O trabalho da imprensa nunca foi fácil. Em sua missão de informar, jornalistas enfrentam governos e poderes paralelos, desafiam o crime organizado e o narcotráfico, expõem esquemas de corrupção, cruzam campos de guerra. É um expediente arriscado, mas que faz parte da profissão. Nos últimos anos, no entanto, essa tarefa tem se tornado ainda mais perigosa, porque os ataques têm partido daqueles que deveriam defender a liberdade de expressão como ingrediente básico de uma democracia.
No artigo “A ameaça crescente ao jornalismo ao redor do mundo”, publicado nesta semana – e do qual reproduzimos trechos nas frases em destaque –, o editor do New York Times A. G. Sulzberger esquadrinha com minúcia e precisão esse cenário e indica um ponto de inflexão: a retórica do presidente do Estados Unidos, Donald Trump. Ao etiquetar os veículos de mídia como “inimigos do povo” e tachar as notícias desfavoráveis à sua imagem de “fake news”, ele acendeu um rastilho.
Trump não é o artífice da campanha de descrédito à imprensa, mas é um de seus protagonistas. Encarna o paradoxo desta era, em que se duvida de tudo e, ao mesmo tempo, se acredita em qualquer coisa, o que é ainda mais grave diante do fluxo de informação sem precedentes por seu gigantismo. Não só a imprensa, mas instituições democráticas ao redor do mundo sofrem a ofensiva da descrença, num caminho inverso à marcha da civilização, que deveria ser o de aprimorá-las.
E aqui surge mais uma contradição destes tempos: justamente quando é mais necessária, a imprensa tem seu papel colocado em xeque. Quando as democracias são atacadas, um dos seus pilares deve ser reforçado. Ao perseguir fatos, o jornalismo serve de bússola em meio à neblina das versões. Uma mídia independente garante que cidadãos conheçam os atos de seus governantes e fiscalizem a máquina pública. E, nessa tarefa, não possui amigos ou inimigos: seu compromisso é com a informação.
É claro que nessa busca pela verdade há pedras pelo caminho. A imprensa erra, como tudo que é humano. Mas seus tropeços não devem alimentar argumentos que torçam por sua queda. Ao contrário, devem servir de norte a esforços para lapidá-la. É assim com a própria democracia. Mesmo não sendo perfeita, e talvez nunca seja, não há bom senso que admita a ideia de derrubá-la. A saída é aperfeiçoá-la continuamente.
A vigilância democrática do poder público é direito de qualquer cidadão e missão da imprensa profissional. Não é um trabalho fácil, nem deve ser solitário. Todos aqueles que de alguma forma se beneficiam ou dependem dele, que compreendem que transparência não é mais uma escolha, e sim obrigação, precisam assumir sua responsabilidade.