O empresário Antônio José Felisberto da Silva Filho, de 37 anos, conheceu o mundo das drogas ainda adolescente. Aos 13 anos, usava maconha, já aos 20, a cocaína passou a fazer parte da rotina e, logo depois, veio o crack. Nos últimos anos o consumo ficou intenso e ele chegou a gastar R$ 300 por dia. Associado a isso, veio a falta de vontade de realizar as atividades diárias, como o surfe.
Para tentar sair do vício passou por 12 internações, nenhuma conseguiu livrá-lo da vontade de consumir droga, o que causava as recaídas. Até que ele conheceu a ibogaína, substância extraída da planta alucinógena iboga, de origem africana. Ela tem sido usada como um tratamento alternativo para usuários de crack, cocaína, maconha e álcool.
“A ibogaína bloqueou minha vontade de usar droga. Quando sinto cheiro de maconha, por exemplo, fico pensando porque fiz isso. As drogas atrapalharam minha vida”, disse o empresário, que mora em Aracruz, no Norte do Estado.
Tonhão, como é conhecido, é uma das 45 pessoas do Espírito Santo que realizaram o tratamento de reabilitação no interior de São Paulo, no Instituto Brasileiro de Terapias Alternativas (IBTA) desde 2001. Neste ano, foram oito pacientes.
O tratamento ganhou holofotes após o jornalista Leo Dias, 43, se internar na mesma clínica que os capixabas, em setembro deste ano. Ele assumiu publicamente fazer o uso da cocaína desde 2001.
COM FUNCIONA
O médico clínico e pesquisador da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), Bruno Rasmussen Chaves, introduziu o tratamento com ibogaína no Brasil em 1997. Ele explica que a substância tem duas maneiras de ação.
Ela produz uma grande quantidade do hormônio GDNF, que estimula a criação de conexões neuronais. Concomitantemente a isso, ocorre um reequilíbrio dos neurotransmissores, equilibrando a serotonina e dopamina no cérebro, hormônios do prazer. Como o paciente se sente bem, reduz a fissura dele e, assim, perde a vontade de usar drogas.
Outra ação sob efeito da ibogaína é ativar o sono REM, o que significa estimular um estado de sonho enquanto está acordado. “A pessoa entra num estado como se estivesse sonhando acordada, tendo compreensões, percepções, lembranças do passado por 12 horas. Tudo isso facilita o acesso ao inconsciente e auxilia no tratamento psicoterápico.”
Ele diz que o uso da ibogaína é seguro sendo feito de forma adequada, mas é preciso que o paciente esteja em abstinência de 20 a 30 dias antes para que os efeitos colaterais sejam reduzidos. Resquícios da droga no organismo associados à ibogaína podem acelerar ou diminuir os batimentos cardíacos, por exemplo. É necessária a internação e a recomendação é que o tratamento seja feito em casos mais graves.
O diretor e terapeuta do IBTA, Rogério Souza, relatou que a ibogaína é utilizada em pessoas que aceitaram a dependência. É contraindicada para quem tem quadros psicóticos, que usam alguns remédios, como antidepressivos, têm problemas cardiovasculares e no fígado, pois pode agravar o quadro.
Na clínica do IBTA, o tratamento dura cinco dias, começa na segunda-feira e termina na sexta, onde todos os dias é administrado ao paciente uma dosagem. Na terça-feira, é dada a “dosagem reset”, com maior quantidade, que faz a pessoa sonhar acordada e realiza a quebra da dependência. O custo, em média, é de R$ 7,5 mil.
“É uma experiência de reconstrução química e mudanças de paradigmas, devolvendo ao paciente e sua família a possibilidade de reescrever, de forma mais assertiva, a história de sua vida. Isso ajuda a facilitar o fechamento de conflitos emocionais não resolvidos.”
A pesquisa realizada na Unifesp mostrou que a ibogaína pode interromper a dependência em 72% dos casos. O estudo envolveu 75 dependentes de várias drogas. “Conseguimos constatar que a substância é eficaz contra o vício. O laboratório no Canadá, que fabrica a substância, ainda não apresentou todas as pesquisas à Anvisa”, finaliza Bruno.
Apesar dos relatos de sucesso, o consumo no Brasil ainda é controverso. Especialistas dizem que ainda se sabe pouco sobre a substância e que não é possível fazer alegações sobre sua eficácia. “Além disso, a pessoa sem estabilidade mental tem chances de desenvolver uma psicose ao ingerir plantas alucinógenas”, diz Fausto Amarante, vice-presidente da Associação Psiquiátrica do Espírito Santo (Apes).
Anvisa: não foram apresentados dados sobre eficácia
A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) explicou que a ibogaína não é regulamentada no país. Isso porque não houve nenhuma análise apresentada ao órgão que comprove a segurança e eficácia da substância.
“Não nos foram apresentados dados de publicações técnico-científicas ou estudos não-clínicos e clínicos que suportem a segurança e eficácia dessa substância ou do derivado vegetal de iboga. Portanto, não é possível conhecer quais os benefícios e nem quais os efeitos colaterais que pode causar”, explica em nota.
A comercialização para finalidades terapêuticas é proibida no Brasil, mas existem portarias específicas da Anvisa que permitem a importação do medicamento para uso exclusivo, em países que é legalizada. Para a importação basta estar de posse da receita médica e apresentá-la para a autoridade sanitária no local de entrada.
A vice-coordenadora da Comissão de Dependência química da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), Carla Bicca, explicou que a ibogaína é um tratamento experimental e que ainda não há segurança do resultado. “Ainda se sabe pouco sobre o tratamento psicoterápico. Ele diminui a fissura da droga porque age na área de neurotransmissores, mas não mantém isso por muito tempo”, contou.
Ela explica que a ABP recomenda o tratamento tradicional por ter evidência científica. Mas não é contra o tratamento alternativo desde que seja associado a um tratamento tradicional, que pode ser ambulatorial ou com internação.
O ideal, segundo ela, é que o dependente procure por interesse próprio o tratamento, mas na maioria dos casos as pessoas são conduzidas porque não reconhecem o vício. “Normalmente em pessoas que não se acham dependente, uma parte do tratamento é fazer a pessoa entender o problema que tem”, finaliza.
ANÁLISE
Não há comprovação
Os dependentes químicos podem recorrer a diversos tratamentos, existem medicamentos que ocupam os receptores neuronais originalmente ocupados pela droga, com isto reduzem a vontade de usá-la. Em muitos casos a internação é importante porque a pessoa não consegue superar a crise de abstinência sozinha. Ela ocorre voluntariamente ou de forma compulsória, quando a pessoa está se autodestruindo e não aceita a dependência. Os tratamentos alternativos podem ser complementares aos tradicionais, mas não os substituem. Não existem estudos que comprovem a efetividade da ibogaína, além disso, a pessoa sem estabilidade mental tem chances de desenvolver uma psicose ao ingerir plantas alucinógenas.
Fausto Amarantevice-presidente da Associação Psiquiátrica do Espírito Santo (Apes)
Internação só em último caso
O tratamento contra a dependência química deve ser baseado num tripé: corpo, mente e espírito. A droga além de comprometer o psicológico, também traz prejuízos para o corpo, podendo apresentar doenças do coração e do fígado, por exemplo. Existem muitos tratamentos para a dependência química. A internação deve ocorrer em casos extremos. Os dependentes que aceitam a internação de forma voluntária têm o resultado positivo em 70% dos casos. Mas quando ela vai de forma involuntária não chega nem a 10%. Há relatos de melhoras de pacientes com a ibogaína, mas ainda se sabe pouco. Além disso, o tratamento é caro e não tem uma validação científica que sustenta o resultado. Eu recomendaria em casos que a pessoa tivesse experimentado tudo e nada resolvesse.
João Chequer especialista em dependência química