Não há nada mais simbólico do pentacampeonato do que o discutível penteado de Ronaldo Fenômeno. É certo que seus dois gols na final contra a Alemanha, em vitória embalada pelo hit "Festa", de Ivete Sangalo, foram os derradeiros da Copa do Mundo de 2002, mas seu cabelo à la Cascão roubou os holofotes futebolísticos.
Em todo caso, havia mais a ser dito sobre o Brasil do que o que acontecia dentro das quatro linhas. Hoje, o C2 encerra a escavação histórica dos fatos que marcaram a cultura nacional nos anos em que a Seleção venceu o Mundial.
Dois acontecimentos de 2002 logo pedem passagem: o lançamento de "Cidade de Deus", filme de Fernando Meirelles, e a estreia do programa "Big Brother Brasil", exibido até hoje na TV Globo. A adaptação de Meirelles – o filme é baseado no romance de Paulo Lins – acompanha a história do crime da favela-título, quando os traficantes passaram a comandar a região com mãos de ferro. A obra caiu nas graças da bilheteria e de parte da crítica e foi, inclusive, indicado ao Globo de Ouro.
Embora tenha tratado de um ambiente violento e de poucas perspectivas positivas, o filme foi alvo de críticas sob a expressão "cosmética da fome", cunhada pela pesquisadora Ivana Bentes, em oposição ao manifesto "Uma Estética da Fome", escrito por Glauber Rocha. O cineasta defendia que a miséria só deveria ser filmada em uma estética que incomodasse o espectador, de modo a refletir a violência social. Isso "Cidade de Deus" não faz. O longa é, digamos, fácil de assistir.
Mesmo assim, o filme é símbolo de requinte em técnica e narrativa. Tem elementos pinçados, inclusive, do neorrealismo italiano – tema social, elenco amador, cenário real. "Toda a construção do discurso do filme é surpreendente e está em um nível de qualidade poucas vezes visto no cinema brasileiro", opina René Sampaio, diretor de "Faroeste Caboclo".
René considera que "Cidade de Deus" estabeleceu novos parâmetros de linguagem "sem ser um filme hermético". "Mudou a percepção que eu tinha do cinema nacional. Me mostrou o quanto um filme brasileiro pode ser inovador e se conectar com o público. É um filme que comprova o quão longe uma produção brasileira pode ir”, diz.
ESPIADINHA
Fora do espectro do cinema, o ano de 2002 ainda trouxe a estreia do tão amado quanto odiado "Big Brother Brasil", na TV Globo. Até hoje, quando vai ao ar, o programa pauta conversas e repercute em redes sociais. Em janeiro daquele ano, o telespectador brasileiro teve o primeiro contato com um grupo de anônimos que lutaria para ficar na casa a cada semana, à espreita do prêmio máximo de R$ 500 mil. O vencedor foi Kleber Bambam, conhecido por verbalizar verdadeiras pérolas e confeccionar uma namorada imaginária, Maria Eugênia.
Apesar de não ter sido inédito – "Casa dos Artistas" já havia estreado no SBT, em 2001 –, o reality show estabeleceu uma proximidade com o público não vista havia muito tempo em programas da emissora.
Para Rafael Paes, professor de Comunicação Social da Ufes, um das razões para o sucesso é o transporte do espectador para um cotidiano a qual antes não tinha acesso. Como estratégia de aproximação do público, também insere-se a ideia de que o participante pode ser qualquer um.
"Não é preciso saber nada, provar algo ou ter algum talento específico. Também não é preciso realizar nada, como pré-condição para entrar na disputa", explica Rafael.
Sucesso de audiência, o "BBB" foi alvo de arautos do "bom gosto". A atração mediada por Pedro Bial seria fútil e alienante. O "Big Brother Brasil", além de ser puro entretenimento, teria a capacidade de "emburrecer" quem o assiste. Rafael Paes discorda dessa avaliação.
Não é porque é produto massivo de televisão que é uma porcaria. O que interessa é saber se o produto é criativo, se experimenta novas formas, se nos ajuda a entender melhor a nós mesmos e o mundo em que vivemos
Ele lembra que o programa "Esquenta!", também da TV Globo, embora seja entretenimento, oferece certo ativismo político ao público. "Me lembro de uma edição na qual Regina Casé repetiu mais de uma vez que é melhor ter duas mães do que nenhuma, em referência à adoção de crianças por casais homoafetivos. Se assim o quiser, o 'BBB' também poderia ser um veículo para se pautar muita coisa importante."
MAIS 2002
Na literatura, o ano de 2002 viu Paulo Coelho assumir a cadeira nº 21 da Academia Brasileira de Letras, que era de Roberto Campos. Naquele ano, em que o genial Carlos Drummond de Andrade teria completado cem anos, uma série de obras prestaram tributo ao escritor: documentário, livro de ensaios, peças teatrais e especiais em canais de televisão. Seu contemporâneo Sérgio Buarque de Holanda, um dos mais importantes historiadores brasileiros, também foi lembrado em seu centenário.
Na telona, além de "Cidade de Deus", o filme "Edifício Master", obra-prima do saudoso Eduardo Coutinho, estreou e fez barulho. Na televisão, as novelas da TV Globo preencheram o ócio dos brasileiros com as tramas "O Beijo do Vampiro", "Coração de Estudante", "Desejos de Mulher" e "Sabor da Paixão".