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Reportagem especial

Lugar de Toda Pobreza: equipe foi em busca de "outra Vitória"

O diretor Carlos Henrique Gobbi e o cinegrafista José Lúcio Campos contam os bastidores do documentário

Sullivan Silva

Publicado em 09 de Dezembro de 2018 às 08:29

Publicado em

09 dez 2018 às 08:29
“Foi o documentário que mostrou a cidade partida. O outro lado que a cidade não conhecia.” É assim que o roteirista Carlos Henrique Gobbi define o especial de televisão “Lugar de toda pobreza”, que retratou a realidade dos catadores de materiais recicláveis da região da Grande São Pedro, em Vitória. O filme foi exibido em 21 de maio de 1983, às 10h de um domingo, na TV Gazeta.
A produção do documentário surgiu seis meses antes de sua exibição e envolveu diversos profissionais da Rede Gazeta. O diretor do filme, Amylton de Almeida, morto há mais de 20 anos, era repórter no Caderno 2 de A GAZETA, já o roteirista Carlos Henrique Gobbi, era repórter de Economia e o cinegrafista José Lúcio Campos trabalhava na TV Gazeta.
Gobbi explica que a ideia do projeto surgiu quando o então diretor técnico da Rede Gazeta, Nelson Bonfante, que morava na torre da Fonte Grande, comentou com Amylton sobre as habitações de madeira e o despejo do lixo na Região de São Pedro. Amylton convidou Gobbi e eles foram direto para o local conferir a situação. “Ficamos boquiabertos, estupefatos com o que estava acontecendo ali”, lembra.
A condutora do documentário é Maria Leda dos Santos, presidente da Associação de Catadores. Dona Leda apresentou a realidade da falta de moradias e os catadores de lixo hospitalar. Uma líder muito querida por todos.
“Ela foi descoberta depois de 10 dias de gravação e a frase ‘aqui é o lugar de toda pobreza’ é dela. E quando ela falou essa frase, começamos a segui-la e mudamos o sentido da filmagem”, conta José Lúcio Campos. “Tinham outras figuras, mas ela era a líder daquele espaço. Ela tinha um poder na voz fantástico”, complementa Gobbi.
Entre as cenas que mais os marcaram está a chegada do caminhão do mercadinho com produtos descartados principalmente por supermercados. Para captar as expressões de euforia pela chegada dos mantimentos toda engenharia de gravação foi bastante pensada.
“No mercadinho, estávamos escondidos em uma janela. As cenas que estão ali não são armadas. Para filmar o mercadinho a gente montou também uma grua da escelsa. A gente subiu, gravou e quando terminamos o caminhão atolou e tombou. Não podíamos interferir na realidade”, explica José Lúcio.
O filme teve que ser aprovado para exibição pela Superintendência da Polícia Federal no Espírito Santo. Não teve nenhum corte da censura da época, entretanto, a autorização foi apenas para ser exibido no Estado. Entretanto, o documentário teve repercussão nacional e internacional. “Conseguimos fazer ‘tráfico’ das fitas. Mandamos algumas para a Itália e a Comissão dos Direitos Humanos acabou divulgando também”, relata Gobbi.
AMYLTON
Os meses de trabalho em São Pedro fizeram com que Amylton de Almeida criasse laços de amizade para toda a vida. Ele faleceu aos 49 anos, em outubro de 1995, e continua sendo lembrado pelos moradores. Após a exibição do documentário, publicou diversas reportagens sobre a região. Além de jornalista, foi escritor, dramaturgo e crítico de cinema brasileiro.
“Amylton não foi só um colega de trabalho, abriu portas para mim ao me convidar para fazer esse trabalho. Em 1983 eu tinha quatro anos de formado, tinha 25 anos, e ele foi um professor para mim. Aprendi a ver com a sensibilidade que ele tinha no olhar”, descreve Gobbi.

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