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Opinião da Gazeta

A defesa do jornalismo é responsabilidade de todos

Em um momento em que a vigilância democrática dos poderes é tachada de "fake news", todos que se beneficiam da informação e defendem a transparência devem se unir

Publicado em 27 de Setembro de 2019 às 18:05

Públicado em 

27 set 2019 às 18:05

Colunista

Crédito: Divulgação

O trabalho da imprensa nunca foi fácil. Em sua missão de informar, jornalistas enfrentam governos e poderes paralelos, desafiam o crime organizado e o narcotráfico, expõem esquemas de corrupção, cruzam campos de guerra. É um expediente arriscado, mas que faz parte da profissão. Nos últimos anos, no entanto, essa tarefa tem se tornado ainda mais perigosa, porque os ataques têm partido daqueles que deveriam defender a liberdade de expressão como ingrediente básico de uma democracia.

Para impedir os jornalistas de exporem verdades nada confortáveis e exigir que o poder preste contas dos seus atos, um número crescente de governos tem adotado medidas abertas, às vezes violentas, para desacreditar o trabalho desses jornalistas
Trecho de artigo do The New York Times

No artigo “A ameaça crescente ao jornalismo ao redor do mundo”, publicado nesta semana – e do qual reproduzimos trechos nas frases em destaque –, o editor do New York Times A. G. Sulzberger esquadrinha com minúcia e precisão esse cenário e indica um ponto de inflexão: a retórica do presidente do Estados Unidos, Donald Trump. Ao etiquetar os veículos de mídia como “inimigos do povo” e tachar as notícias desfavoráveis à sua imagem de “fake news”, ele acendeu um rastilho.

Mas, ao atacar a mídia americana, o presidente Trump tem feito mais do que corroer a fé dos seus próprios cidadãos nas organizações de notícias que tentam chamá-lo à responsabilidade. Ele efetivamente deu a líderes estrangeiros permissão para fazerem o mesmo com os jornalistas de seus países, e até lhes ofereceu o vocabulário para isso.
Trecho de artigo do New York Times
Nos últimos anos, mais de 50 primeiros ministros, presidentes e outros líderes de governo nos cinco continentes usaram o termo fake news para justificar vários níveis de atividade contra a imprensa.
Trecho de artigo do New York Times

Trump não é o artífice da campanha de descrédito à imprensa, mas é um de seus protagonistas. Encarna o paradoxo desta era, em que se duvida de tudo e, ao mesmo tempo, se acredita em qualquer coisa, o que é ainda mais grave diante do fluxo de informação sem precedentes por seu gigantismo. Não só a imprensa, mas instituições democráticas ao redor do mundo sofrem a ofensiva da descrença, num caminho inverso à marcha da civilização, que deveria ser o de aprimorá-las.

Quando o presidente denuncia as fake news, ele não está interessado nos erros de fato. Ele tenta tirar a legitimidade da notícia real, rejeitando a reportagem factual e imparcial como mentiras politicamente motivadas
Trecho de artigo do New York Times

E aqui surge mais uma contradição destes tempos: justamente quando é mais necessária, a imprensa tem seu papel colocado em xeque. Quando as democracias são atacadas, um dos seus pilares deve ser reforçado. Ao perseguir fatos, o jornalismo serve de bússola em meio à neblina das versões. Uma mídia independente garante que cidadãos conheçam os atos de seus governantes e fiscalizem a máquina pública. E, nessa tarefa, não possui amigos ou inimigos: seu compromisso é com a informação.

Os momentos e os lugares onde é mais difícil e perigoso ser um jornalista são aqueles momentos e lugares onde os jornalistas são mais necessários.
Trecho do artigo do New York Times

É claro que nessa busca pela verdade há pedras pelo caminho. A imprensa erra, como tudo que é humano. Mas seus tropeços não devem alimentar argumentos que torçam por sua queda. Ao contrário, devem servir de norte a esforços para lapidá-la. É assim com a própria democracia. Mesmo não sendo perfeita, e talvez nunca seja, não há bom senso que admita a ideia de derrubá-la. A saída é aperfeiçoá-la continuamente.

Permitam-me dizer o óbvio? A mídia não é perfeita. Cometemos erros. Temos pontos cegos. E às vezes irritamos as pessoas. Mas a livre imprensa é fundamental para uma democracia saudável e é possivelmente o instrumento mais importante que temos como cidadãos
Trecho do artigo do New York Times

A vigilância democrática do poder público é direito de qualquer cidadão e missão da imprensa profissional. Não é um trabalho fácil, nem deve ser solitário. Todos aqueles que de alguma forma se beneficiam ou dependem dele, que compreendem que transparência não é mais uma escolha, e sim obrigação, precisam assumir sua responsabilidade.

A responsabilidade de defender a livre imprensa vai além das organizações de notícias. Empresas, comunidades acadêmicas e sem fins lucrativos, todos que dependem de um fluxo de notícias e informação têm a responsabilidade de promover essa campanha também.
Trecho de artigo do New York Times
Este não é somente um problema dos repórteres: é um problema de todos, porque é desta maneira que líderes autoritários enterram a informação crucial, ocultam a corrupção e até justificam o genocídio. Como o senador John McCain alertou, certa vez, “quando você examina a história, a primeira coisa que os ditadores fazem é fechar a imprensa”.
Trecho do artigo do New York Times

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