Publicado em 2 de novembro de 2021 às 14:07
Sexta, 29 de outubro, 2h46: "O avião do presidente pousou em Roma às 2h24. Ele desembarcou às 2h36. Vestia um terno escuro e uma gravata azul. A primeira-dama usava um vestido vermelho e calçava sapatos de salto da mesma cor. Antes de entrar no carro, o presidente conversou com auxiliares que o esperavam na pista". >
Sexta, 29 de outubro, 16h22: "Presidente, o papa abençoou seu rosário? / Sim / O que falaram sobre clima? / Sobre a necessidade e a responsabilidade moral que temos de lidar com isso / A questão do aborto surgiu? / Surgiu. Ele disse que estava feliz por eu ser um bom católico e eu deveria continuar recebendo a comunhão. / O papa lhe deu comunhão hoje? / Não". >
Sábado, 30 de outubro, 14h58: "Informação de contexto: Todos os líderes se manifestaram em apoio a um imposto mínimo global. O presidente mencionou que, embora não concordemos em todas as questões, podemos abordar os interesses comuns". >
Domingo, 31 de outubro, 19h23: "Lembrete: daqui a dois minutos começa a entrevista coletiva do presidente". >
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Segunda, 1º de novembro, 10h40: "Na partida, o presidente foi recebido no aeroporto por diplomatas. Acenou do topo da escada e embarcou às 9h08. Estamos rumando para a decolagem às 9h16". >
Do momento em que o americano Joe Biden desembarcou do Air Force 1 em Roma, na madrugada da última sexta (29), àquele em que voltou ao avião presidencial, na manhã de segunda (1º), jornalistas inscritos na lista de informações da Casa Branca receberam 73 e-mails dos assessores para orientá-los na cobertura. >
Durante a cúpula do G20, que aconteceu na capital italiana neste final de semana, a relação do governo dos EUA com a mídia --e com a opinião pública-- contrastou com a do governo brasileiro. >
Agendas detalhadas, resumos de encontros e reuniões bilaterais, transcrições de entrevistas e até o cardápio das refeições era compartilhado com os repórteres a uma média de quase uma nova informação por hora. >
No mesmo período, 11 mensagens de Whatsapp foram enviadas aos jornalistas brasileiros que viajaram a Roma para cobrir a viagem do presidente Jair Bolsonaro. >
Dessas, apenas uma tratava de algo que tivesse sido dito por ele: um link para o texto do discurso da abertura da cúpula no sábado, publicado no site do governo algumas horas depois de ter sido lido pelo presidente. >
A escassez de informação refletiu tanto a ausência de encontros importantes --durante o G20, Bolsonaro não teve nenhuma reunião bilateral com os líderes das 19 maiores economias do mundo ou com a União Europeia-- quanto a decisão do presidente de não se submeter a perguntas dos jornalistas. >
A Presidência não agendou nenhuma entrevista coletiva formal ou informal durante o evento em Roma, um procedimento comum em viagens desse tipo, inclusive nas do próprio Bolsonaro no começo de seu governo. >
Além da Itália, que sediou o G20, Canadá, Reino Unido, França e Espanha são alguns dos países que reservaram salas especiais para que seus líderes respondessem às perguntas dos jornalistas. Mesmo presidentes autoritários, como Recep Erdogan, da Turquia, prestaram contas: a coletiva do líder turco aconteceu às 17h30 do domingo, na sala Shakespeare. >
O premiê canadense fez duas rodadas. "Nossas empresas gastam muito dinheiro para nos mandar aqui, e há uma expectativa de que o premiê esteja acessível para responder às perguntas feitas em nome da população canadense", afirmou o repórter Glen McGregor, da emissora CTV. >
Segundo ele, é praxe que o líder de seu país faça ao menos uma entrevista coletiva formal ao final de eventos como estes, para explicar compromissos feitos e posições tomadas. >
O presidente francês, Emmanuel Macron, que também responderia a perguntas da mídia na tarde de domingo, após a coletiva do italiano Mario Draghi, também fala rapidamente com os jornalistas todos os dias, segundo Olivier de Galzain, da Radio France. >
Já Bolsonaro, além de duas frases ditas na chegada à embaixada em Roma, onde se hospedou, parou apenas uma vez para falar com parte dos repórteres que faziam plantão no local. Os outros, sem informação completa sobre a agenda do presidente, tentavam sair do local onde ocorria o G20, a 10 km de distância dali. >
Houve duas outras conversas com jornalistas, mas uma foi para italianos. Na noite de sexta, ele fez um convite informal para jantar na embaixada aos repórteres das emissoras Record e CNN Brasil. >
No domingo, enquanto os principais líderes europeus se reuniam na Fontana di Trevi, deu entrevista ao canal italiano SkyTV24, na qual atacou seu principal rival nas próximas eleições, o petista Luiz Inácio Lula da Silva. >
Jornalistas brasileiros tentaram entrevistar o presidente quando ele saiu para caminhar pelas ruas de Roma na noite de domingo, mas foram afastados e agredidos por agentes de segurança à paisana, que não quiseram se identificar. >
"Não te devo satisfação, rapaz", respondeu ao repórter do UOL que questionou sobre sua ausência na COP26, conferência climática considerada a mais importante desde o Acordo de Paris, em 2015. >
Durante os três dias em que Bolsonaro esteve em Roma, a Secretaria de Comunicação da Presidência não respondeu a pedidos dos repórteres de que o presidente desse uma entrevista coletiva organizada, nem ao menos de que desse uma declaração sobre suas impressões das reuniões em que representou o Brasil. >
A dificuldade de comunicação dos brasileiros destoa da de outras delegações. "Claro que há sempre uma tensão entre os jornalistas e a assessoria sobre quanto acesso os repórteres conseguem ter a ele. Jornalistas sempre querem mais. Mas a assessoria entende que precisa providenciar ao menos um acesso razoável a ele e a alguns de seus ministros", diz o canadense McGregor. >
Segundo ele, há assessores encarregados de facilitar o acesso dos jornalistas ao premiê. Eles fornecem a agenda detalhada com dois dias de antecedência e fazem resumos das reuniões e conversas, embora muitos sejam considerados pelo repórter como "decepcionantes pela falta de detalhes". "Nessas horas, comparamos com o resumo feito pela equipe do líder com quem ele se encontrou." >
O francês De Galzain afirma que, caso falte alguma informação sobre agenda ou posicionamento de Macron, seus assessores sempre respondem a pedidos de esclarecimento. "E fazem isso com rapidez." >
No caso brasileiro, ao menos seis perguntas do jornal Folha de S.Paulo feitas diretamente à Secom --de detalhes da agenda a pronunciamentos sobre questões específicas-- foram ignoradas e telefonemas não foram atendidos. >
Uma questão sobre quem eram os agentes que faziam a segurança do presidente quando jornalistas foram agredidos e sobre se o governo gostaria de se pronunciar sobre isso está sem resposta desde as 20h28 deste domingo.>
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