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Grupo de jornalismo de dados da Rede Gazeta. Crédito:

Educação ruim reflete em baixos salários no Espírito Santo

Números mostram que maioria dos trabalhadores tem ensino médio, mas mercado procura algo além

Publicado em 07/06/2019 às 20h08

A distribuição desigual da riqueza no mercado de trabalho formal tem sido alimentada por um sistema tributário injusto e pelas ilhas de privilegiados, mas é a educação de baixa qualidade, segundo especialistas, que tem minado ainda mais as chances de a mão de obra se desvincular dos baixos salários e ter um avanço real na renda, alcançando um padrão de vida de mais qualidade. A diferença salarial é tema da série de reportagens "Renda bruta".  (Confira nossa Calculadora da Desigualdade)

É consenso que são as pessoas com baixa escolaridade que recebem os menores salários. Mas o nível escolar sozinho não é capaz de explicar tudo. O problema vai além do currículo. Está mais atrelado à capacidade de a pessoa aproveitar o que aprendeu na escola para ampliar os conhecimentos no mundo profissional e entregar um produto que o mercado de trabalho precisa.

Levantamento feito pelo G.Dados, a partir de dados da Relação Anual de Informações Sociais (Rais) de 2017 , decifra o perfil das pessoas que atuam no mercado formal. O Espírito Santo tem 565 mil pessoas, entre trabalhadores da iniciativa privada e do serviço público, com renda menor que R$ 2 mil. Mais da metade desse grupo, 306 mil, têm ensino médio completo.

Quase 200 mil não completaram os estudos. Desses, 77.348 não estudaram nem até o nono ano (antiga oitava série), 1.914 são analfabetos . Outros 66 mil pararam de ir à escola ao concluir o ensino fundamental.

 “O motivo de baixos salários é a qualidade do nosso ensino. É ruim. As pessoas têm titulação de ensino médio, mas não contam com o desenvolvimento cognitivo necessário para desempenhar bem as funções dentro de uma empresa. Como entregam pouco, têm baixos salários. É com o rendimento do funcionário que o patrão sabe se esse profissional é caro ou barato”, explica a economista e professora da Fucape, Arilda Teixeira. “O trabalhador precisa gerar valor. Mas muitos não conseguem pagar seu salário com o seu trabalho. Somente quando é qualificado cumprem com sua missão. O ensino de qualidade é imprescindível para mudar esse quadro”, analisa.

Chama atenção, no entanto, um determinado grupo de profissionais entre aqueles com os menores salários. Há gente com diploma de faculdade, mestrado ou mesmo doutorado. Juntos são 43.540 profissionais nessa situação, vivendo com um salário menor que R$ 2 mil por mês.

Segundo Arilda, ter uma faculdade ou mesmo um curso de pós-graduação nem sempre é a solução para se empregar e conquistar salários mais altos. “Existem muitos cursos fajutos. As pessoas procuram emprego na área de estudo, mas não encontram. Acabam se empregando em vagas inferiores”, destaca.

A economista Danielle Nascimento, da OPE Sociais, diz que o ensino no país até progrediu, mas não trouxe aumento da produtividade. “É necessário ainda ter um casamento entre a qualificação e escolaridade do trabalhador. Às vezes, as habilidades que uma pessoa ganhou não se convertem em oportunidades.”

Marcelo Neri, pesquisador da FGV Social

O emprego de carteira assinada caiu bastante. A maioria das pessoas está na informalidade. Nesse grupo, a renda é ainda menor

O pesquisador da FGV Social, Marcelo Neri, usa outros dados para explicar a baixa renda do trabalhador capixaba. “O Espírito Santo apresentou uma evolução, quando se analisa a Pnad (Pesquisa Nacional de Amostra por Domicílio). Passou do 11º em 2012 para o 10º Estado mais rico do país. Não é algo espetacular, mas é uma ascensão”, explica, ao dizer ainda que a base de dados da Rais traça apenas o cenário do mercado formal, que é composto, de acordo com ele, por uma elite brasileira diante da insistente crise econômica. “O emprego de carteira assinada caiu bastante. A maioria das pessoas está na informalidade. Nesse grupo, a renda é ainda menor”, destaca Neri.

Pedro Thiago do Nascimento, 32 anos, agricultor,  trabalha na colheita do café. Crédito: Bernardo Coutinho
Pedro Thiago do Nascimento, 32 anos, agricultor, trabalha na colheita do café. Crédito: Bernardo Coutinho

O especialista fala também que a realidade capixaba está um pouco abaixo da nacional, mas bem perto da média. “O Espírito Santo tem o copo meio cheio ou meio vazio. Depende do ponto de vista. Assim como o Brasil, não é uma região rica nem pobre. Está na média. A situação seria ainda pior para o Estado se não houvesse uma preocupação com o quadro fiscal. Haveria mais desemprego e os salários seriam ainda menores do que os vistos hoje no mercado formal”, destaca.

Outro problema, na visão dele, é a falta de uma educação voltada para o mercado de trabalho. “O ensino é fundamental para cidadania, mas muitos pontos ensinados nas escolas não contribuem para a produtividade.”

A atual crise na educação pode ter reflexos nos vencimentos dos trabalhadores, segundo a professora da FGV, Cláudia Costin, especialista em ensino. Em evento da ONG ES em Ação, realizado na Rede Gazeta, na última terça-feira, 21, ela disse que a desigualdade social brasileira atingiu o pior índice da história. “Precisamos enfrentar isso. É a falta da educação a responsável por baixos salários. É ela quem promove o nascimento da injustiça social e da criminalidade.”

O quadro de baixos salários, na visão dela, deve mudar no curto prazo para algo ainda mais grave se não houver investimento em qualificação. “Muitas vagas de trabalho vão acabar, algumas profissões vão morrer. A sobrevivência do trabalhador vai depender de sua formação técnica, mas também das competências cognitivas e socioemocionais.”

Pedro Thiago do Nascimento, 32 anos, é exemplo das dificuldades. Agricultor, ele trabalha na colheita do café. Alcança uma renda média de R$ 1,8 mil. A situação só melhora no período de safra que dura dois meses, quando pode alcançar até R$ 3 mil bruto de salário.

Ele acredita que a baixa escolaridade contribui para sua condição. “Fui até a oitava série (nono ano do ensino fundamental). Se eu não tivesse filho, voltava a estudar. Parei não foi por opção, porque precisa trabalhar. Hoje cuido para que meus três filhos estudem e tenham um futuro melhor.”

O QUE É O G.DADOS?

G.Dados é o grupo de jornalismo de dados da Rede Gazeta, que tem como objetivo qualificar e ampliar a produção de reportagens baseadas em dados na Redação Multimídia. Jornalismo de dados é o processo de descobrimento, coleta, análise, filtragem e combinação de informações com o objetivo de construir histórias. É mais uma ferramenta para reforçar e embasar a produção de notícias. 

ENTENDA O NOSSO TRABALHO

Por que fizemos esta reportagem?

A intenção da reportagem foi conhecer a realidade salarial do Espírito Santo e identificar as desigualdades e o motivo das remunerações serem tão baixas no Estado.

Como apuramos as informações?

Todo o ano as empresas privadas, públicas, órgãos do Executivo, Judiciário, Legislativo de todas as esferas (federal, municipal e estadual) precisam enviar à Secretaria do Trabalho, do Ministério da Economia, a Relação Anual de Informações Sociais (Rais). Nós pegamos os microdados (menor fração de um dado coletado em uma pesquisa que retrata cada trabalhador). A reportagem foi construída a partir da análise dessas informações.

O que fizemos para garantir o equilíbrio?

Além de usar os dados para comprovar um cenário, a reportagem procurou especialistas em mercado de trabalho que apontou os motivos para a existência da desigualdade de renda.

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