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Obra de Amilcar  de Castro
Obra de Amilcar de Castro. Crédito: Marcelo Prest

Escultura milionária está abandonada no meio do mato no Cais das Artes

A escultura em aço foi feita por Amilcar de Castro em 1995 e doada, em 2010, pelo Instituto Sincades - ligado ao Sindicato do Comércio Atacadista e Distribuidor do Espírito Santo - ao Estado para marcar o início da obra

Publicado em 27/04/2019 às 20h10

Em março de 2010, uma escultura do mineiro Amilcar de Castro estimada em R$ 1 milhão marcou o início das obras do Cais das Artes, na Enseada do Suá, em Vitória. À época, a informação foi muito noticiada, já que se tratava de uma peça de um dos mais importantes artistas plásticos brasileiros, combinando com a grandiosa proposta de toda a construção que era anunciada. O que ninguém esperava é que, nove anos depois, aquela que seria a “pedra fundamental” da construção se encontraria misturada aos entulhos estando tão abandonada quanto a própria obra do Cais, programada para terminar em 2012 e que, até agora, ainda não teve fim.

A escultura em aço foi feita por Amilcar de Castro em 1995 e doada, em 2010, pelo Instituto Sincades – ligado ao Sindicato do Comércio Atacadista e Distribuidor do Espírito Santo – ao Estado para marcar o início da obra. Exposta a céu aberto, a escultura de cinco metros de altura, e que pesa cinco toneladas, está rodeada de mato e pedaços de madeira. Nas condições em que foi deixada, dá a sensação de ser mais um entulho em meio a tantas outras coisas abandonadas no local.

A GAZETA esteve dentro da obra parada do Cais das Artes e flagrou a cena, assim como a situação de deterioração de diversos materiais que ficaram por lá e do próprio esqueleto de concreto da estrutura, que já foi erguido e aguarda finalização. A última empresa contratada deixou o empreendimento em maio de 2015 e, desde então, o governo vem dando prazos para retomada. O último foi o primeiro semestre de 2020 e o empreendimento já consumiu R$ 129 milhões do governo.

CUIDADOS 

As informações que constam no site do Instituto Amilcar de Castro mostram que a escultura que está no Cais das Artes é uma das 110 obras de aço, madeira, mármore e vidro do artista, morto em 2002, que estão pelo mundo. Uma está no metrô de Londres, na Inglaterra. Há algumas no Japão e na Alemanha.

Uma outra obra de aço está em exposição a céu aberto no Instituto Inhotim, em Brumadinho, Minas Gerais, que possui um dos mais relevantes acervos de arte contemporânea do mundo. No local, a “Gigante Dobrada”, que tem assinatura de Amilcar, recebe uma série de cuidados do instituto, como o corte da grama que fica ao redor e limpeza.

“Há cuidados necessários no entorno da obra, como o corte da grama e a observação dos aspersores de água, para não atingirem pontos da escultura. Periodicamente, realizamos uma limpeza a seco para retirada de sujidades superficiais como insetos e teias”, diz a nota de Inhotim.

Enquanto isso, ao contrário da “Gigante Dobrada”, a obra que está no Cais das Artes perece à ação do tempo, sem nenhum cuidado.

VALOR 

Curadores de arte informaram para A GAZETA que uma obra de Amilcar de Castro de aproximadamente cinco metros, como a que se encontra no Cais das Artes, já chegou a ser adquirida por mais de R$ 1 milhão.

Especialistas apontam que vários são os fatores que contribuem para a valorização de uma escultura. Entre eles, a carreira do artista, ou seja, exposições, bienais e prêmios que conquistou, ano da obra e conservação. “As obras de Amilcar já eram valorizadas em vida”, pontuou um dos profissionais consultados por A GAZETA, mas que preferiu não se identificar.

O Instituto Sincades, que fez a doação da escultura na época do início da construção do Cais das Artes, foi procurado para informar o valor que gastou com a obra comprada do Instituto Amilcar de Castro. Também foi questionado sobre a situação em que a peça se encontra.

Informou, porém, apenas em nota que “no período em que a doação foi realizada, o Instituto Sincades possuía mais de mil projetos. Foi realizado um levantamento interno e não foi possível precisar exatamente o valor desta obra na época”.

O Instituto Amilcar de Castro é coordenado pelo filho do escultor, o também artista plástico Rodrigo de Castro. Inclusive, ele foi uma das figuras mais importantes presentes no evento que marcou o início das obras do Cais das Artes, em 2010. A cerimônia teve cerca de 700 convidados.

Rodrigo também foi procurado para comentar a situação da obra, o valor dela no mercado e cuidados necessários para manter a escultura, mas a resposta aos questionamentos foi sempre a mesma: “Eu não tenho nada a declarar”.

PROBLEMAS 

A escultura de Amilcar de Castro em meio aos entulhos é um dos vários problemas encontrados no Cais das Artes. A estrutura de 20 mil metros quadrados foi pensada para ter um teatro e um museu. Mas, atualmente, o que se vê em todos os cantos são canos expostos, escadas enferrujadas e materiais abandonados.

No último andar do que seria o museu, por exemplo, há o maquinário de refrigeração todo enferrujado. Tubulações de ar condicionado estão jogadas por todos os cantos, desde o primeiro andar até a cobertura. Os elevadores ainda estão cercados por tábuas e em alguns canos que seriam para a saída da refrigeração de cada assento do teatro está brotando mato. Também há muito lixo até com água parada.

O projeto do cais das Artes é assinado pelo célebre arquiteto capixaba Paulo Mendes da Rocha. Na época do lançamento do projeto, a promessa era inserir o Estado no circuito nacional e internacional das grandes exposições e espetáculos.

Mas, enquanto a obra não é retomada e concluída para marcar uma nova fase da cultura capixaba, o que ocupa o local são morcegos.

O grande número de castanhas jogadas no chão chamou a atenção da reportagem quando esteve no local. A explicação, segundo a pessoa responsável por acompanhar a equipe pelo trajeto – designada pelo governo –, é que elas foram deixadas ali por esse tipo de animal.

“NÃO SABIA QUE ESTAVA LÁ”, DIZ DIRETOR DO IOPES 

“Não me lembro da escultura, não sabia que ela estava lá. Vou mandar averiguar, é possível que os nossos técnicos tenham visto.” Essa foi a resposta do diretor-geral do Instituto de Obras Públicas do Estado do Espírito Santo (Iopes), Luiz Cesar Maretto Coura, ao ser questionado sobre a escultura de Amilcar de Castro no Cais das Artes, que foi encontrada no meio do mato e entre entulhos.

Segundo ele, o governo de Renato Casagrande está no quarto mês e não é culpado pelo estado em que a obra do Cais se encontra e nem como a escultura foi encontrada. “Tudo que está depredado no local poderia estar em melhores condições se não estivesse ficado parado nos últimos anos.”

O diretor da autarquia não disse se a escultura continuará no local ou se receberá algum tipo de tratamento específico.

SOLUÇÃO 

Coura, no entanto, afirmou que a limpeza do local está prevista para ocorrer ainda no primeiro semestre deste ano. A continuação das obras tem previsão de retornar somente no primeiro semestre de 2020 – porém, não há data indicada para entrega.

Para isso, o governo pretende fazer acordo com o consórcio que deixou, em 2015, as obras do Cais das Artes, o Andrade Valladares - Topus. O Executivo aponta que parte do dinheiro já pago às empresas – R$ 56 milhões – não foi usado e seria o saldo suficiente para conclusão da construção.

Em maio de 2015, o consórcio abandonou o projeto porque o contrato estava perto de acabar e, na ocasião, o governo não renovou o prazo. Desde então, a obra não andou mais.

“A ideia é concluir o Cais das Artes com esse dinheiro. A grande maioria das coisas podem ser aproveitadas. A minha intenção é convidar o consórcio para sentar e ajustar um possível acordo técnico para retornarem à obra”, pontuou.

Ele explica que ainda não se sabe o que foi perdido, de fato, na obra. Para isso, os profissionais do órgão estão fazendo um levantamento de tudo o que há no local. “Nós estamos com alguns técnicos para levantar o custo de tudo para poder ter um balanço dos gastos”, disse o diretor.

AMILCAR DE CASTRO

O mineiro Amilcar de Castro (1920-2002) foi escultor, gravador, desenhista, diagramador, cenógrafo e professor. Ele é um dos principais artistas plásticos brasileiros e é conhecido principalmente por suas esculturas neoconcretas, feitas com chapas de aço e ferro recortadas em formato geométrico, como a que está no Cais das Artes. Nos anos 50, ele foi responsável pela reforma gráfica no Jornal do Brasil. Na arte, participou de exposições e bienais em todo o mundo e conquistou diversos prêmios na área.

CAIS DAS ARTES 

2010 -Início da obra

Começa a construção do Cais das Artes, com investimento de R$ 115 milhões. A escultura de Amilcar de Castro é o marco do início da obra.

2012- Data para entrega

O ano seria marcado pela entrega da obra, mas a construtora Santa Bárbara faliu e o contrato com o governo do Estado foi rescindido.

2013 - Retomada

As obras no Cais das Artes foram retomadas após uma nova licitação que contratou o Consórcio Andrade Valladares - Topus.

2015 - Paralisação 

As obras voltaram a parar em maio daquele ano, quando o tempo de contrato chegou ao fim e o Consórcio Andrade Valladares - Topus deixou o empreendimento.

2016- Balanço 

Em agosto, foi feita uma nova licitação, para contratar uma consultoria que faria uma avaliação da obra e um balanço do que ainda precisaria ser feito.

 2018 - Novos prazos

Em abril, o Iopes contratou uma empresa para gerenciar a obra. Em julho, o governo anunciou que as obras seriam retomadas em dezembro de 2018 e entregues até 2020.

 licitação

Em setembro, foram abertas duas licitações: uma para terminar as obras e outra para compra de materiais e conserto de outros. Em outubro, a da obra foi suspensa.

2019 - Acordo e gastos

Em abril, o governo disse que tenta acordo com o Andrade Valladares – Topus para retomar a obra em 2020, sem dar prazo de entrega: R$ 56 milhões pagos ao consórcio ainda não foram liquidados. Ao todo, com os aditivos já feitos antes e a contratação da gerenciadora, já foram R$ 129 milhões sugados dos cofres públicos.

 

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