O lendário gol do capitão Carlos Alberto Torres – que começou com Tostão no campo de defesa, passou por Clodoaldo, Rivelino, Jairzinho e Pelé antes de encontrar o pé direito do lateral-direito e, depois, a rede do gol italiano – foi o movimento derradeiro da Copa de Mundo de 1970, primeira vencida pelo Brasil a ser transmitida ao vivo pela TV.
A televisão teve participação fundamental na vida dos brasileiros não só no futebol, mas sobretudo na música e na dramaturgia, como mostra a terceira parte do especial do C2 com os fatos marcantes da cultura nacional nos anos em que o Brasil ganhou a Copa do Mundo. A novela das oito "Irmãos Coragem", que estreou na Globo em junho de 1970, é uma das telenovelas mais emblemáticas da TV brasileira. Escrita por Janele Clair e dirigida por Daniel Filho, a trama se encerrou apenas em junho de 1971.
A trama dialogou diretamente com o momento político do país, que vivia sob a ditadura desde 1964. Após o Ato Institucional Nº 5, em 1968, as torturas deixaram de ser exceção e viraram rotina na ação dos militares contra a resistência. Nesse contexto, "Irmãos Coragem" conta a história da fictícia Coroado, cidade rural localizada na divisa de Minas Gerais com Goiás, controlada pelo latifundiário Pedro Barros (Gilberto Marinho).
Rivalizando com o coronel Barros, a trinca de irmãos João (Tarcísio Meira), Jerônimo (Cláudio Cavalcanti) e Duda (Cláudio Marzo) simboliza o conflito entre um grupo oprimido e o poder centralizado. Um remake da novela foi feito em 1995, com nomes como Marcos Palmeira, Marcos Winter, Ilya São Paulo e Letícia Sabatella no elenco.
TRILHA SONORA
No original, os jovens Tarcísio Meira, Claudio Cavalvanti, Cláudio Marzo e Regina Duarte não só cravaram seus nomes no imaginário do espectador, como serviram de ferramentas para uma série de músicos de 1970. É que, naquele ano, compositores miraram nas trilhas sonoras de telenovelas para suas produções decolarem.
Dois exemplos merecem destaque: na própria "Irmãos Coragem", a música "Menina", de Paulinho Nogueira, tema de Potira na novela, levou o nome do compositor às cabeças da música brasileira. Outro sucesso foi "Verão Vermelho", cantada por Elis Regina na abertura da telenovela de mesmo nome.
"Naquela época, as músicas que estavam nas novelas eram feitas exatamente para elas. Não era como hoje, que a música já é conhecida quando vai para o ar", explica Tarcísio Faustini, pesquisador de música brasileira. "Em 1970, era uma novidade aquilo tocando todos os dias. Chamava muito a atenção."
Também havia música "alienada", apesar do contexto político repressor. "Eu Te Amo, Meu Brasil", de Dom & Ravel, foi incorporada ao clima de "Ame-o ou deixe-o" do governo Médici. Ivan Lins foi outro que sofreu com a ambiguidade. A música "O Amor é o Meu País", vice-campeã do V Festival Internacional da Canção, foi rotulada de ufanista e, consequentemente, simpática à ditadura.
Aparentemente, não era uma música sobre o Brasil, mas sobre algo mais geral. Mas várias pessoas não sabiam o que estava acontecendo no país. Algumas músicas serviram claramente como propaganda do governo militar
De todo modo, a música dita engajada não perdeu espaço, segundo Faustini. Chico Buarque lançou a simbólica "Apesar de Você", lá do exílio, que criticava a falta de liberdades no Brasil, dirigido naquele momento pelo general Emílio Garrastazu Médici. Taiguara também marcou 1970 com o belo disco "Viagem". O compositor, ao todo, teve 68 canções censuradas pela ditadura.
No lado mais afeito ao tropicalismo – embora o movimento já estivesse apagado –, Gilberto Gil e Caetano fizeram duas grandes aparições após o exílio: em março, tocaram em vários shows pela Europa, e no Festival da Ilha de Wight, que reuniu cerca de 600 mil pessoas, dividindo o palco com nomes como Jimi Hendrix, The Who e The Doors, no auge da contracultura.
O´que incomodava a ditadura em Gil e Caetano não era a questão política,masa postura.Eles sempre foram diferentes
NOVO SAMBA
Houve espaço também para uma revitalização no samba. Uma nova geração do estilo começou a se firmar – chamado por muitos de partido-alto moderno, uma espécie de dissidência do subgênero da década de 1940 – e a tocar mais nas rádios. Discos de Paulinho da Viola, Nelson Cavaquinho e Martinho da Vila encabeçaram aquele movimento que, mais tarde, serviria de inspiração para o pagode de raiz, ao som de banjo e tantã.