Expansão de território para a venda de drogas e espaço para esconder armas. Esses estão entre os principais motivos para a guerra dos morros em Vitória, que se intensificou a partir de março de 2018. A ordem para a conquista de novos locais vem de fora do Espírito Santo: da facção Primeiro Comando da Capital (PCC), de São Paulo.
Quem cumpre esse desejo de crescimento e hegemonia é o Primeiro Comando de Vitória (PCV), organização criminosa que domina o Complexo da Penha e executa ordens do PCC no Estado, e que tem como aliado o sentimento de vingança de moradores expulsos de comunidades.
Fontes de A GAZETA e denúncia feita pelo Ministério Público do Estado do Espírito Santo (MPES), obtida pela reportagem em processo na Justiça Estadual, mostram como essas organizações se movimentam e atuam em Vitória.
DOMÍNIO
O PCC quer dominar tudo e, para isso, precisa absorver mais comunidades e bocas de fumo. A facção também necessita de território físico para esconder armas, que são trocadas de lugar com muita frequência. Às vezes, mais de um vez por dia, para evitar a apreensão. Por isso, então, a necessidade de novos esconderijos. Hoje, a sede do comando PCV é o conjunto de comunidades formado por Bairro da Penha, Gurigica, Consolação, Bonfim, Itararé e São Benedito.
A expansão é promovida pelo Trem Bala. Na ampliação das bocas de fumo, são eles os responsáveis pelos homicídios. Tomam o território, chamam os expulsos para trabalhar junto e, se estes não aceitam, os matam.
Já o PCV é responsável pelo gerenciamento das drogas. A compra, por sua vez, é autorizada pelo PCC, que faz a intermediação com os fornecedores. O PCV compra as drogas e faz a distribuição no Estado, – incluindo para os morros –, e as vende.
No seu projeto de expansão e domínio, o PCV vem financiado grupos de traficantes em Alagoano, Caratoíra, Andorinhas e Santa Martha.
O problema surge quando alguém resolve comprar de algum atravessador e vender nos pontos que são do PCV ou que ele almeja. Aí a briga é certa e parceiros podem se tornar rivais pelo controle do tráfico. No momento, os focos de resistência à facção estão no Morro da Piedade e Morro do Moscoso.
LÍDERES
Quem toma conta do PCV e do Trem Bala é Fernando Moraes Pereira Pimenta, o Marujo. Por estar solto (em liberdade), cabe a ele executar as ordens que vêm da Penitenciária de Segurança Máxima II, onde está detida a principal liderança de sua organização criminosa: Carlos Alberto Furtado da Silva, o Beto.
Os dois contam com o apoio de outras lideranças do tráfico na Grande Vitória e que fazem parte do Conselho do PCV, como Frajola, de Terra Vermelha, Marcelinho, de Viana, e Moderninho, de Alagoano. São os mesmos que também atuaram fortemente na disputa pela Piedade, dando apoio aos traficantes do Morro da Fonte Grande.
A DOMINAÇÃO
Histórico
PCV
Desde o ano de 2010, o Primeiro Comando de Vitória (PCV) começou se instalar no Complexo da Penha, sob as orientações de integrantes da organização criminosa paulista, o PCC.
Diretrizes
O PCV passou a seguir as diretrizes, doutrina, divisão de tarefas, formas de aquisição de drogas e armas de fogo, disciplina, contribuições mensais, registros de caixa do comércio de drogas, enfim, passou a ter as suas ações criminosas norteadas pelo PCC.
Resultado
Lucro
A partir de então, o PCV tem angariado lucros em torno do tráfico de drogas na região e expandido suas ações a partir dos associados que se dividem e se organizam nos conhecidos “braços armados” ou elemento de execução direta, a exemplo do Bonde do Trem Bala.
Força
Uma prova da força do PCC no Estado é que o Trem Bala tentou, no passado, se aliar a outras organizações, como o Comando Vermelho e o ADA (Amigos dos Amigos), mas sem sucesso. E lembrando que o Comando Vermelho atua no Rio de Janeiro e nunca conseguiu entrar no Estado.
Chefes
A administração do PCV e do Trem Bala está nas mãos de Fernando Moraes Pereira Pimenta, o Marujo. Mas a principal liderança, que está presa, é Carlos Alberto Furtado da Silva, o Beto.
Vítimas
Em meio a todo esse esquema complexo dos criminosos, ficam os moradores, vítimas do tráfico, da falta de assistência social e do poder do fuzil.
CONFLITOS RECENTES EM VITÓRIA
ALAGOANO
Retomada
Em agosto de 2018, criminosos ligados ao PCV iniciaram uma sequência de ataques ao Morro do Alagoano, para retomar o controle do tráfico de drogas do local. A luta era contra um grupo de traficantes rejeitados, expulsos da região, que se uniram a bandidos vizinhos do morros do Cabral, do Quadro e de Bela Vista. Moradores relataram trocas de tiros durante quase uma semana. Atualmente, a região está em poder dos aliados do PCV.
ITARARÉ
Expansão
Os grupos de traficantes do bairro têm como principal fornecedor de armas e apoio logístico os criminosos que comandam o Complexo da Penha. As lideranças do Trem Bala e PCV querem “alimentar” essas facções com armamento para que tenham força de enfrentar os grupos locais, numa forma de conseguir ampliar o seu território.
SANTA MARTHA
Conflito
É outra região onde traficantes também contam com a ajuda financeira e logística das lideranças do Trem Bala e PCV, que fornecem armas e apoio logístico para enfrentar as lideranças locais, mas também na luta contra o povo de Itararé. Por enquanto os traficantes de Andorinhas estão como aliados aos de Santa Martha.
ANDORINHAS
Apoio
O conflito na região é antigo e divide-se em duas frentes: uma do grupo de traficantes de Andorinhas, com apoio dos bandidos de Santa Martha, e outra facção de Itararé, que recebe auxílio dos criminosos do Bairro da Penha. No meio desses embates estão os moradores. No dia 26 de agosto, com apenas 14 anos, o estudante Vitor Gabriel Abilio Florentino foi assassinado.
PIEDADE: A ÚLTIMA RESISTÊNCIA
No Morro da Piedade, centro dos conflitos no último ano e da última semana – quando três pessoas morreram –, a situação está mais complicada em decorrência da insistência da “Família Ferreira Dias” em ficar no local. O clã dominava o tráfico na região e provocava medo nos moradores. Em julho de 2018, João Paulo Ferreira Dias, o JP, conhecido como “dono” do morro, e a irmã dele, Elisângela Ferreira Dias, foram presos em Viana.
De acordo com fontes, integrantes da família fazem a resistência ao PCV, que apoia alguns grupos para combatê-los. Eles querem permanecer, mas não têm estrutura para fazer frente ao PCV e ao Trem Bala, porque já não possuem o poderio econômico necessário para comprar droga nem arma de fogo.
Por conta dessa guerra declarada, sete pessoas já foram mortas na região em menos de um ano. Na última segunda-feira, três jovens foram executados e duas pessoas ficaram feridas quando cerca de 10 bandidos abriram fogo em uma praça que fica no alto do Morro do Moscoso, no limite com a Piedade.
Para a polícia, Alan Rosário de Oliveira, 30 anos, e Rafael Batista Lemos, 24 anos, integrantes do PCV, foram os líderes do ataque. Os dois, que estão foragidos, também são acusados de participação nas mortes dos irmãos Ruan e Damião Reis, em março de 2018, e de Walace de Jesus, braço direto de JP, em junho do mesmo ano.
ALVO ESCAPOU
Na noite de segunda-feira, o alvo de Alan e Rafael seria um rival que não voltou para a prisão depois de uma saída temporária. Pela apuração da reportagem, esse rival é Paulo Ricardo Ferreira Dias, irmão de JP.
Ainda de acordo com fontes, as últimas mortes no Moscoso foram ordenadas pelo Beto e Joãozinho da 12, que estão presos e são do Complexo da Penha. Beto determinou a ocupação do território e que ela fosse feita de qualquer jeito e, quem fosse contra, seria eliminado.
A determinação foi dada para Fernando Moraes Pereira Pimenta, o Marujo, o líder do PCV que está em liberdade.
Ele teria contado com o apoio de outros comparsas: Rudnei Jacinto, vulgo Nego 10 (Bairro da Penha); Jaderson Barbosa Alves, vulgo Mala Velha (São Benedito) e Emerson de Jesus Dias (Resistência).
A informação é ainda de que eles contaram com a participação de outras lideranças do Trem Bala, investigados na Operação Concerto, que focou sua atuação na existência de organizações criminosas sediadas no Complexo da Penha voltada para o tráfico de drogas e o extermínio de pessoas.
Essas lideranças estão com mandados de prisão decretados desde de 17 de dezembro de 2018, mas que até agora não foram presos. Na cadeia, estão apenas os que já respondem por outros crimes.
ALAGOANO
Segundo as investigações, Beto e seus comparsas são o braço na Grande Vitória do PCC, principal organização criminosa na América Latina, com total aproximação com traficantes de drogas e armas de fogo que atuam na fronteira do Brasil, responsável por rebeliões, assaltos, sequestros, assassinatos e narcotráfico.
Uma prova da agressividade do grupo ocorreu no Morro do Alagoano, no ano passado, onde também teve tiroteios e conflitos com um toque pessoal, visto que queriam vingar a morte de um amigo, assassinado sem autorização da facção.
Era Antonio Campelo Sodré, o Tucano, morto em Viana. Ligado ao PCV, liderava o tráfico de Alagoano e tinha substituído outro comandante do tráfico local, o Gu, também assassinado. Ocorre que Gu, antes de morrer, expulsou do Alagoano pequenos traficantes que formaram um grupo de rejeitados, e que haviam sido reunido para retomar o local. Por enquanto, a região está sob controle do PCV.
AÇÕES INTEGRADAS PARA DESARTICULAR GANGUES
Para conter o avanço de facções criminosas que têm levado medo para os morros de Vitória, as polícias Civil e Militar têm realizado um trabalho de inteligência em conjunto. Mas, apesar do esforço empregado no monitoramento e da presença diária dos militares na região, a polícia reconhece que está lidando com bandidos que conhecem bem o local onde atuam. “Esses criminosos conhecem os morros, têm uma rede de contatos, sabem onde a polícia está, ficam horas escondidos nas matas e esperam a hora certa para atacar”, explicou o tenente-coronel Geovânio, comandante do 1º Batalhão da Policia Militar.
De acordo com o tenente-coronel, os conflitos estão sendo monitorados de perto pela polícia desde o ano passado, quando os moradores da Piedade e Moscoso começaram a abandonar a região.
Dentre as estratégias adotadas pela polícia, estão o monitoramento das regiões de maiores conflitos e a presença diária da polícia na comunidade.
“A base fixa da PM na Piedade é justamente uma forma de estar no local e estabelecer uma relação de confiança com a comunidade e conseguir ter informações. Trabalhamos integrados em busca de realizar patrulhamento e também a prevenção”, afirmou Geovânio.
O comandante do batalhão ainda reforçou que a presença da PM é constante na região e que, inclusive, já evitou que outros crimes de grandes proporções acontecessem.
INVESTIGAÇÕES
De acordo com o chefe do Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP), delegado José Lopes, a Polícia Civil vem intensificando as investigações para prender os criminosos envolvidos nos assassinatos nos morros de Vitória. Seis suspeitos de envolvimento em mortes no Moscoso já foram identificados e estão sendo procurados.
O delegado também confirmou que investiga uma possível parceria entre o Primeiro Comando de Vitória (PCV), que atua no Complexo da Penha, com o Primeiro Comando da Capital (PCC). A organização criminosa, que atua em diversos Estados do país, segundo fontes de A GAZETA, está por trás dos ataques ocorridos nas regiões da Piedade e do Morro do Moscoso.
“Recebemos sim informações sobre o estreitamento entre esses grupos criminosos. Porém, não podemos confirmar se de fato, essa parceira existe e está atuante aqui no Estado. O que posso afirmar é que toda a informação que chega até nós vai ser apurada. Reunimos tudo que chega até nós. Nosso setor de inteligência já foi acionado e trabalha nisso”, afirmou José Lopes.
"PATRULHAMENTO PREVENTIVO NÃO VAI RESOLVER A SITUAÇÃO"
Para o presidente da Comissão de Segurança Pública da OAB e ex-secretário de Estado da Segurança, Henrique Herkenhoff, é necessário prender os responsáveis. “Basicamente é uma questão de investigar e prender as pessoas que estão fazendo esses movimentos. Não adianta tentar resolver esse problema com patrulhamento preventivo, porque naturalmente os criminosos têm os seus olheiros e sabem o momento em que a polícia está rondando, e a polícia não pode estar lá 24 horas por dia”, analisa.
Herkenhoff acredita que a estratégia de ter posto policial também não adianta, porque o PM está “preso” em um determinado lugar. “Não é uma estratégia suficiente. Só tem uma maneira: fazer a investigação, identificar os culpados e prender. É um trabalho de inteligência e investigação. Patrulhamento preventivo nesses casos não consegue resolver muita coisa. É uma situação paliativa”.
Ao prender os bandidos, há um desincentivo à prática do crime, defende o ex-secretário. “A partir do momento que o criminoso é preso, duas coisas acontecem: ele sente a consequência e os outros também percebem, porque o homicida não é solto em seguida. Isso serve como um desincentivo”, avalia. De acordo com Herkenhoff, o segundo ponto é que, quando há uma punição rápida, desmotiva a vingança do outro lado, pois a tendência é estabelecer guerras de tráfico.
“Se você consegue prender, consegue retirar o alvo dessa vingança. O autor do homicídio de hoje é a vítima de amanhã. Se você prende essa pessoa, diminui o ímpeto de uma vingança. A prisão sistemática já mostrou no Espírito Santo que consegue uma redução consistente no médio e longo prazo. A investigação não elimina a possibilidade de conflitos, mas vai diminuindo sistematicamente. Acho que tem solução, por meio da resposta que não é tão rápida, mas que é consistente, que dá um resultado que se mantém.”
Com informações de Mayra Bandeira