A Venezuela se encontra cada vez mais isolada. Enquanto Nicolás Maduro fecha violentamente suas fronteiras para evitar a fuga de venezuelanos e a entrada de ajuda humanitária no país, escreve por suas próprias linhas o desfecho do desastre populista imposto pelo chavismo, que nos últimos vinte anos paulatinamente implodiu a democracia no país. É um beco sem saída para um regime consolidado sobre bases frágeis, movediças. Foram seus próprios erros que abriram espaço para a reação que se fortalece, apoiada pela comunidade internacional.
A situação venezuelana pode ser didática, servindo de aprendizado para governantes e cidadãos ao redor do mundo. Ensina que o populismo, de esquerda ou de direita, seduz multidões, mas tem prazo de validade por não garantir um desenvolvimento pleno. Ergue a escada para o autoritarismo ao desvirtuar as instituições democráticas em um constante reembaralhar de cartas, com as regras do jogo alteradas de acordo com os próprios interesses. Hugo Chávez soube usar seu carisma em favor de uma falsa sensação de justiça social, patrocinada pelos petrodólares. Aproveitou-se dos sentimentos de uma população pobre e desconfiada, liderando um revanchismo às elites que acabou por camuflar os reais problemas do país. Enquanto tomava decisões autoritárias como substituir juízes na Suprema Corte, na metade da década passada, conseguia encantar seus eleitores com justificativas demagógicas: enfatizava que estava abrindo os olhos da Justiça para os interesses populares. Com sua morte, chegou-se a duvidar das habilidades de Maduro em sustentar o projeto de poder bolivariano, mas ele manteve a linha. Funcionou por um bom tempo, mas não para sempre.
Maduro pode permanecer no comando por algum tempo, mas seu governo não mais existe. Há a sombra de uma liderança que contou com o apoio popular, já esgotado. Qualquer vestígio de qualidade de vida acabou desaparecendo, com os constantes desabastecimentos. A corrupção saiu da penumbra, ficou mais evidente. Índices de homicídios foram às alturas. E assim o castelo de cartas começou a ruir. A queda é inevitável, cedo ou tarde. E o próprio povo acabou pagando o preço dessa aventura populista.