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Economia (BR)

Como transformar renda complementar em pequeno negócio

Renda extra é uma eterna busca para quem precisa de um reforço no orçamento. Modelo de consignação, redes sociais e consumo por autopresente ajudam revendedoras a construir uma clientela e transformar vendas ocasionais em uma atividade recorrente

Publicado em 06 de Outubro de 2026 às 18:15

Portal Edicase

Publicado em 

06 out 2026 às 18:15
O que começa como uma renda complementar pode ganhar estrutura à medida que as vendas se tornam mais frequentes e a carteira de clientes cresce (Imagem: HAKINMHAN | Shutterstock)
O que começa como uma renda complementar pode ganhar estrutura à medida que as vendas se tornam mais frequentes e a carteira de clientes cresce Crédito: Imagem: HAKINMHAN | Shutterstock

Todo mundo precisa de um dinheirinho extra, e ter uma fonte de renda alternativa pode ser a diferença entre o aperto e a tranquilidade no fim do mês. Existem diversas formas de contar com esse reforço nas finanças, no entanto, as opções mais simples podem começar com seu círculo de amizades. O que começa com alguns produtos apresentados a amigas, parentes e colegas de trabalho pode, gradualmente, ganhar frequência, organização e uma carteira própria de clientes.

No mercado de semijoias, a procura por uma fonte complementar de renda tem levado mulheres a transformar a venda direta em uma atividade estruturada, muitas vezes conciliada com outra profissão. A dinâmica encontra terreno favorável em uma categoria marcada pela variedade de preços, renovação das coleções e relação com o estilo pessoal. Brincos, anéis, colares e pulseiras são comprados para presentear, compor o visual ou marcar uma conquista. Nesse processo, a proximidade entre quem vende e quem compra torna-se parte da experiência.

O movimento acompanha um momento positivo para o setor. O relatório The State of Fashion 2026, elaborado pela consultoria McKinsey, aponta que as joias devem registrar o crescimento mais acelerado em unidades entre as categorias de moda, em ritmo próximo de quatro vezes o projetado para o vestuário. Segundo o estudo, a procura é estimulada pelo autopresente e pela preferência por produtos percebidos como duráveis.

Outro levantamento, publicado pelo Centro de Referência do Artesanato Brasileiro, o CRAB Sebrae, ajuda a compreender o componente emocional desse consumo. Na pesquisa sobre hábitos de compra de produtos artesanais, joias e bijuterias aparecem em 30% das aquisições. Emoções, satisfação pessoal e desejo influenciam 64% dos consumidores entrevistados.

Embora a pesquisa abranja diferentes produtos artesanais, os resultados ajudam a explicar por que os acessórios encontram espaço em vendas baseadas em relacionamento: a escolha envolve identidade, autoestima e a percepção de que determinada peça combina com quem a utiliza.

Proximidade que movimenta as vendas

Para Luana Cabral, especialista em venda direta de semijoias e fundadora da Luah Semijoias, a possibilidade de oferecer uma recomendação personalizada é uma das características que sustentam o modelo. A revendedora conhece o estilo de suas clientes e pode selecionar produtos de acordo com diferentes preferências.

“Percebemos que a revendedora geralmente começa pelo círculo mais próximo, mas o negócio ganha força quando ela passa a trabalhar indicações e recompra. A carteira deixa de ser formada apenas por parentes e amigas e começa a crescer a partir das próprias clientes”, afirma.

Essa relação também favorece a recorrência. Uma consumidora que inicialmente procura um presente pode voltar em busca de um acessório para o trabalho, uma festa ou o uso cotidiano. Novas coleções, combinações e datas comemorativas criam oportunidades de contato ao longo do ano.

As redes sociais ampliaram esse alcance. Hoje as novidades também circulam pelo WhatsApp e pelo Instagram . Fotografias, vídeos e atendimentos individuais permitem que a revendedora mantenha contato com um número maior de pessoas.

A digitalização, porém, não eliminou a principal característica da venda direta: o relacionamento. O que mudou foi a extensão desse contato. Os canais digitais ajudam a apresentar lançamentos e manter a comunicação após a compra, inclusive com consumidoras que não pertenciam ao círculo original da vendedora.

“WhatsApp e redes sociais não substituíram o contato pessoal; eles prolongaram esse relacionamento. A revendedora consegue mostrar uma coleção, separar uma peça de acordo com o perfil da cliente e acompanhar a experiência depois da venda”, explica Luana Cabral.

O modelo de consignação facilita o início das vendas e permite que a revendedora desenvolva sua atividade gradualmente (Imagem: Mari Franz | Shutterstock)
O modelo de consignação facilita o início das vendas e permite que a revendedora desenvolva sua atividade gradualmente Crédito: Imagem: Mari Franz | Shutterstock

Consignação facilita o começo

No sistema de consignação, a revendedora recebe uma seleção de peças, comercializa os produtos durante um período determinado e, no momento do acerto, paga pelo que vendeu e devolve o restante. O formato permite iniciar a atividade sem a necessidade de comprar antecipadamente todo o mostruário.

De acordo com Luana Cabral, a Luah Semijoias reúne cerca de 2.500 revendedoras. A empresa projeta que as vendas por consignação movimentem R$ 14 milhões em 2026. Os números ajudam a dimensionar como uma atividade conduzida individualmente pode ganhar escala por meio de uma rede de vendedoras.

O crescimento nem sempre exige uma mudança imediata de profissão. Em muitos casos, a transformação começa quando as vendas passam a ter frequência e a revendedora organiza pedidos, recebimentos, contatos e divulgação. Aos poucos, ela identifica preferências, observa os produtos de maior saída e estabelece uma rotina de atendimento.

A flexibilidade aproxima o modelo de quem procura complementar o orçamento sem abandonar outra ocupação. Sua evolução costuma ocorrer gradualmente, acompanhando o aumento da carteira e a recorrência dos pedidos. Nesse percurso, a revendedora desenvolve competências como atendimento, negociação e organização financeira.

Da primeira maleta a 500 clientes

A trajetória de Sara Ferreira Galvão, moradora de Palmas (TO), ilustra essa passagem. Técnica de enfermagem, ela trabalhava em dois empregos quando começou a revender semijoias. Atualmente, Sara administra uma carteira com mais de 500 clientes. Com o lucro obtido nas vendas, comprou o tablet que utiliza para organizar contatos, pedidos e pagamentos.

O caso mostra uma mudança que vai além do número de peças comercializadas. A atividade adquire características de negócio quando passa a ser acompanhada de processos e uma base recorrente de compradores. A venda deixa de depender apenas de oportunidades pontuais e começa a fazer parte de uma rotina.

“Quando a atividade se estrutura, a revendedora entende que não basta mostrar peças. Ela precisa conhecer preferências, manter o contato depois da primeira compra e criar oportunidades de recompra. É essa recorrência que torna a renda mais previsível”, finaliza Luana Cabral.

Por Fernando Filho

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