É preciso lembrar que a ascensão dos militares, em 1964, foi resultado de uma conjuntura histórica. Desde a proclamação da República, em 1889, eles influenciaram os acontecimentos políticos do país.
“Desde o golpe que gerou a República, os momentos decisivos da política tiveram participação dos militares em maior ou menor grau. Até que, em 1964, eles se acharam autossuficientes não só para promover um aquartelamento, mas para se manter no poder, como ficaram por 21 anos”, diz a historiadora Janaína Teles.
Em 1922, com a Revolta de Copacabana e o tenentismo, eles manifestaram insatisfação com a política oligárquica. Em 1930, com um golpe, impediram a posse de Júlio Prestes e levaram Getúlio Vargas ao poder. Em seguida, foram usados para denunciar um suposto plano comunista (Cohen), em 1937, e esticar o governo Getúlio, que acabou derrubado por eles mesmos, em 1945.
A sucessão ocorreu por meio da eleição presidencial considerada a primeira verdadeira democrática, inclusive com votos de mulheres. Os principais candidatos? Militares. O general Eurico Gaspar Dutra venceu o brigadeiro Eduardo Gomes.
Getúlio voltou ao poder pelo voto, em 1951, e militares também foram decisivos no desenrolar dos fatos que o levaram ao suicídio, em 1954. Dez anos depois, lá estavam os militares de novo. Frise-se: chamados por líderes e instituições importantes como Carlos Lacerda, Magalhães Pinto, imprensa, Igreja Católica e OAB. As Marchas da Família com Deus pela Liberdade ganharam as ruas. Em abril de 1964, o evento reuniu bom público em Vitória.
Antes, a ideia era “organizar” o país e devolvê-lo às eleições em 1965, o que não ocorreu. Mais tarde, em 1968, houve “o golpe dentro do golpe”. E o que veio a seguir é sabido: sepultamento da democracia, tortura, mortes, censura, cassação de opositores e fechamento do Congresso.
Para o professor da Ufes Pedro Ernesto Fagundes, o longo período que o país ficou sem tocar profundamente no assunto contribui para a circulação de “fatos alternativos”.
“A transição política do Brasil foi uma das mais longas da história. A anistia foi em 1979, mas o Brasil passou a ter uma lei que permitiu a pesquisa em antigos órgãos de repressão e a Comissão Nacional da Verdade em 2011. Não houve debate sobre como a sociedade foi atingida, não só com torturas e mortes”, disse.
HOJE EM DIA
Em 2014, as Forças Armadas admitiram tortura e mortes durante a ditadura. Até então, negavam todas as evidências. Mesmo assim, o rompimento da ordem constitucional é algo relativizado por integrantes do alto comando até hoje.
Em meio à polêmica sobre a ordem de comemoração do 31 de março, o comandante do Exército, general Edson Leal Pujol, disse que as Forças Armadas não se arrependem da ditadura.
Para Janaína Teles, o grupo busca nos dias de hoje alcançar a mesma influência política e econômica do passado. “Pelo que se apresentou até agora, trata-se de um retrocesso, pois é um governo muito voltado para a mentalidade de 64, às concepções de governo daquela época. Isso é contraproducente do ponto de vista político e democrático.”
"É um ato obscurantista"
Carlos Ranulfo Mello, Cientista político da Universidade Federal de Minas Gerais
"Comemorar a ditadura é um ato obscurantista de tentar reescrever a história, quando ela é mais do que sabida. Uma coisa que ficou marcada no Brasil é a maneira como fizemos a transição para a democracia. Ela foi tão moderada que reciclou uma direita que apoiou a ditadura. O Partido da Frente Liberal (PFL) hoje é o Democratas. Ao contrário do que houve no Chile, na Argentina, no Uruguai, aqui ficou tudo por isso mesmo, pois abriu-se uma anistia. Ainda assim acredito que hoje o Brasil é uma democracia forte e nem mesmo as declarações do presidente vão conseguir desestabilizá-la."
"Existem limites para reescrever a História"
Fernando Achiamé, historiador
"Sempre se interpreta o passado a partir do presente, ponto de vista dos historiadores. Narrativas históricas podem variar de acordo com os interesses de quem está no poder. Mas existem limites para se reescrever a História – ninguém com credibilidade afirmará que Elvis Presley continua vivo. Esses debates são positivos para ampliar o conhecimento histórico e nos aproximar da verdade. Nenhuma pessoa chama agora os episódios ocorridos há 55 anos de 'Gloriosa Revolução de 1964'. Há algum tempo, houve a revelação de documentos americanos provando a intervenção maciça da grande potência, inclusive com milhões de dólares, no sentido de fabricar aqui uma profunda comoção social. Que, de fato, levou a população e a imprensa brasileiras a apoiarem a deposição de um governo que não atendia aos interesses estratégicos dos EUA no contexto da Guerra Fria. Não mais se aceitam os argumentos de que naquela época existia o 'perigo vermelho' de se instalar no país uma ditadura sindicalista-comunista, o que justificaria o golpe de estado e a ditadura militar. Combatem-se ameaças de regimes ditatoriais de esquerda ou de direita com mais democracia, não com totalitarismos."