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Terezinha Guilhermina

'Não enxergar nunca foi desculpa para eu não fazer bem-feito'

No Estado para uma palestra, a cega mais rápida do mundo relembra infância difícil e volta por cima com o esporte

Publicado em 23 de Março de 2018 às 18:49

Redação de A Gazeta

Publicado em 

23 mar 2018 às 18:49
A vida já começou difícil para Terezinha Guilhermina logo nos primeiros minutos de vida. Os pais, primos de primeiro grau, eram de origem humilde e estavam no centro de Betim (MG) puxando carroça quando a mãe, Terezinha, sentiu as contrações. O jeito foi Pedro acomodar a esposa em cima dos sacos de ração de animal do veículo. Para cortar o cordão umbilical, usou uma faca de cortar pão: chegava ao mundo um neném que, anos depois, se tornaria a atleta cega mais rápida do mundo.
Hoje com 39 anos, além de ser um destaque nas pistas, a velocista campeã olímpica é técnica em Administração, formada em Psicologia, faz pós-graduação de Saúde Pública e roda o Brasil com palestras motivacionais. Quer mostrar que sua retinose pigmentar, doença que a fez perder toda a visão gradualmente, não a impede de conhecer as maravilhas que a vida lhe proporciona.
Há quanto tempo faz palestras?
Já tem alguns anos, agora estou me especializando mais, depois de ter feito o curso de Psicologia. Tenho uma história de vida bastante rica, muitas acabam se identificando com as situações fora do contexto do esporte. Gosto de fazer, aprendi a realizar sonhos e gosto de ensinar as pessoas. Riem bastante, é gostoso, me sinto bem. Meu desejo é que em algum momento eu esteja do outro lado e as pessoas possam contar suas histórias de sucesso.
Quais assuntos aborda para tentar tocar essas pessoas?
A questão das crises que já tive até ter tido a oportunidade de encontrar um limão e fazer uma limonada. É a oportunidade que a vida dá para todo mundo, independente de como e quem é a pessoa. O fato de não enxergar e ter todos os problemas que já tive na infância, alguém vai se identificar ou ver que meu problema talvez seja maior ou mais visível. E eu optei por fazer a limonada. Tem gente que gosta de chupar o limão (risos).
Além de você, alguns irmãos seus também têm problemas de visão, né?
Meus pais são primos de primeiro grau, meus avós também foram primos. Somos 12 irmãos e cinco são deficientes visuais com retinose pigmentar. Desde pequena eu sempre fui cobrada pelos meus pais para fazer as coisas direito, independente de estar ou não enxergando. Não enxergar nunca foi desculpa para eu não fazer bem feito. O fato de ter me tornado atleta foi porque aprendi isso na infância. Se não lavasse vasilha bem lavada ou não limpasse o chão direito apanhava igual aos outros. Esse foi um dos motivos que não me sinto coitada. Entre a mocinha e o vilão, fico com o papel do vilão, pelo menos ele é mais ágil (risos).
Como foi a sua infância? Passou por muitas dificuldades?
 Já sou pirracenta desde antes de nascer (risos). Minha mãe já tinha ido para o hospital e o médico mandou ela ir embora porque eu estava fazendo pirraça, não queria sair. Minha mãe foi no centro da cidade, meu pai era carroceiro e na volta para casa ela se sentiu mal. Foi para trás da carroça, me deitou em cima dos sacos de ração de animal e eu nasci. Meu pai cortou meu cordão umbilical com uma faca de pão. Sou uma sobrevivente. Eu já nasci meio apressada, não esperei, por isso virei velocista também (risos). Não gosto de esperar, não tenho muita paciência para isso. A minha família sempre foi bem simples. Meu pai nessa época cuidava de uma casa na fazenda e me ensinou bastante que dava para fazer tudo, nunca me impediu de tentar. Isso faz dele o meu herói. Ele via todos os obstáculos e nunca me impediu de levar um tombo. E também nunca me deixou presa. Eu viajei o mundo todo incentivada por ele. Ele nunca teve dúvida que eu conseguiria.
Quando foi o seu primeiro contato com o esporte?
Até os 13, 14 anos eu fiz natação convencional em Betim (MG). Descobri que minha retinose não tinha cura aos 17 e soube de um projeto da prefeitura que teria atletismo e natação para atletas com deficiência. Como eu já tinha um maiô, escolhi a natação. Mas voltei para casa e falei com minha irmã que queria correr, porque poderia correr em qualquer lugar. Minha irmã, que era empregada doméstica, me deu o par de tênis e comecei a correr. Era o único tênis que ela tinha. Eu comecei a correr na rua. Enxergava pouco e desviava de sombra, saco de lixo achando que era cachorro. Uma vez trombei em um menino de bicicleta, que disse: “Você está doida?”, aí respondi: “Não, estou cega” (risos). O fato de não ter o globo ocular com defeito faz parecer que estou vendo tudo. Fica só na aparência.
Foto: Patrícia Santos/CPB

Em Londres-2012, o guia de Terezinha caiu e a dupla chegou em último nos 400m

Em Londres-2012, o seu guia Guilherme Santana caiu na prova dos 400m e você acabou caindo também para se solidarizar. No dia seguinte, você surgiu toda estilosa e foi ouro nos 100 metros, além de quebrar um recorde. Foi um dos momentos mais marcantes da sua carreira?
Falo que o tombo dos 400m em Londres foi mais famoso que todas as minhas medalhas. Foi muito especial para mim. Eu também não tinha opção porque 80 mil pessoas estavam gritando, eu não sabia onde estava, então me joguei no chão. Naquela noite eu o ajudei a se levantar, completamos a prova. Fomos jantar com os russos, ninguém podia ter dó da gente, a gente não entendia nada (risos) e não tocamos no assunto. Dei todo o apoio e no dia seguinte eu me montei toda, coloquei todas as presilhas de cabelo, tatuagens (temporárias), porque queria que as pessoas falassem: ou ela está muito bem ou está doida! Foi a prova mais significativa: conquistei o título de atleta cega mais rápida do mundo, com recorde mundial, depois de ter feito três provas, entrado na pista sete vezes, cansada, com o agravante de ter tomado tombo. Esse estereótipo que as pessoas antecipam o problema antes dele vir, essa é vantagem de não enxergar: só encontra o problema quando tromba nele. Ele nunca vem antes. Vocês que enxergam veem ele a 100 metros, 200 metros. Então não tenho que me preparar. Fui para o Guinness Book com o resultado dos 100 metros. Eu me diverti e me divirto correndo. Treino muito para me divertir nas provas.
Você solicitou uma reclassificação no atletismo porque fez uma cirurgia. Como será?
Além da retinose, eu desenvolvi catarata. Vejo luzes, claridade, mas não vejo o rosto todo de uma pessoa, tem que escanear. No fim do ano passado, eu fiz a cirurgia da catarata e agora vejo linhas no chão. Eu solicitei uma reclassificação para eu correr sozinha. Eu vou fazer a reclassificação visual para o atletismo em abril. Quero torcida, desafio é meu prato favorito. Quando não tem, eu invento. Quero correr sem guia, não vejo mais nada além da linha. O que importa é a linha. Vou ser avaliada por uma banca médica. Eu competia em uma classe que todo mundo usava venda, porque viam uma coisa ou outra. Quero uma classe sem venda, mas não sei se meu campo visual me permite isso.
Foto: Fernando Madeira

No dia seguinte da queda, Terezinha se enfeitou e foi campeã nos 100m

Você ainda tem objetivos no mundo do esporte?
Com certeza. Ano passado comecei algo que nunca tinha feito, salto em distância, terminei o ano em segundo lugar no ranking mundial. Eu me apaixonei, é tudo novo, estou aprendendo ainda, é novidade pra mim. Estou adorando. Ainda não me sinto boa o suficiente no atletismo. Quando me sentir boa e conquistar tudo, eu mudo de esporte. Eu prefiro desejar tudo e conquistar a metade do que desejar nada e conquistar tudo.
Você é uma mulher forte, já passou por maus bocados e é um exemplo de superação. Qual a sua opinião sobre toda a repercussão com a morte da Marielle Franco?
A maneira como ela morreu é o que faz a gente pensar no Brasil. Há uma forte movimentação para que a gente se cale, para que a minoria não exista, não reclame, não questione. Os poderosos falam muito alto e quando alguém tenta falar e essa voz pode ser ouvida, ela muitas vezes é silenciada pela morte. É extremamente triste, eles são poderosos, mas não são fortes o suficiente para aguentar questionamentos. Eu aprendi uma coisa: quando as suas crenças são verdadeiras, você não tem medo de ser questionado. O fato de ela ter sido assassinada e como foi traz essa realidade. É um falso poder, mas que pode ser abalado, sim, pela minoria, por quem se propor a questionar por quem tiver uma opinião diferente. Infelizmente ela não é a única que morreu nessas condições e nem vai ser a última. Não devemos nos calar. Somos minoria, mas temos voz e vamos continuar existindo.

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