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Notícias falsas devem ficar mais sofisticadas, dizem especialistas

Eles avaliam que fenômeno da disseminação das fake news que atingiu eleição brasileira está longe de acabar

Publicado em 03/11/2018 às 17h34
Usuário confere contatos do WhatsApp: fake news foram repassadas na campanha. Crédito: Pixabay
Usuário confere contatos do WhatsApp: fake news foram repassadas na campanha. Crédito: Pixabay

A campanha eleitoral ainda não havia começado quando estudos já sinalizavam para o impacto que a disseminação de notícias falsas teria no pleito de 2018. A corrida em busca de votos engrenou e, com ela, as expectativas se confirmaram: as fake news, criadas e compartilhadas nas redes sociais, assumiram um papel protagonista da disputa. Mas agora a preocupação é com o que ainda está por vir, já que, para especialistas elas tendem a surgir em maior número e a se tornarem cada vez mais difíceis de serem identificadas.

Para o professor do Grupo de Pesquisa em Tecnologias de Comunicação e Política da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), João Guilherme Bastos dos Santos, as fake news continuarão circulando, mas a dinâmica desse processo será definida, entre outros fatores, pelos tipos de plataformas para os quais os usuários migrarão.

"O fato de as fake news terem tido um papel forte nessa eleição não significa que na próxima as pessoas estarão mais cuidadosas. Mas o que pode acontecer é o surgimento de novas plataformas. A gente já vê o Telegram aumentando de importância e ele tem uma lógica distinta", exemplificou.

Por outro lado, o pesquisador, que também é ligado ao Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Democracia Digital (INCT.DD), ressaltou que as medidas e acordos feitos pelas plataformas, especialmente as privadas, poderão dar as cartas no jogo.

"O WhatsApp, por exemplo, poderia restringir a quantidade de vezes que uma mesma mensagem é encaminhada ou poderia diminuir o limite de pessoas em grupos feitos no período eleitoral especificamente aqui no Brasil, assim como ele tem regras específicas para a Índia. Essas regras estabelecidas pelas plataformas podem mudar muito a dinâmica", avaliou.

MONITORAMENTO

Em maio deste ano, o grupo no qual João Guilherme atua passou a monitorar 90 grupos de WhatsApp de apoio a candidatos presidenciais. Inseridos em 90 grupos, os 14 pesquisadores estudaram o comportamento dos usuários para descobrir como as pessoas se organizam para viralizar conteúdos eleitorais no WhatsApp. Softwares foram utilizados para mapear o caminho da disseminação das notícias.

Ao longo de cinco meses, percebeu-se que ligados ao presidente eleito Jair Bolsonaro (PSL) tinham um alcance mais vasto e uma organização maior na disseminação de notícias falsas em comparação com os demais.

O professor pontuou outra constatação geral: "Esses grupos dificilmente pedem voto para um candidato ou para defender a pauta de um candidato. Estão mais voltados para aumento da rejeição dos oponentes e para tirar algumas pautas do debate público que prejudiquem o candidato".

SOFISTICAÇÃO

Consultor em mídias digitais e editor do projeto Comprova – que reuniu jornalistas de 24 veículos de comunicação do país, incluindo o Gazeta Online, para a checagem de informações que circularam na internet em relação aos presidenciáveis – Sérgio Lüdtke afirmou que se surpreendeu não só com o volume, mas também com a sofisticação dos fakes.

"Muitas vezes misturou-se informações verdadeiras com outras falsas, dando a entender uma terceira coisa. Eu não estou necessariamente criando boato, mas me valendo de informações verdadeiras tiradas de contexto. Isso dificulta muito o esclarecimento dos fatos", explicou.

O Comprova divulgou 146 checagens e outras 25 não foram publicadas, pois foram inconclusivas.

"O que o Comprova e todas as outras organizações de checagem fizeram foi colocar o bode na sala, chamar a atenção para o problema e alertar as pessoas de que elas devem pensar duas vezes antes de acreditar em algo. Cumprimos esse papel e alguém vai precisar continuar cumprindo, pois vamos demorar muito tempo, talvez uma geração inteira, para educar as pessoas a desconfiarem. Ainda não estamos preparados para isso", disse.

Para Lüdtke, os conhecimentos em relação às fake news devem ser levados às salas de aula. "Eu não vejo outro caminho. A escola é fundamental. Hoje, a gente já ensina interpretação de textos, livros e jornais. Precisamos expandir isso para outros tipos de texto", afirmou.

CRESCIMENTO

O pós-doutor em Comunicação e sócio diretor da AP Exata, Sergio Denicoli, avalia que neste pleito a disseminação de fake news atingiu proporções até então desconhecidas. Ele acredita que a tendência para os próximos anos é de crescimento.

"Foi uma eleição do fake. Eu acho que vai ser assim daqui pra frente. A internet vem para acabar com os intermediários na política. Como as pessoas estão muito conectadas, a tendência é esse fato prossiga", declarou.

Somente no dia do segundo turno no Espírito Santo (28 de outubro), Denicoli contabilizou que 13% de todos os perfis que citaram os então presidenciáveis Jair Bolsonaro e Fernando Haddad (PT) no Twitter eram de interferência, o que inclui robôs, perfis falsos e perfis militantes criados exclusivamente para interferir no processo eleitoral.

Ele ressalta que a fiscalização necessária para conter o avanço da desinformação é complexa, pois exige tecnologia elaborada.

"Existe uma demanda grande por isso no mercado, mas o TSE (Tribunal Superior Eleitoral) provavelmente não tem uma estrutura para isso. A velocidade da internet é maior que a da legislação. Para se fazer alteração no sistema legal demora", disse.

Combustível para polarização no pleito

Em meio ao acirramento político na disputa presidencial, o compartilhamento de notícias falsas via WhatsApp serviu de combustível para o motor da polarização. É o que defendeu David Nemer, professor da Universidade do Kentucky, Estados Unidos. Por quatro meses, ele investigou o funcionamento de grupos pró-Jair Bolsonaro (PSL) no aplicativo.

"Notícias falsas criam fronteira entre nós e eles, amigos e inimigos, gerando antagonismos. Elas circulam principalmente em grupos onde são instrumentais em assegurar que seus membros estejam certos de suas escolhas, contribuindo para inflar ainda mais cada bolha ideológica e o desinteresse pelo outro lado", disse.

Por outro lado, Nemer concluiu que os fakes tiveram influência menor sobre a decisão do voto. "Muitas pessoas já tinham decidido o voto, tanto em Haddad, Bolsonaro, branco ou nulo. O WhatsApp é a amplificação do nosso comportamento. Se antes eu só conseguia ligar para poucos amigos para tentar mudar seus votos, agora eu envio a minha mensagem para centenas."

Urnas eletrônicas usadas na eleição 2018. Crédito: Carlos Alberto Silva | GZ
Urnas eletrônicas usadas na eleição 2018. Crédito: Carlos Alberto Silva | GZ

Nem Justiça Eleitoral escapou de boatos

O compartilhamento de notícias falsas desafia também a Justiça Eleitoral, que além da tarefa de julgar os autores, também foi alvo dos boatos, especialmente no primeiro turno, quando boatos colocaram em xeque a lisura das urnas eletrônicas.

Em outubro, a presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Rosa Weber, afirmou que o órgão não tem uma "solução pronta" para a questão, mas disse que ministros auxiliares têm dado respostas prontas em processos sobre propagandas irregulares nas áreas jurisdicional e administrativa.

O presidente da comissão de mesários do Tribunal Regional Eleitoral do Estado (TRE-ES), Leonardo Prezotti, afirmou que o órgão traçará estratégias para as eleições municipais de 2020. O objetivo é elaborar campanha informativa para impedir que novos boatos sobre o processo eleitoral deixem os eleitores inseguros.

"As disputas locais também são acirradas e isso pode exigir uma atenção mais pontual. A parte administrativa da Justiça Eleitoral tem se empenhado em corrigir informações incorretas", disse Prezotti.

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