Enquanto o Brasil se afirmava como protagonista no futebol mundial ao vencer sua segunda Copa do Mundo – igualando-se, assim, a Uruguai e Itália –, o mundo das artes continuava a se movimentar naquele ano de 1962. O segunda parte do especial do C2 sobre o contexto cultural nos anos em que o Brasil venceu a Copa do Mundo relembra os grandes acontecimentos artísticos da época em que Vavá fechou o caixão da dura Tchecoslováquia no Estádio Nacional do Chile.
Um mês antes da Copa, o cinema brasileiro conhecia seu primeiro sucesso internacional de crítica. "O Pagador de Promessas", filme de Anselmo Duarte inspirado na peça de Dias Gomes, sagrava-se vencedor da Palma de Ouro do Festival de Cannes, na França, feito único até hoje. Há uma lenda, aliás, que diz que os aplausos naquela sessão foram puxados pelo cineasta François Truffaut, do inesquecível "Os Incompreendidos".
Outros troféus vieram no mesmo ano: Prêmio Especial do Júri, no Festival de Cartegena, na Colômbia; Melhor Filme e Melhor Trilha Sonora no San Francisco International Fil Festival. Em 1963, o longa ainda foi indicado na categoria de Melhor Filme Estrangeiro do Oscar.
"É um marco porque era uma época em que o cinema brasileiro vivia ainda mais às sombras das grandes produções estrangeiras, em particular de Hollywood", analisa André Malverdes, professor da Ufes e pesquisador de cinema.
No início dos anos 1960, a televisão ainda não era comum nos lares brasileiros. A população só assistiu ao bicampeonato da Seleção Brasileira, inclusive, por meio dos videotapes – o popular VT. As fitas chegavam ao país, em média, com dois dias de atraso. O jeito era ouvir pelo rádio.
Por isso, os cinemas de rua ainda eram a alternativa mais viável de contato com o audiovisual. Nesse contexto, os prêmios do filme foram mais um incentivo para o consumo do cinema nacional. "A indicação do filme para o Oscar e sua qualidade contribuíram para um conjunto de coisas que repercutiu na história do cinema brasileiro", diz o pesquisador.
TEMAS POLÊMICOS
André pontua que "O Pagador de Promessas" não foi importante apenas pelas premiações, mas por ter tratado de dois temas agudos: o sincretismo religioso e a reforma agrária. "Até hoje, as discussões sobre as religiões no Brasil e a reforma agrária são complicadas. Na época, então, eram impensáveis."
Na história, Zé do Burro (Leonardo Villar) faz uma promessa a Iansã (orixá do candomblé, que no catolicismo corresponde a Santa Bárbara): se o seu burro de estimação, ferido por um raio, for salvo, ele dividirá seu pedaço de terra entre os precisados e, de cruz nas costas, seguirá até a Igreja de Santa Bárbara, em Salvador. Quando chega ao destino, porém, o padre Olavo (Dionísio Azevedo) não o deixa entrar por causa da natureza da promessa, feita em circunstâncias pagãs.
No elenco, figuram estrelas futuras do audiovisual brasileiro, a exemplo de Othon Bastos, Geraldo Del Rey e Glória Menezes, intérprete de Rosa, esposa de Zé do Burro. Norma Bengell também trabalhou no filme, chamada às pressas para o papel de Marli.
Lançado no auge do Cinema Novo, o filme difere das produções daquele movimento encabeçado por "Deus e o Diabo na Terra do Sol". Sua linguagem dava um passo atrás em relação à estética preconizada pela nouvelle vague francesa, com arcos dramáticos de inspiração teatral e grande envolvimento com os personagens. Em suma, naquela época, "O Pagador de Promessas" foi classificado como um filme "à moda antiga".
GAROTA DE IPANEMA
O ano de 1962 também foi da bossa nova. Desde que a linha foi traçada pelas batidas de João Gilberto em "Chega de Saudade" (1958), o estilo se solidificou como expressão máxima da arte brasileira, com sua mistura entre temas leves e sofisticação rítmica. Naquele ano, a representante maior da bossa viu a luz da noite: "Garota de Ipanema", de Vinicius de Moraes e Tom Jobim.
O parto foi na boate Au Bon Gourmet, em Copacabana, Rio de Janeiro, no mês de agosto. No palco estavam, além dos compositores da música, o mestre João Gilberto e o grupo Os Cariocas. O show, que foi reprisado na boate outros 44 dias, foi a primeira e única ocasião em que o trio de peso da música popular brasileira se reuniu para uma apresentação.
Em novembro de 1962, a bossa nova viveria outro capítulo fundamental em sua existência: a apresentação no Carnegie Hall, em Nova York. Os norte-americanos assistiram à reunião, no palco, de João Gilberto, Carlos Lyra, Tom Jobim, Roberto Menescal, Sérgio Mendes e outros artistas do gênero. Na plateia, engrossando o público reverente, estavam Miles Davis, Dizzy Gillespie, Gerry Mulligan, Tony Bennett e outros grandes nomes do jazz daquele país.