"Brasileiro! Não foi apenas a vitória de um time. Foi um triunfo vital de todos nós. A partir da vitória, o brasileiro passa a acreditar em si mesmo e no Brasil. Viva o Brasil, viva o brasileiro!".
Pelo entusiasmo – justificadíssimo! – de Nelson Rodrigues, parece que nada mais estava acontecendo no Brasil. Aquele 1958 era ano do primeiro campeonato brasileiro na Copa do Mundo, com um belo e empolgante 5 a 1 em cima da Suécia. Mas, no mundo das artes, muitos movimentos de peso surgiam, entre eles a bossa nova, o concretismo, o Cinema Novo.
Para celebrar a paixão brasileira pelas Copas do Mundo, o Caderno 2, de A Gazeta, relembrou os fatos mais importantes da cultura nacional nos anos em que o Brasil foi campeão – começando hoje com 1958.
Talvez um dos mais proeminentes e duradouros movimentos que tomaram conta do Brasil naquele ano foi o da bossa nova. Para muitos críticos, o movimento musical se iniciava com o lançamento do 78 rotações do violonista baiano João Gilberto, em agosto (O LP de mesmo nome foi lançado em 1959). Também em 1958, saía "Canção do Amor Demais", de Elizete Cardoso, com canções de Vinicius de Moraes e Antonio Carlos Jobim e arranjos de violão de João Gilberto.
Na mesma época, o presidente Juscelino Kubitschek iniciava sua fase desenvolvimentista e o movimento acabou ficando associado ao crescimento urbano brasileiro, que culminou com a construção e inauguração de Brasília, em 1960.
"A bossa nova, para a gente que tem sensibilidade, foi uma coisa muito forte. Tem coisas na bossa nova que não dá nem para descrever de tão gostoso que é. Também dou muita importância às letras, que nem têm comparação com as que ouvimos hoje. Para mim, Tom Jobim é 100 pontos acima de todo mundo. Ele era fantástico", brada o produtor musical Luiz Paixão, que viu o nascimento do gênero.
Na década de 1960, Paixão recebeu Vinicius em sua casa, em Vitória, o que evidencia sua ligação afetiva com o movimento. Vinicius, inclusive, mandou para ele o raro "Brasília, Sinfonia da Alvorada", de 1961.
No teatro, novos movimentos começavam a surgir. Enquanto o Teatro Cacilda Becker movimentava a cena carioca – sua inauguração foi em dezembro de 1957 – José Celso Martinez Corrêa, o Zé Celso, inaugurava a vanguarda do Teatro Oficina.
Em São Paulo, estreava em fevereiro, no Teatro Arena, uma das peças mais importantes do teatro brasileiro pré-ditadura, inclusive representando a guinada para um espetáculo de cunho sócio-político, que viria a se fortalecer nos anos de chumbo: "Eles Não Usam Black Tie", com texto de Gianfrancesco Guarnieri e músicas de Adoniran Barbosa.
O Cinema Novo também começava a despontar com suas primeiras produções, mas a chanchada ainda demonstrava vigor em 17 filmes. "O Grande Momento", de Roberto Santos, talvez seja o mais importante filme do ano, considerado um precursor do Cinema Novo.
Na televisão, a TV Tupi chegava aos lares ainda em preto e branco e trazia Tarcísio Meira em “O Retrato de Dorian Gray”, adaptação para o teleteatro do personagem mais famoso do escritor irlandês Oscar Wilde.
CONCRETISMO
Na literatura, um dos mais importantes movimentos da poesia tomava corpo em 1958. Foi naquele ano que o "Plano Piloto para Poesia Concreta" foi publicado, embora sua manifestação artística maior tenha sido em 1956. No entanto, é importante pontuar que o manifesto saiu em 1958 porque foi ali que se deu uma ruptura mais clara e uma postura mais assertiva frente ao estado da arte.
Marli Siqueira Leite, mestre em Estudos Literários, destaca que ícones da poesia concretista, como Décio Pignatari, os irmãos Augusto e Haroldo de Campos, Ronaldo Azeredo, Wlademir Dias-Pino e Ferreira Gulart, além de, já nas artes, Hélio Oiticica, Waldemar Cordeiro, Luiz Sacilloto e o mestre dos concretos, Alfredo Volpi, pretendiam romper com os padrões tradicionais da poesia, como o verso, a métrica e a rima.
"O fato de a poesia concreta ter rompido com o verso e, de alguma forma, ter aproximado a poesia, caracterizada tradicionalmente pela linguagem verbal, de outras manifestações artísticas, como a arte visual, a música, a arquitetura, levou, sem dúvida, a uma quebra de paradigmas bastante importante. Tem-se a figura importantíssima de Paulo Leminski, uma cria direta dos concretos que continuou criando e explorando os ideais do grupo, e Ana Cristina Cesar, outra que também explorou a visualidade em sua poesia e merece destaque", explica Marli.
Se até a década de 1950 o Brasil era reprodutor de modelos estrangeiros e exportador de matéria-prima, tanto na economia quanto nas artes, 1958 deu os sinais de toda a efervescência que viria a seguir. E como disse Tom Zé na ode à bossa "Vaia de Bêbado Não Vale", a partir de 1958 o Brasil se tornou exportador de arte, "o grau mais alto da capacidade humana".
* Reportagem originalmente escrita por Leandro Reis e Luisa Torre