Estamos a seis graus de separação entre a publicação destas linhas tortas ao primeiro chute da Copa do Mundo. E o cronista na torcida do “Nem Tchuns”, aquela que faz biquinho de desprezo pro espírito verde-amarelo dos torcedores, mas, quando vê os canarinhos chegando mais perto do título, vira a casaca e passa a roer as unhas e a lançar impropérios sobre a reputação da mãe do juiz.
Sou o tipo facinho que muda de lado com a mesma vulgaridade com que políticos trocam de partido em terras brasilis. Como eles, mal sei o nome do treinador que preside o partido (de futebol), quem é o companheiro de sigla que faz mais gols nas urnas (o namorado da Marquezini, é isso?) ou o que rouba mais (a bola). Futebol e política são, sob as minhas vistas, uma espécie de Fábio Jr, carne e unha, alma gêmea.
O saldo da última Copa fez nosso espírito feijão mulatinho se humilhar diante do chucrute alemão. Até hoje, o número sete está entalado como mau presságio se uma bola aparece pela frente
O saldo da última Copa fez nosso espírito feijão mulatinho se humilhar diante do chucrute alemão. Até hoje, o número sete, meu número cabalístico da sorte, está entalado como mau presságio se uma bola aparece pela frente. Como o nobre leitor sabe, meus conhecimentos sobre futebol são tão preciosos quanto os do presidente Temer no comando do naufrágio de uma nação.
Naquele ano de 2014, escrevi três crônicas sobre o campeonato como se estivesse dentro dos estádios. E teve leitor crente que o cronista estava de fato acampado sobre a bunda fofa do Hulk, o jogador com traseiro digno de dançarina do É o Tchan. Fui o gandula das letras.
E, depois da ressaca do 7 a 1, sentei às margens do Rio Piedra, abracei Paulo Coelho e chorei. Em nenhum momento levantarei a voz contra o fanatismo auriverde da torcida, mas não contem com meu corpitcho pra vestir uniforme oficial da Seleção comprado na 25 de Março. E vade retro com a vuvuzela infernizando minhas orelhas de Van Gogh.
Mesmo assim, não embarco na conversa de que o país tem outras urgências que precedem o futebol. Deixemos que cada um viva livremente seu momento canarinho. O Brasil não será melhor nem pior com mais uma Copa de vitória ou derrota. Se, na vida pessoal, cada brasileiro cuidasse bem do seu campo e do seu time já seria um belo gol de placa.
*O autor é jornalista e cronista