Não há algo mais frágil que a existência humana. No dia 28 de março de 1968, Edson Luís Souto foi morto, com um tiro à queima-roupa, num protesto contra o aumento do preço da alimentação para estudantes, no Rio. Eu me pergunto quantas coisas poderíamos ouvir de Edson Luís hoje?
Não há algo mais forte que a existência humana. A verdade é que quando jovens temos uma vaga ideia do poder do tempo e da vontade. No dia 28 de março passado a morte do estudante completou 50 anos. Morto no contexto do recrudescimento do regime civil-militar brasileiro. Se só podemos supor, com tristeza no olhar, como teria sido a vida de Edson Luís, sua morte foi raio que atingiu o governo da época. Descortinou a violência das instituições, calou os que ainda defendiam qualquer legitimidade dos generais-presidentes e provocou uma indignação social que não pode ser escondida na, sempre presente, moralidade de ocasião.
Seus colegas carregaram o corpo até a Assembleia do Rio de Janeiro sem permitir o procedimento padrão de levar para o IML. Carregar um jovem de 18 anos morto, expondo a visceral violência do regime que completava quatro anos, foi um ato coletivo. Da dor da morte, nascia a força para enfrentar tanques, armas e o discurso hipócrita que envolvia – e ainda envolve – os acontecimentos entre 1964 e 1985.
Cinquenta anos depois o Brasil está, de novo, com tanques nas ruas, um governo ilegítimo e o sangue de ativistas a evidenciar a falsidade dos que afirmam que “as instituições estão funcionando”. Para tornar ainda mais absurdo o ano que vivemos, o vice-presidente Temer também – como fizeram todos os ditadores do período militar – faz uma declaração dizendo que não houve golpe em 1964 e que não houve, da mesma forma, ditadura. Os detentores do poder não aprenderam nada com Edson Luís.
Os acontecimentos no Brasil e no mundo que levaram em dezembro de 68 o regime militar a instaurar o famigerado AI-5 não se encerram no assassinato de Edson Luís. Contudo, não há como explicar para os que têm filhos e vergonha na cara como um regime mata um jovem de 18 anos por sua opinião. Em 1968 não havia internet nem “fake news” ou organizações secretamente financiadas para jogar os brasileiros uns contra os outros. E talvez o fato de não existirem essas novas ferramentas tenha nos poupado de ouvir que Edson Luís era namorado de algum chefe do tráfico, ou que estava fazendo protesto a mando do Comando Vermelho ou ainda que era um maconheiro esquerdista, defensor do aborto e de “bandido”. É duro para qualquer brasileiro informado e com dois dedos de senso de responsabilidade ver que, em 2018, desembargadoras e coronéis fazem vídeos e postam mentiras, do alto de sua legitimidade, para difamar quem foi assassinado pelo regime que eles apoiam. Antes mesmo que o corpo de Marielle deixasse de produzir calor, os torpes já estavam atacando sua luta, sua memória e seu significado.
Entre 1968 e 2018 o Brasil se tornou mais rápido. Contudo, nem um centímetro menos hipócrita.
As máscaras que levaram quatro anos para cair em 64 levaram apenas dois em 2018. Marielle, assim como Edson Luís, iluminou a violência de regimes que gastavam fortunas para se dizerem legítimos e “democráticos”. As manifestações e passeatas que seguiram à morte de Edson Luís fizeram os perpetradores da violência entrarem numa espiral ainda maior de agressividade. Para encobrir uma morte gera-se mais mortes. Marielle foi assassinada no dia 14, e na última semana outras dez pessoas foram chacinadas em “operações” no Rio de Janeiro. Um ministro da Suprema Corte pede aumento da proteção policial por estar “sofrendo ameaças”. Um outro ministro já morreu em situação, no mínimo, estranha.
Desde o golpe de 2016, mais de 26 líderes sindicais, quilombolas, do Movimento Sem Terra e etc., resistentes pelo Brasil afora foram executados. Em 1968, a seleção brasileira se preparava para as Olimpíadas e Pelé era o “motivo de dúvida” a concorrer pela atenção dos brasileiros. Hoje é o dedo de Neymar e a convocação de Tite para a Copa do Mundo. A verdade é que o Brasil muito pouco se reinventa. Continuamos às voltas com nossos problemas de entendimento histórico, desigualdade, violência institucional e formas de manipular a população. Entre Edsons e Marielles, cinquenta anos nos batem na consciência, mostrando que de Pelé a Neymar continuamos uma sociedade que parece não reconhecer suas prioridades.
Temos muito mais ferramentas para conhecermos o Brasil hoje do que se tinha em 1968. Temos muito mais meios de luta e resistência hoje do que os disponíveis cinquenta anos atrás. E, ainda assim, parece que continuamos num coma induzido, sem capacidade de perceber o quanto o país está à deriva. Contido por armas, fardas e corruptos, sem qualquer projeto inclusivo de nação. Desorganizam e corrompem o pouco de Estado de bem-estar social que havia se conseguido construir no início do século XXI e não oferecem nada em troca.
No Brasil de hoje, as contradições da nossa sociedade são ainda mais evidentes. Enquanto uma minoria faz manifestações pela manutenção de seus privilégios, discutia-se a possibilidade de invadir as casas e prender cidadãos pobres. O Judiciário brasileiro parece querer uma parcela do butim para se manter silente. Nosso STF se tornou evidente órgão de defesa de classe. Defende primeiro a si e depois à propriedade e o capital. Se neste entremeio houver a possibilidade de se vislumbrar a Constituição de 1988, tanto melhor. Mas a verdade é que manter a “ordem”, de repente, tomou precedência sobre direitos individuais ou mesmo sobre o pacto de 88. Aliás, “manter a ordem” foi a desculpa usada para o AI-5, em dezembro de 1968. Na bandeira brasileira “ordem” precede progresso e esta é uma lição que os brasileiros mais humildes aprendem diariamente.
Mais de quarenta mil pessoas são assassinadas no Brasil, todos os anos, e vocês só fazem manifestações por Marielle (e por Edson Luís), dizem um grupo de hipócritas “neo-preocupados”. Até antes da morte de Marielle não sabiam – e nem queriam saber – sobre quem ou quantos morriam. Hoje, se postam como defensores do tratamento igualitário. Dizem que Marielle era apenas “um cadáver comum”.
O que teriam dito estas pessoas sobre Edson Luís? Nossa imaginação, ainda que desprendida de qualquer senso de realidade, não teria o condão de chegar a tais argumentos. O que a História nos poupou da vergonha reacionária naquela época, a internet nos entrega de bandeja em 2018.
*Fernando Horta é professor, historiador e doutorando em Relações Internacionais na UnB