Foi comparando a economia brasileira a um paciente enfermo que o economista e ex-presidente do Banco Central, Gustavo Loyola, definiu a atual situação do país. Para ele, a economia já saiu da UTI, foi para o quarto e já começou a andar. Ainda sem muita firmeza, mas já começou a andar.
“A economia brasileira ainda está numa fase de recuperação de um dos maiores tombos da história. Começamos a recuperar em 2017 e em 2018. Para este ano, esperamos certa aceleração, mas isso depende da aprovação da reforma da Previdência”, avaliou.
Apesar de defender a aprovação da reforma previdenciária, Loyola não acredita que a proposta que foi enviada pela equipe econômica do presidente Jair Bolsonaro (PSL) seja aprovada sem alterações.
“Essa reforma que pretende economizar R$ 1 trilhão não deve acontecer, mas precisamos que seja aprovado um texto que nos dê uma economia de, pelo menos, R$ 600 bilhões em dez anos”, calculou.
O ex-presidente do BC foi um dos palestrantes do “Diálogos sobre Desenvolvimento e Competitividade”, promovido pela Rede Gazeta, ontem, em parceria com o Sindicato do Comércio Atacadista e Distribuidor do Espírito Santo (Sincades).
No evento, o economista avaliou ainda que, além da reforma da Previdência, o Brasil precisa de outros três pilares para se recuperar economicamente: a manutenção de Paulo Guedes na equipe econômica, a manutenção de condições mínimas de governabilidade e a ausência de turbulências políticas.
O encontro contou ainda com a participação da jornalista da Rede Globo, Andréia Sadi, especialista em política, do governador Renato Casagrande (PPS) e de diversas outras autoridades políticas e empresariais.
A abertura do evento foi feita pelo diretor-geral da Rede Gazeta, Café Lindenberg. “Neste momento da história em que o Brasil passa por uma rota de transformação e que tem que tomar decisões essenciais para manter-se competitivo e dinâmico diante do cenário internacional, olhar para frente é um compromisso inadiável”, declarou.
“Neste encontro, nossa proposta é de construir um diagnóstico sobre o país e o Espírito Santo. E de pôr um olhar analítico sobre o que se fez desde o dia 1º de janeiro. Mais que isso, enxergar onde queremos chegar e o que faremos para chegar lá”, completou Café.
Ao final do encontro, os participantes parabenizaram a organização e os palestrantes.
“O evento chegou num resultado fantástico. Tivemos dois palestrantes muito bons, com duas visões diferentes – uma econômica e outra política –, de duas gerações diferentes. Isso possibilitou que a gente pudesse fazer uma linha para analisar o que o país está vivendo e liderar nos próximos anos”, comentou Idalberto Luiz Moro, presidente do Sincades.
“Percebemos que temos na mão uma oportunidade para dar saltos e liberar essa sede que os empreendedores estão de investir para transformar nosso potencial em realistade”, disse Luiz Wagner Chieppe, diretor-presidente do Grupo Águia Branca.
ARTICULAÇÃO POLÍTICA É GARGALO DO GOVERNO
A deficiência na articulação política com o Congresso para azeitar a tramitação de agendas prioritárias tem sido o principal problema do governo de Jair Bolsonaro (PSL) para emplacar, por exemplo, a reforma da Previdência.
A constatação é da jornalista Andréia Sadi, da Rede Globo, a partir das informações colhidas por ela diariamente nos bastidores de Brasília. Ela foi uma das palestrantes do “Diálogos sobre Desenvolvimento e Competitividade”, ontem.
Especializada na cobertura dos Poderes da República, a jornalista mencionou que a qualidade da articulação de Bolsonaro tem sido lembrada como a da ex-presidente Dilma Rousseff (PT).
Bolsonaro tem dito que não negocia com a “velha política”. Ocorre que a democracia demanda política e partidos. E o “termômetro” de Andréia Sadi indica que não é correto dizer que todos os congressitas que pedem mais atenção do governo estejam interessados em acordos espúrios ou em negociação de cargos comissionados.
De acordo com as informações de Sadi, o diagnóstico do ruído de comuicação existe dentro do próprio governo e é possível saná-lo. “Ouvi de um ministro próximo ao presidente que ‘não tem boa ou má política. Tem política e corrupção. O que os parlamentares estão querendo é atendimento, é se sentirem parte do processo, fazer parte da foto, sentar com o presidente no Planalto”, contou.
Outra informação de bastidor importante compartilhada pela jornalista diz respeito à maneira como o Congresso enxerga o ministro da Casa Civil, Onyx Lorenzoni. Segundo ela, ele não é visto como articulador no governo.
Quem era melhor avaliado pelos congressitas ao posto era o ex-ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Gustavo Bebianno. Ele foi demitido após pressão de Carlos Bolsonaro, filho do presidente.
FUNDO VAI RECEBER SÓ MAIS UMA PARCELA DE RECURSOS
O fundo soberano que o governo do Estado pretende criar com parte dos recursos extras do petróleo a serem recebidos pelos próximos 20 anos terá poupança definida por percentuais que serão reduzidos ao longo dos anos. Até 2022, 40% do montante depositado será poupado. Entre 2023 e 2026, 30%. A partir de 2027, 20%.
As informações foram dadas pelo governador Renato Casagrande (PSB), ontem, e em seguida detalhadas pelo secretário estadual de Governo, Tyago Hoffmann. O projeto de lei que autorizará a criação do fundo será enviado para análise da Assembleia Legislativa na próxima semana.
A arrecadação extra deve se aproximar dos R$ 600 milhões anuais e acontecerá graças a compensações resultantes de acordo assinado por governo, Petrobras e Agência Nacional de Petróleo para unificação dos campos do Parque das Baleias.
O fundo soberano recberá 75% do valor. De acordo com estimativas do governo, serão perto de R$ 430 milhões depositados. Dentro do fundo, haverá uma nova repartição da verba depositada: inicialmente 40%, cerca de R$ 172 milhões, vão para uma poupança a ser usada no futuro e os outros 60% estarão disponíveis para o governo investir em novos negócios tornando-se “sócio” de empreendimentos que julgar competitivos.
Logo, dos R$ 600 milhões a mais previstos com petróleo por ano, 28,7% é o que deve ser de fato poupado nestes primeiros anos. A partir de 2027, 14,3% do total.
Para o governador Renato Casagrande, os investimentos em empreendimentos privados também são forma de poupar para as gerações futuras.
“O fundo vai se associar a empreendimentos reais, concretos, que de fato deem segurança para que nós possamos incentivar o desenvolvimento do Estado e que não sejam na área de petróleo e gás”, declarou.
Os outros 25% dos extras serão incoporados ao caixa do Estado e poderão ser usados para cobrir despesas de custeio da máquina pública. Segundo Tyago Hoffmann, não poderão ser usados para pagar folha de pessoal.
“As gerações futuras terão acesso à riqueza que temos hoje, estamos pensando nelas. Esperamos que os próximos governantes tenham a mesma riqueza”, frisou Hoffmann.
Haverá, ainda, um segundo projeto encaminhado pelo governo aos deputados. Trata-se do texto que visa à criação de outro fundo, um que vai receber recursos do mesmo acordo sobre os campos de petróleo, mas relacionados a verbas retroativas. O montante deve variar entre R$ 1,2 bilhão e R$ 1,5 bilhão. Tudo será direcionado a investimentos. Uma parcela de cerca de R$ 700 milhões deve ser depositada ainda em abril.
SAQUE DO FUNDO
Ainda sobre o fundo soberano, o projeto proposto pelo governo prevê regras para uso da verba no futuro. Conforme antecipado pelo secretário Tyago Hoffmann, o Estado só poderá acessar o recurso após 15 anos e desde que a poupança tenha alcançado R$ 2 bilhões. Também será necessário manter ao menos R$ 1 bilhão de saldo.
As regras são inspiradas em importantes fundos soberanos internacionais, frisou o secretário.
EMPRESÁRIOS OTIMISTAS COM SITUAÇÃO ECONÔMICA DO ES
Os empresários que participaram do “Diálogos sobre Desenvolvimento e Competitividade” demonstraram empolgação com a situação econômica do Espírito Santo e, principalmente, com a possibilidade da chegada de novos investimentos.
O presidente do Sindicato do Comércio Atacadista e Distribuidor do Espírito Santo (Sincades), Idalberto Luiz Moro, avaliou que acredita que a Economia pode render boas notícias.
“A reforma [da Previdência] deverá acontecer. E quando acontecer vai trazer um clima muito melhor de investimento, de vinda de capitais externos para cá. Sou otimista”, comentou o presidente do Sincades.
Luiz Wagner Chieppe, diretor-presidente do Grupo Águia Branca, destaca que o Espírito Santo pode ser a solução logística para o Brasil – que precisa de uma conexão para o escoamento de produtos e também para receber produtos do exterior.
“O Espírito Santo é o Estado, por várias razões, com a maior possibilidade de dar uma grande arrancada, mas tem que ser solucionada a questão da infraestrutura. Precisamos que o governo federal nos enxergue. Não somos problema, somos a solução para o Brasil”, completou.
O diretor de Finanças, Riscos, Compliance e Tecnologia da Informação do Segmento de Aços Planos da ArcelorMittal Brasil, Paulo Wanick, disse que a perspectiva para o Estado é a melhor possível.
“O governador colocou os pilares da abordagem que o governo vai dar. Considerando que o Espírito Santo já é um Estado que tem uma política fiscal equilibrada, acho que o Estado está em posição de crescer. Nesse sentido, ninguém melhor do que o governador para abordar isso”, completou.
Wanick também falou, brevemente, à plateia, mostrando a visão empresarial sobre o desenvolvimento e competitividade no Brasil e no Espírito Santo. Ele também parabenizou os demais palestrantes do evento.
“O evento foi muito bom. Vimos bem a parte política e econômica, que são os dois alicerces para o desenvolvimento de qualquer região”, resumiu.