Publicado em 1 de janeiro de 2025 às 16:44
"Posso te dar alguns conselhos sobre ursos polares?", pergunta Tee, uma autoconfiante adolescente de 13 anos de idade que conhecemos durante uma visita a um colégio em Churchill, no Canadá.>
"Se um urso chegar a essa distância de você", ela diz, indicando um espaço de cerca de 30 cm com as mãos, "dê um soco no nariz dele". >
"Ursos polares têm um nariz muito sensível - ele vai sair correndo.">
Tee nunca precisou colocar esse conselho em prática. Mas, para quem vive nessa região — e convive com o maior predador terrestre do planeta —, saber se proteger de ursos polares faz parte da vida cotidiana.>
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Placas em lojas e cafés da cidade lembram a população de que é preciso estar atenta aos ursos. >
Meu cartaz favorito diz o seguinte: "Se um urso polar te atacar, você deve lutar.">
Correr de um urso polar é perigoso. O instinto do urso é perseguir a presa, e ursos polares pode correr a 40 km por hora.>
Conselhos básicos: esteja sempre vigilante e consciente dos seus arredores. Não ande sozinho à noite.>
Churchill é conhecida como a capital mundial dos ursos polares. Todos os anos, a porção oeste da Baía de Hudson, onde a cidade está situada, derrete, empurrando os ursos para a costa.>
Mais tarde, no outono, quando as águas voltam a se congelar, centenas de ursos se reúnem no local, esperando.>
"Temos rios de água doce desaguando nessa área e água gelada vindo do Ártico", explica Alysa McCall, da ONG Polar Bear International (PBI). >
"Então, o congelamento começa aqui primeiro. E para ursos polares, o mar congelado significa acesso às focas, sua principal presa. Provavelmente, estão loucos para comer uma farta refeição de gordura de foca. Em terra, durante o verão, comeram muito pouco.">
Existem 20 subpopulações de ursos polares no Ártico. Esta, situada mais ao sul do continente, é a mais estudada.>
"Tínhamos cerca de 1.200 ursos polares na década de 1980 e perdemos mais da metade deles", diz Alysa.>
O declínio está associado ao período em que a baía permanece descongelada — cada vez mais longo à medida que o clima aquece.>
"Hoje, os ursos passam um mês a mais em terra por aqui do que seus pais passavam", explica Alysa. "Isso coloca pressão sobre as mães. [Com menos alimento] É mais difícil continuar grávida e sustentar os bebês.">
Com sua sobrevivência ameaçada, os ursos atraem especialistas em conservação e milhares de turistas para Churchill anualmente.>
Nos juntamos a um grupo da PBI para procurar ursos na tundra subártica, a poucos quilômetros de distância da cidade.>
Após avistarmos alguns ursos à distância, um encontro me deixa de coração acelerado: um urso jovem se aproxima e investiga nosso veículo, que se move lentamente. >
Ele cheira um dos veículos, dá um salto e planta duas patas gigantes na lateral do buggy. Depois, casualmente coloca as quatro patas de volta no chão e olha brevemente para mim.>
É profundamente desconcertante olhar a cara de um animal que é simultaneamente adorável e potencialmente letal.>
"Você viu como ele cheirou e até lambeu o veículo, usando todos os sentidos para investigar", diz Geoff York, da PBI. >
Ele trabalha no Ártico há mais de três décadas.>
Geoff e equipe aproveitam a presença dos ursos para testar novas tecnologias para detectar a presença dos animais e proteger pessoas.>
Atualmente, a PBI está ajustando um sistema detector baseado em radares.>
A plataforma experimental, uma antena alta com detectores que varrem o terreno em 360 graus de amplitude, está instalada no telhado de um alojamento no meio da tundra, perto de Churchill.>
"[O radar] usa inteligência artificial, então podemos ensiná-lo o que é um urso polar", explica Geoff. "Ele funciona 24 horas por dia, durante a noite e em condições de baixa visibilidade.">
Ataques por ursos polares são raros, mas são um risco para pessoas que vivem e trabalham em regiões isoladas do Ártico.>
Em 2024, um trabalhador canadense foi morto por dois ursos polares perto de um posto de defesa remoto no território de Nunavut, no norte do Canadá.>
Coexistir com esses predadores que dependem do gelo num período em que o clima do Ártico muda mais rapidamente do que em qualquer outro momento na história representa um desafio paradoxal para Churchill.>
A longo prazo, a população de ursos polares está em declínio. Mas, a curto prazo, os ursos estão passando mais tempo do ano na costa, aumentando a probabilidade de contato entre ursos e pessoas.>
Proteger a comunidade é tarefa da equipe de alerta sobre ursos polares — guardas treinados que patrulham Churchill diariamente.>
Nós pegamos uma carona com o guarda Ian Van Nest, que está à procura de um urso teimoso que ele e seus colegas tentaram afugentar mais cedo naquele dia.>
"Ele deu meia volta e voltou na direção de Churchill. Não parece estar querendo ir embora", diz Ian>
Para ursos que insistem em rondar os arredores da cidade, a equipe pode usar uma armadilha: um contêiner tubular contendo carne de foca como isca. A armadilha tem uma porta que é ativada e se fecha quando o urso entra.>
Uma vez capturado, o urso fica confinado por 30 dias, em um alojamento específico para isso.>
Sem colocar a vida do animal em risco, esse período de confinamento tem como objetivo ensinar ao urso que não é uma coisa positiva vir para a cidade procurar comida — sem, no entanto, colocar a vida do animal em risco.>
Depois, os ursos são levados — em um trailer ou, ocasionalmente, de helicóptero — e soltos em algum ponto da baía, longe de pessoas.>
Cyril Fredlund, que trabalha no novo observatório científico de Churchill, lembra-se da última vez em que uma pessoa foi morta por um urso polar na cidade, em 1983.>
"Era um homem sem teto. Ele estava num prédio abandonado, à noite. Tinha um urso jovem lá dentro, também. Ele derrubou o homem com a pata, como se ele fosse uma foca.">
Veio gente ajudar, lembra Cyril, mas não conseguiam afastar o urso do homem.>
"É como se ele estivesse tomando conta da sua refeição.">
O programa de alerta sobre ursos polares foi criado nessa época. Desde então, ninguém na região foi morto por um urso polar.>
Hoje, Cyril é um dos técnicos do Observatório Marinho de Churchill. Um dos objetivos do observatório é tentar entender como aquele meio ambiente vai reagir às mudanças climáticas.>
Sob o telhado móvel do prédio estão duas piscinas gigantes cheias de água trazida da Baía de Hudson.>
"Podemos fazer vários tipos de estudos experimentais para analisar mudanças no Ártico", diz um dos cientistas, professor Feiyue Wang.>
Uma das consequências de uma Baía de Hudson menos gelada seria um período mais longo de funcionamento do porto, que atualmente fica fechado durante nove meses por ano.>
Os estudos no observatório estão se preparando para melhorar a precisão da previsão do gelo marinho. A pesquisa também examinará os riscos associados à expansão do porto. >
Uma das primeiras investigações envolve o derramamento de óleo experimental — os cientistas planejam liberar óleo em uma das piscinas, testar técnicas de limpeza e medir a rapidez com que o óleo se degrada na água fria.>
Para o prefeito de Churchill, Mike Spence, entender como planejar o futuro, especialmente quando se trata de transportar mercadorias para dentro e para fora de Churchill, é vital para o futuro da cidade em um mundo em aquecimento.>
"Já estamos pensando em estender a temporada", diz ele, apontando para o porto, que deixou de funcionar durante o inverno. >
"Daqui a dez anos, isso aqui estará movimentado.">
A mudança climática é um grande desafio para a capital mundial dos ursos polares, mas o prefeito está otimista.>
"Nós temos uma grande cidade e uma comunidade maravilhosa", diz. "E a temporada de verão [quando turistas vêm ver as baleias beluga na baía] está crescendo.">
"Todos nós estamos sendo desafiados pela mudança climática", diz o prefeito. "Isso quer dizer que você deixa de existir? Não. Você se adapta. Você descobre como tirar vantagem dela.">
Se para Mike Spence o futuro de Churchill parece ensolarado, para os ursos polares a previsão não é tão boa.>
Pela janela da escola, Tee e seus amigos contemplam a Baía de Hudson. Os veículos da equipe de alerta para ursos polares estão reunidos, tentando afugentar um urso para longe da cidade.>
"Se a mudança climática continuar", reflete Charlie, colega de Tee, "os ursos talvez parem de vir aqui".>
E como é rotina na capital mundial dos ursos polares, a professora se aproxima para ter certeza de que alguém está vindo buscar as criancas. Elas não podem andar para casa sozinhas.>
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