhor falou desse histórico recente, mas as gestões no governo do Estado do Rio de Janeiro são marcadas há décadas por escândalos de corrupção e prisão de governadores. A que se deve isso?
Paes - Historicamente, na cidade do Rio, se você olhar os prefeitos, como Marcello Alencar, César Maia, Luiz Paulo Conde, eu mesmo, enfim, você tem uma estabilidade de políticas públicas e de avanço na cidade. Mas, infelizmente, o governo do Estado tem tido essas experiências. Eu poderia dizer: "Vote em mim que não vai acontecer isso". Mas acho que a população tem que estar mais atenta e olhar o histórico e a conduta [dos candidatos].
Eu perdi as eleições de 2018 para esse grupo que está aí, e eles posavam de moralistas. E a gente vê tudo o que está envolvido nisso. Então, posso responder pelos meus atos, não pelos dos outros. Eu só lamento que a gente tenha escolhido tão mal ao longo dos últimos anos.
BBC News Brasil - Governar o Rio de Janeiro hoje exige negociar com estruturas políticas que historicamente estão envolvidas nesses escândalos. Como o senhor pretende traçar a linha e o limite das alianças?
Paes - Faço política no Rio de Janeiro há muito tempo e estou aqui: fui quatro vezes eleito prefeito da cidade, já fui candidato a governador duas vezes, já fui deputado federal. Acho que, inclusive, os interlocutores do mal sabem qual é o meu limite, quais são as quatro linhas em que eu admito jogar o jogo. Faço política, faço negócio, não cometo ilegalidade.
Acho natural que partidos que participem e apoiem uma candidatura tenham espaço no governo. Nos meus governos na prefeitura, eles sempre tiveram. Isso não significa delegação de autoridade, liberdade para roubar, nada disso. Quem comanda o governo é o chefe do Executivo. E é assim que a gente pretende fazer se vencer as eleições.
BBC News Brasil - Da última vez que o senhor tentou concorrer ao cargo de governador do Rio de Janeiro, em 2018, foi derrotado por um candidato de direita que estava naquele momento ligado ao ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). O senhor teme que algo parecido possa acontecer de novo, nas eleições de 2026?
Paes - Vamos lembrar que ali, em 2018, você tem um episódio mais grave. Não foi só o voto ideológico pela força do ex-presidente Bolsonaro à época. Tinha juízes da Lava Jato, como o Marcelo Bretas, que operou permanentemente para me prejudicar, inventando histórias e escândalos.
Há dois anos, foi comprovado que era mentira, tanto que ele [Bretas] foi cassado da magistratura e ainda vai terminar preso. Então, isso mostra um pouco o jogo que se jogou, o conjunto de ilegalidades que foram praticadas no Rio de Janeiro para que aquela vitória acontecesse.
[Nota da redação: O juiz Marcelo Bretas foi punido pelo Conselho Nacional de Justiça com aposentadoria compulsória devido a irregularidades na condução da Operação Lava Jato no Rio de Janeiro, acusado de parcialidade, direcionamento de acordos de delação, pressão sobre réus, negociação de penas e combinação de estratégias com o Ministério Público. Sua defesa sempre negou que haja provas que sustentem essas acusações.]
BBC News Brasil - O Rio de Janeiro tem um histórico recente de eleger governadores mais alinhados à direita. Como o senhor pretende atrair o voto desse eleitorado e, ao mesmo tempo, ter o apoio do presidente Lula?
Paes - O presidente Lula não vai governar o Rio de Janeiro. Da mesma maneira que o presidente Bolsonaro, que elegeu o [Wilson] Witzel e o Cláudio Castro, não governou o Rio de Janeiro. Se não, ele [Bolsonaro] seria culpado pela roubalheira de ambos. Então, quem vai governar o Rio de Janeiro é o governador do Estado. São coisas distintas.
Eu sou um fazedor. Eu quero cuidar dos problemas da população do meu Estado, quero resolver a violência, quero resolver a infraestrutura e o desenvolvimento econômico, a tragédia que está a educação fluminense, a saúde fluminense. Esse é o meu esforço e é sobre isso que vou tratar.
BBC News Brasil - O senhor quer o presidente Lula no seu palanque?
Paes - Já tenho o presidente Lula no meu palanque. Ele tem o meu apoio, o meu voto, e acho que ele é o melhor quadro para vencer as eleições presidenciais. Mas não é ele quem vai governar o Rio de Janeiro.
Aliás, eu acho que até para isso ele é o melhor nome também, porque o Lula tem muito carinho com o Rio de Janeiro. A minha experiência com ele foi sempre de o presidente ajudar muito o Rio nos momentos em que fui prefeito.
BBC News Brasil - O senhor considera que o bolsonarismo continua sendo a principal força política do Rio de Janeiro hoje?
Paes - Deixo essas análises para vocês.
BBC News Brasil - No ano passado, o Rio de Janeiro foi palco de uma megaoperação policial que terminou com dezenas de mortos e repercussão internacional. Passados alguns meses, que avaliação o senhor faz daquele episódio?
Paes - A mesma que fiz à época. Delinquente que usa roupa de guerra e arma pesada contra o Estado vai ter que ser neutralizado. Eu disse isso à época e repito agora: aquilo foi uma operação que só foi feita porque se chegou a um nível no Complexo do Alemão pela inoperância do governo do Cláudio Castro. E aquilo que a gente previa se confirmou: no dia seguinte, [os criminosos] já estavam todos lá de volta, ou foram substituídos. As comunidades do Alemão e da Penha continuam dominadas pelo crime organizado.
Ou seja, não foi uma operação dentro de uma política pública de segurança, foi um gesto eleitoral. E é óbvio que ninguém gosta de 117, 122 pessoas mortas, inclusive os cinco agentes da lei. Quem se satisfaz com uma cena dessas não pode ser normal. Mas, eventualmente, o Estado tem o monopólio do uso da força, inclusive da força letal.
BBC News Brasil - Se o senhor for eleito governador, avalia a possibilidade de fazer megaoperações policiais parecidas ao que ocorreu em 2025 nos complexos da Penha e Alemão?
Paes - Se eu for governador, vai ter política pública, clareza e retomada de território. E, se a pergunta é, se alguém ousar desafiar o Estado, colocar em risco a vida de um agente público, de um cidadão, e para isso tiver que ser neutralizado, será neutralizado. Aliás, a lei permite assim, lei prevê assim.
BBC News Brasil - O Rio de Janeiro convive há décadas com a expansão territorial e econômica das milícias. O Estado perdeu essa disputa?
Paes - Não perdeu. Está perdendo, mas vamos virar esse jogo, vamos ganhar essa disputa e retomar os territórios.
BBC News Brasil - No ano passado, saíram notícias de que o senhor estaria planejando uma viagem para El Salvador, país que tem uma política conhecida de encarceramento em massa. O senhor ainda pretende fazer essa visita?
Paes - Eu não pretendo, eu não marquei nada. Saiu uma nota dizendo que ia [para El Salvador]. Não sei quem disse, mas eu não vou. Mas também não teria problema de ir. Às vezes, você tem que ver coisas esquisitas ou ter experiências. Eu, por exemplo, fui essa semana para Chicago, que é uma das cidades mais violentas dos Estados Unidos, porque ela se adequa mais à realidade do Rio de Janeiro.
BBC News Brasil - E o senhor tirou algo dessa experiência em Chicago?
Paes - Não tem uma receita de bolo, as circunstâncias são distintas. Mas você vê que políticas públicas eficientes podem, sim, endereçar o problema e minimizar os impactos desses problemas.
BBC News Brasil - O Brasil vive um momento muito especial em termos de turismo, com aumento no número de visitantes e um interesse global em coisas relacionadas ao país. A que se deve isso? Por que isso está acontecendo agora?
Paes - Essa coisa de um mundo confuso, o estilo do [Donald] Trump, o contraponto com o Xi Jinping, a guerra no Oriente Médio, a guerra na Europa… Isso tudo coloca o Brasil, apesar de todos os problemas do continente, como um país historicamente pacífico, com um presidente muito talentoso para o diálogo, para a diplomacia, com um charme pessoal enorme. Então, mais uma vez, as coisas convergem para o Brasil. E nós não podemos perder essa oportunidade.
BBC News Brasil - E como não perder essa oportunidade?
Paes - Por meio de política pública. A gente não pode ficar dependendo da luz do Lula e do talento pessoal dele. É óbvio que carisma pessoal é uma coisa que você não faz como política pública. Mas deve ser uma missão permanente do Brasil ser um grande agente da diplomacia e da geopolítica mundial.
BBC News Brasil - Durante as últimas eleições, na campanha para a Prefeitura, o senhor disse que não deixaria o cargo no meio do mandato para concorrer a outros cargos. O que fez o senhor mudar de ideia?
Paes - Acho que a situação do Estado e o desafio. Tenho certeza de que a população carioca entendeu. Deixei a cidade com um grande gestor, um grande prefeito, que está mostrando a que veio nesses dois meses. Tenho certeza de que a população da cidade está muito bem cuidada. Acho que posso somar mais nesse momento se vencer as eleições para o Estado.
BBC News Brasil - Pensando no futuro, se o senhor for eleito governador agora em 2026, pretende buscar a reeleição em 2030? Ou tem projetos maiores?
Paes - Se eu fizer um bom trabalho, sair vivo e não terminar preso, já é uma vitória.