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Entenda a transformação

Está vendo a sola deste sapato? Era uma urna eletrônica

Após dez anos de uso, urnas eletrônicas "aposentadas" são descartadas e transformadas em outros materiais; conheça o processo

Natalia Devens

Repórter de Política

Publicado em 07 de Março de 2019 às 00:00

Publicado em

07 mar 2019 às 00:00
Sola de sapato: transformação de urna eletrônica Crédito: Divulgação
Em época de eleição, por mais que haja avanços tecnológicos, todo político sabe que vai precisar gastar "sola de sapato" – jargão político usado para as caminhadas eleitorais ou campanha corpo a corpo.
Enquanto a prática muitas vezes se reverte em votos, partes da própria urna eletrônica percorrem o caminho inverso: viram sola de sapato.
Isso é possível por meio do processo de reciclagem dos cabos de energia que ligam o terminal do eleitor ao terminal do mesário. Além dos cabos, desde as placas eletrônicas até o gabinete da urna, que é plástico, e todos os materiais, são triturados em pedaços de no máximo 2 centímetros para serem reciclados.
No final de fevereiro, a Justiça Eleitoral repassou as urnas eletrônicas antigas e outros materiais como módulos impressores, baterias, bobinas, mídias e drives para uma empresa contratada, para que ela faça o descarte e dê a destinação ecologicamente correta.
Uma empresa de Betim, em Minas Gerais, está sendo a responsável por reciclar pelo menos 95% do material. Esse trabalho não tem custos para a Justiça Eleitoral, ao contrário. A empresa paga aos cofres públicos R$ 0,88 por quilo do material destruído, como explica o coordenador de Tecnologia Eleitoral do TSE, Rafael Azevedo.
Esse processo deve nos fazer arrecadar R$ 1,32 milhão, mas o objetivo não é lucrar. É não termos o gasto com toda a logística de recolhimento, armazenamento e mão de obra para descarte. Uma urna antiga precisa passar pela descaracterização de todas as suas partes, para que nenhuma delas, como um teclado, por exemplo, possa ser encontrado fora do domínio da Justiça Eleitoral
Rafael Azevedo, coordenador de Tecnologia Eleitoral do TSE
Urna eletrônica vira sola de sapato Crédito: Divulgação/TSE
Ele acrescenta que as urnas eletrônicas descartadas agora são do modelo 2004, e já não eram mais utilizadas desde as eleições 2014, pois a vida útil desses equipamentos e seus componentes é, em média, de 10 anos.
Para se definir que uma urna não poderá mais ser utilizada, é formalizado um relatório técnico que conclui que a manutenção daquele equipamento é mais onerosa ao Poder Público que o seu descarte. Agora, estão sendo descartadas 73,4 mil urnas de 2004 e outras 17 mil urnas modelo de 1996, que haviam sido doadas ao Paraguai e que foram devolvidas para o Brasil por não disporem de procedimento estabelecido para as urnas em desuso
Rafael Azevedo, coordenador de Tecnologia Eleitoral do TSE
HISTÓRICO
Esta é a quarta vez que a Justiça Eleitoral recicla lotes de urnas. Em 2010, foram feitos dois descartes: de urnas eletrônicas modelo 96 e, depois, modelo 98. Em 2012, foi feito o descarte de urnas modelos 2010 e 2012.
Além de ser possível a transformação da borracha em solas de sapato, espumas plásticas já viraram enchimentos de puffs, e as placas-mãe são exportadas para países europeus que fazem a extração de materiais nobres, como ouro, prata, platina e cobre.
Em uma tonelada de placas-mãe de urnas eletrônicas, por exemplo, é possível retirar 150 gramas de ouro. Depois, eles podem ser usados novamente na fabricação de componentes eletrônicos.
Fiscalização intensa no transporte até o desmonte
No contrato com a empresa que faz a reciclagem da urnas eletrônicas, há também a previsão de que ela faça o recolhimento das urnas em todo país.
Para garantir que todo o material recolhido chegue ao local de desmonte, na cidade mineira de Betim, a empresa busca as urnas em todos os Estados, sob a fiscalização dos respectivos Tribunais Regionais Eleitorais (TREs).
Um dos procedimentos adotados é pesar o caminhão vazio e depois pesá-lo novamente quando já estiver carregado com o material. Após esse procedimento, o caminhão é lacrado por técnicos do TRE e somente pode ser aberto em seu destino final, onde também há fiscais da Justiça Eleitoral, de acordo com o coordenador de Tecnologia Eleitoral do TSE, Rafael Azevedo.
"O artigo 340 do Código Eleitoral estabelece como crime permanecer de posse de material exclusivo da Justiça Eleitoral. Por isso, não pode haver desvios do material, e devemos ter a garantia de que as peças não chegarão a locais inadequados", afirma.
Quando chegam na empresa, as urnas e os outros materiais são desmontados e separados por tipo: metal, plástico, borracha e outros. Depois da separação, os materiais são descaracterizados: moídos ou quebrados em partes pequenas.
A partir daí, é feito o envio para reciclagem por instituições parceiras. O que não pôde ser aproveitado é encaminhado a aterros sanitários credenciados. Segundo o coordenador do TSE, o processamento do material deve ser concluído até julho deste ano.

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