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  • Guerra dos morros: o histórico de conflitos entre traficantes de Vitória
Dono da Piedade preso: João Paulo estava com a irmã, Elisângela Ferreira Dias, que tinha mandado de prisão em aberto Ricardo Medeiros
Reportagem especial

Guerra dos morros: o histórico de conflitos entre traficantes de Vitória

Em todos os confrontos está presente o envolvimento das facções que controlam o Complexo da Penha, que abrange, além do próprio Bairro da Penha, Gurigica, Bonfim, Consolação, São Benedito e Itararé

Laila Magesk

Editora-adjunta

Gazeta Online

Publicado em 05 de Setembro de 2018 às 09:03

Publicado em

05 set 2018 às 09:03
O ano de 2018 é marcado até o momento por uma série de conflitos nos morros de Vitória. Em todos eles está presente o envolvimento das facções que controlam o Complexo da Penha, que abrange, além do próprio Bairro da Penha, Gurigica, Bonfim, Consolação, São Benedito e Itararé. Somente nos conflitos pelo controle do Morro da Piedade foram quatro mortos, com pelo menos duas vítimas inocentes. Nas últimas semanas, tiroteios aterrorizaram moradores do Morro do Alagoano. A Polícia Civil também investiga se o assassinato na Ilha do Frade, nesta segunda (03), tem relação com a execução de Hiarlley Pedrosa Poloni, na noite do mesmo dia, em Consolação.
Um homicídio em Viana também teve ligação com a disputa de venda de entorpecentes entre facções de Vitória. O Morro da Conquista, na região da Grande São Pedro, só não foi alvo de ação dos criminosos ligados ao complexo por conta de uma denúncia anônima, que resultou em operação policial e evitou que os conflitos acontecessem.
MORRO DA PIEDADE
Dono da Piedade preso: João Paulo estava com a irmã, Elisângela Ferreira Dias, que tinha mandado de prisão em aberto Crédito: Ricardo Medeiros
Tudo começou no dia 25 de março deste ano, quando bandidos armados invadiram o morro, procurando pelo chefe do tráfico de drogas no local. No caminho, tentando obter informações, acabaram entrando na residência dos irmãos Damião Marcos Reis, 22, e Ruan Reis, 19, que foram brutalmente assassinados a tiros, por não saberem o paradeiro do rival. Eles eram inocentes e não tinham nenhum tipo de envolvimento com a venda de drogas.
No dia 28 de maio o jovem Lucas Teixeira Verli, de 19 anos, foi morto com mais de 15 tiros durante outro ataque ao Morro da Piedade. Um bando formado por cerca de 20 pessoas encapuzadas entrou no local atirando em quem estivesse pela frente. No total, mais de 60 cápsulas de munição foram recolhidas pela polícia.
No dia 10 de junho, os criminosos invadiram a comunidade mais uma vez, para causar terror entre os moradores. O saldo foi a morte de Walace de Jesus Santana, apontado como braço direito do "dono" do morro, João Paulo Ferreira Dias, o JP. Após o homicídio, a família dele foi expulsa da Piedade e teve a casa incendiada.
No dia 12 de julho a polícia prendeu JP e a irmã, Elisângela Ferreira Dias, 25, em Viana. Em 17 de julho, a Polícia Civil ainda anunciou a prisão de vários membros da quadrilha que tentava tomar o tráfico de drogas da família Ferreira Dias. Os acusados eram Alan Rosário de Oliveira, o pai dele, Aladir de Oliveira Filho, Rafael Batista Lemos, Renato Correia Ramos, o irmão dele, Leandro Correia Ramos, Flávio Sampaio, Gustavo Batista Lemos, Bruna Lemos Souza, prima dele, e Célia Nilza Wanzeller. Segundo as investigações, todo o poderio bélico do grupo foi fornecido pelos criminosos do Complexo da Penha.
MORRO DO ALAGOANO
Imagem com armas e o número 182, que faz referência ao Morro do Alagoano Crédito: Gazeta Online
Em agosto deste ano, criminosos ligados ao Complexo da Penha iniciaram uma sequência de ataques ao Morro do Alagoano, na região da Grande Santo Antônio, na tentativa de tomar o controle do tráfico de drogas do local. Moradores relataram trocas de tiros intensas durante quase uma semana. Em uma das ações, a Polícia Militar chegou a entrar na comunidade e um criminoso foi baleado durante confronto. Na tentativa de não deixar a situação na Piedade se repetir, a Secretaria de Segurança do Estado (Sesp), aumentou o número de policiais militares no local, a chamada saturação, e inibiu os ataques frequentes. Até mesmo uma base da PM foi cogitada no campo do morro, mas até o momento a presença dos militares na comunidade ficou somente na promessa.
No caso dos bairros Alagoano e Caratoíra, uma das investidas parte dos traficantes do Complexo da Penha, conjunto de bairros no entorno do Bairro da Penha. É lá que está instalado o PCV (Primeiro Comando de Vitória). O grupo tem relação com a facção Primeiro Comando da Capital (PCC), de São Paulo, segundo o Ministério Público. No outro lado da disputa está um grupo de traficantes rejeitados, expulsos do Alagoano por Gu, líder do tráfico no morro que depois foi assassinado. Eles se uniram a bandidos vizinhos do morros do Cabral, do Quadro e de Bela Vista.
MORRO DA CONQUISTA
Criminosos do Complexo da Penha, em mais uma tentativa de expandir o território na Capital, tentaram invadir o Morro da Conquista, na região da Grande São Pedro, em Vitória. Uma operação da Polícia Militar chegou a ser realizada no local, na última quinta-feira, após denúncias de que homens armados, que teriam ligação com o Complexo da Penha, estariam presentes na Rua Felicidade. Diversas viaturas foram deslocadas para a região e o helicóptero da PM sobrevoou o local, mas nenhum suspeito foi detido, ou armamento apreendido. A Polícia Militar acredita que, caso a denúncia anônima não tivesse sido realizada, um conflito poderia ter sido iniciado no morro.
COMPLEXO DA PENHA
Guerra do tráfico em morros de Vitória Crédito: Vitor Jubini
O conjunto de comunidades formado por Bairro da Penha, Gurigica, Consolação, Bonfim, Itararé e São Benedito é liderado por duas facções. O Primeiro Comando de Vitória (PCV), é liderado por Fernando Moraes Pereira Pimenta, o Marujo. Por estar solto (em liberdade), cabe a ele executar as ordens que vêm do Presídio de Segurança Máxima II, onde está detida a principal liderança de sua organização criminosa: Carlos Alberto Furtado da Silva, o Beto. O braço armado da facção é o Trem-Bala, responsável pela frente armada do grupo.
Os dois contam ainda com o apoio de outras lideranças que comandam o tráfico na Grande Vitória e que fazem parte do Conselho do PCV, como Frajola, de Terra Vermelha, Marcelinho, de Viana, e Moderninho, de Alagoano e Piedade. São os mesmos que também atuaram fortemente na disputa pela Piedade, dando apoio aos traficantes do Morro da Fonte Grande. Uma briga que acabou resultando, só este ano, na morte de quatro pessoas, inclusive de dois irmãos.
Beto e seus comparsas são ainda o braço na Grande Vitória do PCC (Primeiro Comando da Capital), uma das maiores organizações criminosas do Brasil, responsável por rebeliões, assaltos, sequestros, assassinatos e narcotráfico. No caso do Morro do Alagoano, a disputa ainda parte para o lado pessoal, visto que querem ainda vingar a morte de um amigo, assassinado sem autorização da facção.
Trata-se de Antonio Campelo Sodré, o Tucano, traficante assassinado no mês passado em um ponto de ônibus em Viana. Ele era ligado ao PCV, liderava o tráfico de Alagoano e tinha substituído outro comandante do tráfico local, o Gu, também assassinado. Ocorre que Gu, antes de morrer, expulsou do Alagoano vários pequenos traficantes, que formaram um grupo de rejeitados. Eles se uniram ao traficantes vizinhos dos morros do Cabral, do Quadro e de Bela Vista. Juntos querem agora retomar o comando do tráfico de Alagoano/Caratoíra, que está sem chefia.
ITARARÉ
Os ataques armados entre grupos de traficantes nos bairros Itararé, Santa Martha e Andorinhas, em Vitória, têm como principal fornecedor de armas e apoio logístico os criminosos que comandam o Complexo da Penha. Segundo o Ministério Público Estadual, está nas mãos dos líderes do Bonde do Trem Bala e do Primeiro Comando de Vitória (PCV), à frente do Complexo da Penha, “alimentar” essas facções com armamento para que tenham força.
Na guerra mais recente, apesar de fornecer armamento para todos os bairros, o comando do Bairro da Penha tem beneficiado a gangue de Itararé no enfrentamento contra os grupos de Andorinhas e Santa Martha, que são aliadas atualmente. Na madrugada do dia 27, tiros foram disparados na frente de uma escola: um garoto de 16 anos foi baleado e o carro de um aposentado ficou cheio de perfurações de tiros, em Itararé.
No entanto, o motivo específico que desencadeou o atual conflito entre Itararé e Andorinhas ainda não foi descoberto pelas autoridades. "São brigas em que se perdem vidas, tanto de inocentes quanto de criminosos envolvidos nessas organizações", diz o promotor de Justiça Sérgio Alves.
ANDORINHAS
Vitor Gabriel Abilio Florentino, de 14 anos, foi morto a tiros enquanto jogava bola com amigos no bairro Andorinhas Crédito: Arquivo Pessoal
Fontes da polícia ouvidas pela reportagem do Gazeta Online explicaram que o conflito na região de Andorinhas é antigo e divide-se em duas frentes: uma do grupo de traficantes de Andorinhas, com apoio dos bandidos de Santa Martha, e outra facção de Itararé, que recebe auxílio dos criminosos do Bairro da Penha. No meio desses embates estão os moradores de bem.
No dia 26 de agosto, com apenas 14 anos, o estudante Vitor Gabriel Abilio Florentino foi assassinado em uma tarde de domingo, enquanto jogava bola em uma praça do Bairro Andorinhas, em Vitória. Inocente, ele pode ter sido confundido com um traficante, segundo a polícia. Outra hipótese para a motivação do crime é a de que ele simplesmente não morava naquele bairro. Ele vivia com a mãe o padrasto em Santa Marta.
Os conflitos na região continuam e, nesta terça-feira (4), a equipe da TV Gazeta foi convidada a sair do local. 
Regiões em conflito na Capital Crédito: Infográfico|Genildo Ronchi

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