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Como o Talebã governa o Afeganistão e impede até divórcio de mulher que acusa marido de agressão

Cinco anos depois de o Talebã voltar ao poder, a BBC acompanha integrantes da cúpula do grupo e as mudanças que eles vêm impondo ao país

Publicado em 24 de Agosto de 2026 às 16:34

BBC News Brasil

Publicado em 

24 ago 2026 às 16:34
Imagem BBC Brasil
O governador da província de Jawzjan, Abdullah Sarhadi, que combateu pelo Talebã, ficou detido durante vários anos sob custódia dos Estados Unidos em Guantánamo Crédito: BBC

O governador Abdullah Sarhadi entrega dinheiro para ajudar no tratamento de um menino que quebrou o braço e também destina recursos a uma mesquita local.

Depois, em seu gabinete no norte do Afeganistão, uma conversa inesperada se desenrola.

Uma jovem mulher diz ao ex-comandante do Talebã, de barba grisalha, que quer se separar do marido, a quem acusa de agredi-la e espancá-la durante meses.

Ela não aceita que o pedido seja recusado.

Em um país onde meninas são proibidas de frequentar o ensino médio, a jovem de 18 anos defende sua decisão com calma e segurança, com o rosto completamente coberto por um véu e óculos escuros.

"Se houvesse alguma possibilidade de continuarmos juntos, eu não estaria aqui. Eu tomei minha decisão", afirma a mulher.

Depois de tentar convencê-la a não se divorciar, Sarhadi diz que as mulheres são "estúpidas" e "têm o intelecto deficiente", provocando risos entre autoridades, seguranças e homens mais velhos que estão ao seu redor.

A cena oferece um raro retrato de como é o cotidiano sob o regime do Talebã, cinco anos depois de o grupo derrubar o governo apoiado pelos Estados Unidos, em 2021.

Imagem BBC Brasil
A jovem de 18 anos defende seu pedido de divórcio e diz que sua 'honra e dignidade já foram destruídas' Crédito: BBC

Nesse período, as mulheres foram excluídas da maior parte dos locais de trabalho, proibidas de frequentar universidades e impedidas de viajar sozinhas ou de visitar parques e centros de lazer.

Ao longo de encontros realizados durante dois anos, a BBC teve um acesso incomum a figuras influentes do movimento islâmico extremista e acompanhou de perto homens que antes planejavam atentados suicidas ou passaram anos escondidos em refúgios clandestinos, mas que hoje ocupam cargos no governo ou integram as forças do Talebã.

O Talebã chegou ao poder afirmando que havia mudado, mas muitas de suas políticas são semelhantes à interpretação rígida da Sharia — a lei religiosa islâmica — que o grupo impôs na década de 1990.

Os homens que encontramos pareciam querer se apresentar como pessoas razoáveis, mas evitavam falar sobre a violência que praticaram no passado. Também presenciamos momentos de tensão entre governantes e a população.

O governador Sarhadi então responde à mulher, Tuba (nome fictício), que ela deve continuar casada.

"Pergunte a si mesma: 'Quem vai querer se casar comigo depois que eu me divorciar?'", diz Sarhadi. "Você terá de ceder muito ou perderá sua dignidade e sua honra."

"Senhor governador, a minha honra e a minha dignidade já foram destruídas", responde Tuba.

O marido escuta, à espera de sua vez de falar.

Pela Sharia, uma mulher que pede ao marido que concorde com o divórcio pode ter de devolver parte ou todo o dinheiro que recebeu dele quando se casaram.

Muitas vezes, as partes chegam a um acordo financeiro. Mas o marido de Tuba diz querer receber quatro vezes esse valor, quantia que a família dela se recusa a pagar.

O governador diz que a mulher deveria ter um quarto só para ela. Acrescenta que as autoridades vão advertir o marido para que não volte a agredi-la — "caso contrário, ele será preso".

Insatisfeito, o pai de Tuba diz mais tarde à BBC que a família vai tentar obter o divórcio na Justiça, embora, no sistema judicial do Talebã, seja muito difícil para uma mulher conseguir se divorciar sem o consentimento do marido.

Imagem BBC Brasil
Buraco deixado pela destruição de uma das estátuas de Buda em Bamiyan — Abdullah Sarhadi afirma ter sido responsável por destruí-la Crédito: EPA/REX/Shutterstock

De Guantánamo ao governo

Sarhadi foi comandante militar durante a primeira passagem do Talebã pelo poder, na década de 1990. Ele estava entre os milhares de insurgentes que se renderam no fim de 2001, quando uma coalizão liderada pelos EUA depôs o grupo durante a invasão do Afeganistão.

Sarhadi ficou detido por vários anos sob custódia dos EUA na base de Guantánamo, mas acabou sendo libertado.

Quando o Talebã voltou ao poder, Sarhadi se tornou governador, primeiro da província de Bamiyan e, quando o encontramos no fim de junho, da cidade de Sheberghan, na província de Jawzjan.

Recentemente, ele se tornou vice-comandante de um destacamento militar na província de Kunduz, no norte do país.

Enquanto mexe em um celular antigo, com uma tela minúscula, Sarhadi diz que uma proibição recente do uso de smartphones por autoridades tornou o trabalho mais lento.

"Antes, era possível mandar uma mensagem rapidamente... enviar documentos e receber uma resposta depressa." Se falar mais sobre a proibição, acrescenta, "vai dar problema".

Mas, em outros aspectos, sua visão de mundo parece praticamente a mesma defendida pelo Talebã há 25 anos. Na época, ele era comandante militar em Bamiyan, onde o grupo explodiu antigas estátuas gigantes de Buda, provocando choque e condenação internacional.

No início, Sarhadi tenta evitar nossas perguntas sobre o sítio arqueológico, mas acaba dizendo: "Eu o destruí com minhas próprias mãos. [...] Tudo o que fizemos e fazemos está de acordo com a orientação e a lei de Deus... Nós destruímos ídolos em vez de vendê-los. Por que eu deveria me arrepender? Foi a vontade de Deus."

Na capital do Afeganistão, Cabul, encontramos outra figura de alto escalão do Talebã que deixou para trás um passado de violência para assumir um cargo no governo.

Habibullah Badr nos leva pelas ruas da cidade em um carro blindado.

Badr diz que antes era "responsável pelas operações de atentados suicidas" em Cabul.

"Conheço muito bem todas as estradas e ruas... Tínhamos todas as informações de que precisávamos sobre Cabul e seus becos", afirma Badr. "Havia áreas em que era preciso muito tempo para planejar [as operações]."

Atentados suicidas do Talebã mataram milhares de pessoas no Afeganistão, entre elas muitos civis.

Mas Badr evita falar sobre seu passado, por receio de "deixar as pessoas abaladas" e de "reabrir feridas".

Questionado sobre as mortes de civis, Badr afirma que o Talebã tinha como alvo comboios dos EUA e que a população era orientada a se manter afastada de bases estrangeiras.

Sempre que tento perguntar sobre atentados específicos que ocorreram em áreas civis, ele evita responder.

Imagem BBC Brasil
Habibullah Badr diz que, no passado, participou de operações que envolviam atentados suicidas Crédito: BBC

Atualmente, Badr está afastado de cargos oficiais para fazer tratamento médico, mas antes foi vice-chefe do sistema prisional de todo o país — e chegou a dirigir a mesma prisão onde, durante o governo anterior, ficou detido no corredor da morte.

Badr nos convida a acompanhá-lo a um encontro tribal, no qual o chefe de uma fundação beneficente vai homenageá-lo com uma medalha. Mas a cerimônia toma um rumo inesperado.

"O sr. Badr é motivo de orgulho para o Afeganistão e um grande combatente", diz Sultan Mohammad Talaee. "Mas também tenho uma queixa. Se as escolas e a educação fossem abertas a todos, seria algo muito importante para o Afeganistão. Espero que isso não o ofenda."

Segue-se um silêncio constrangedor, enquanto os presentes parecem não saber como reagir. O microfone de Talaee é rapidamente retirado.

Depois, Talaee diz à BBC: "Pedi que as escolas para meninas fossem reabertas... Buscar conhecimento é uma obrigação tanto para homens quanto para mulheres no Islã."

Talaee acrescenta: "Havia outras coisas que eu queria dizer, mas não me deixaram continuar falando."

Muitas vezes, quem se manifesta publicamente enfrenta consequências bem mais graves.

Mulheres nos contaram sobre o profundo desespero que sentem ao ver seus sonhos frustrados pelas restrições à educação e falaram de amigas que foram presas por participar de protestos.

A maioria dos jornalistas com quem conversamos afirmou ter sido convocada ou interrogada pela Estikhbaraat, a organização de inteligência do Talebã.

A BBC apresentou algumas dessas preocupações ao porta-voz do governo do Talebã, conhecido como Zabihullah Mujahid.

Imagem BBC Brasil
Zabihullah Mujahid diz que os direitos das mulheres e a liberdade de expressão devem ser vistos "à luz da Sharia" Crédito: BBC

Ele é um dos principais rostos públicos do governo do Talebã desde 2021. Ainda usa o pseudônimo que adotou durante anos na insurgência, mas nos disse que o seu nome verdadeiro é Tahir Shah Seddiqi, revelando-o publicamente pela primeira vez.

Em um luxuoso centro de imprensa financiado pelos americanos para o governo anterior, perguntamos sobre a primeira entrevista coletiva que ele deu ali, dois dias depois de o Talebã assumir o controle do país.

Na ocasião naquele ano, Mujahid disse ao mundo que o governo do Talebã permitiria que as mulheres trabalhassem e estudassem "dentro de nossas regras" e que elas seriam "muito ativas" na sociedade. Por que o grupo não cumpriu o que prometeu?

"Estamos comprometidos com os direitos das mulheres, a liberdade de expressão e outras questões dentro da Sharia", responde. "Devemos analisar tudo à luz da Sharia."

Permitir que mulheres trabalhem em escritórios como o dele "levaria à imoralidade" e "prejudicaria a dignidade delas", acrescenta.

Mujahid afirma que a questão da educação das mulheres "está em discussão... precisamos encontrar uma solução baseada na Sharia".

Questionado sobre a repressão do Talebã à liberdade de imprensa, ele diz: "Em uma sociedade como a do Afeganistão, temos nossas restrições. Não podemos deixar que a imprensa faça a propaganda que quiser... ela não pode transmitir conteúdo contrário às leis e aos ritos islâmicos."

Imagem BBC Brasil
Crédito: BBC

O governo do Talebã está sediado em Cabul, mas Mujahid passa boa parte do tempo em Kandahar, no sul do país, principal reduto do grupo e considerada por alguns a capital de fato.

Pedimos para encontrar o líder supremo do Talebã, Hibatullah Akhundzada, que vive na cidade. Ele raramente aparece em público e nunca concedeu uma entrevista à imprensa — fomos informados de que, no momento, isso não seria possível.

As restrições em Kandahar foram endurecidas desde minha última visita à cidade, há dois anos. Agora, os homens são obrigados a usar barba. As emissoras de rádio não podem tocar música nem transmitir vozes de mulheres, e não tivemos permissão para filmar na cidade.

A duas horas dali, por estradas de terra, alguns dos ex-combatentes mais fiéis ao grupo mostraram à BBC a antiga rede de cavernas secretas usada pelos insurgentes.

Abid Lalai, ex-combatente que hoje trabalha em um posto de controle como integrante de uma força de segurança subordinada ao Ministério do Interior, nos mostra as aberturas de onde atirava e os locais onde costumava guardar o Alcorão e pendurar fuzis AK-47.

Imagem BBC Brasil
Abid Lalai é um dos muitos combatentes do Talebã que se esconderam em cavernas para evitar serem capturados pelos governos anteriores Crédito: BBC

Seu superior, Abdul Samad, nos mostra um cemitério sem identificação e diz que seu pai, morto enquanto combatia pelo Talebã, está enterrado ali.

A região é uma das mais pobres de um país onde, segundo a ONU, três em cada quatro pessoas não conseguem suprir suas necessidades básicas. Samad afirma que a população local precisa urgentemente de água, estradas e centros de saúde.

"As autoridades do Emirado [Talebã] não se esqueceram de nós", diz Samad. Segundo ele, os líderes talvez estejam ocupados com outras prioridades. "Temos esperança de que, em algum momento, eles cuidem de nós."

Cinco anos depois de o Talebã voltar ao poder, pobreza, desemprego e instabilidade econômica continuam entre os principais problemas do país.

Os integrantes do Talebã com quem conversamos afirmaram que trabalham para enfrentar essas questões, mas também encontramos pessoas que consideram o próprio grupo o principal problema do país.

"Não tenho palavras para explicar como um grupo que não entende nada da vida de repente está no poder", diz Hoda — nome fictício —, que participou de protestos nas ruas quando o Talebã voltou ao poder.

"As mulheres não conseguem aceitar essa situação", afirma Hoda à BBC. "Eles podem ampliar as restrições, mas isso não vai continuar assim para sempre."

"Acho que o Talebã tem medo de mulheres instruídas", acrescenta Hoda. "É por isso que restringem as mulheres. Eles querem mulheres sem instrução, para que elas não possam criar homens esclarecidos. Porque isso acabaria com o Talebã."

Reportagem adicional de Hafizullah Maroof

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