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Letícia Zerke de Oliveira, de 29 anos. Tenho uma vida confortável. Para morar aqui e viver bem não precisa de muito, pois o custo de vida é bem baixo. Se trabalhasse na minha área, poderia ganhar um pouco mais. Nessa região, trabalho na minha área é bem escasso. Eu até tentei, porém não consegui. Precisaria ir embora daqui, afirma Letícia.
Letícia Zerke de Oliveira, de 29 anos. Tenho uma vida confortável. Para morar aqui e viver bem não precisa de muito, pois o custo de vida é bem baixo. Se trabalhasse na minha área, poderia ganhar um pouco mais. Nessa região, trabalho na minha área é bem escasso. Eu até tentei, porém não consegui. Precisaria ir embora daqui, afirma Letícia. Crédito: Bernardo Coutinho

A cidade do Espírito Santo que tem um dos piores salários do país

Diferenças salariais aumentam distância de município do Extremo Norte em relação à realidade dos trabalhadores da capital capixaba

Letícia Zerke de Oliveira, de 29 anos, é formada em Ciências Contábeis e fez até curso de pós-graduação. Julio Cezar Gonçalves, de 52 anos, estudou apenas até a oitava série. Os dois vivem em Ponto Belo, no Extremo Norte do Estado, e têm muito mais em comum do que apenas uma vida pacata no interior do Estado.

>Calculadora da desigualdade mostra quem é rico ou pobre no ES

Apesar de histórias profissionais diferentes, recebem, por mês, quase o mesmo salário. Ela ganha R$ 1.050 pelo emprego numa sorveteria. Ele tem um salário de R$ 1.080 como vaqueiro.

A 350 quilômetros de Vitória, Ponto Belo tem uma realidade econômica que separa ainda mais o município da capital capixaba. A pequena comunidade de 7.700 habitantes tem o menor salário-hora do Estado e uma das piores remunerações do país, atrás de 5.524 cidades das 5.570 existentes em todo o Brasil.

Lá, a hora de trabalho custa em média R$ 5,90. O quadro é bem diferente de Vitória, onde a renda média do trabalhador com vínculo formal por hora é de R$ 19,65, ou seja, três vezes maior.

As informações foram extraídas da Relação Anual de Informações Sociais (Rais) e analisadas pelo G.Dados, grupo de jornalismo de dados da Rede Gazeta, em conjunto com a Tecnologia da Informação da empresa. A equipe mergulhou nas estatísticas de trabalho e renda do Espírito Santo e descobriu as profundas cicatrizes das desigualdades sociais perpetuadas pelo mercado de trabalho. A série de reportagens “Renda bruta” traz à tona o cenário de baixas remunerações e mostra os motivos das distorções. Mais de 60% da mão de obra formal do Espírito Santo vive com um salário menor que R$ 2 mil por mês.

Em Ponto Belo, o retrato da economia local revela os motivos de a renda da população ser tão baixa até entre aqueles com formação educacional superior. O município não tem indústria nem dinheiro do petróleo, como outras regiões capixabas. Ali a população depende de empregos abertos no setor público ou das oportunidades que surgem nas poucas empresas instaladas dos setores de comércio, serviços e pecuária.

Entre as quase quatro mil pessoas economicamente ativas que moram na localidade, só 815 estão empregadas no mercado formal. Cerca de 40% dos trabalhadores com vínculo empregatício ocupam um cargo no serviço público. Esse público é quem tem também os maiores salários.

“Tenho uma vida confortável. Para morar aqui e viver bem não precisa de muito, pois o custo de vida é bem baixo. Se trabalhasse na minha área, poderia ganhar um pouco mais. Nessa região, trabalho na minha área é bem escasso. Eu até tentei, porém não consegui. Precisaria ir embora daqui”, afirma Letícia.

Julio Cezar Gonçalves, de 52 anos. Crédito: Bernardo Coutinho
Julio Cezar Gonçalves, de 52 anos. Crédito: Bernardo Coutinho

A jovem conta que até pensou em sair da cidade para tentar um emprego melhor, mas viu que financeiramente não valeria a pena. “Quando terminei a faculdade em 2015, consegui um emprego para me pagar R$ 1.600. Mas achei que não ia compensar porque eu teria que morar fora, pagar aluguel. Aí eu preferi ficar aqui na casa da minha família mesmo”, conta ao confessar que pretende ter um negócio próprio e aumentar a renda.

Para Julio, a renda é baixa. “Não sobra quase nada”, conta o trabalhador que acorda às 5 da manhã todos os dias e só chega em quase mais de 5 da tarde. “Meu sonho é ter uma terra. Porém também quero que meus filhos façam faculdade. Quero uma realidade diferente para eles. Hoje, até para mexer com gado precisa de ter estudo.” 

O segundo município com o pior salário-hora do Estado, R$ 6,85, é São Gabriel da Palha. Assim como Ponto Belo, a cidade tem renda semelhante aos dos municípios do Norte e Nordeste do país. Está em 5.211º lugar no ranking nacional.

Josenir de Oliveira Costa, de 37 anos. Crédito: Bernardo Coutinho
Josenir de Oliveira Costa, de 37 anos. Crédito: Bernardo Coutinho

Concentrados em atividades do comércio, de confecção e de cultivo do café, os profissionais da cidade lutam para conseguir um avanço na renda.

Encarregada de costura, Josenir de Oliveira Costa, de 37 anos, começou como costureira. Hoje toma conta de toda a fábrica. O salário varia, chega a R$ 2,5 mil no período de boa produção. “Mas se o número de peças fabricadas cai, o salário também diminui”, conta a profissional, que traça como meta para equipe a fabricação de 800 peças por dia.

O QUE É O G.DADOS?

G.Dados é o grupo de jornalismo de dados da Rede Gazeta, que tem como objetivo qualificar e ampliar a produção de reportagens baseadas em dados na Redação Multimídia. Jornalismo de dados é o processo de descobrimento, coleta, análise, filtragem e combinação de informações com o objetivo de construir histórias. É mais uma ferramenta para reforçar e embasar a produção de notícias. 

ENTENDA O NOSSO TRABALHO

Por que fizemos esta reportagem?

A intenção da reportagem foi conhecer a realidade salarial do Espírito Santo e identificar as desigualdades e o motivo das remunerações serem tão baixas no Estado.

Como apuramos as informações?

Todo o ano as empresas privadas, públicas, órgãos do Executivo, Judiciário, Legislativo de todas as esferas (federal, municipal e estadual) precisam enviar à Secretaria do Trabalho, do Ministério da Economia, a Relação Anual de Informações Sociais (Rais). Nós pegamos os microdados (menor fração de um dado coletado em uma pesquisa que retrata cada trabalhador). A reportagem foi construída a partir da análise dessas informações.

O que fizemos para garantir o equilíbrio?

Além de usar os dados para comprovar um cenário, a reportagem procurou especialistas em mercado de trabalho que apontou os motivos para a existência da desigualdade de renda. 

 

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